Lagarta oriental ameaça milho e trigo no Brasil

Estudo aponta áreas de risco para Mythimna separata no Sul e Sudeste e orienta vigilância fitossanitária

29.05.2026 | 07:05 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Takahashi
Foto: Takahashi

A lagarta oriental Mythimna separata, praga quarentenária ausente no Brasil, encontra áreas climaticamente favoráveis no país e pode gerar risco econômico para cultivos de trigo, milho, cana-de-açúcar, arroz e sorgo. Estudo mapeou a ameaça global da espécie e estimou o risco para municípios brasileiros com base na aptidão climática e na importância econômica dessas culturas.

O maior risco recai sobre o trigo. Entre os municípios produtores, 45,8 por cento entraram na classe de risco moderado e 48,9 por cento na classe de risco alto em caso de invasão. Na cana-de-açúcar, 47,1 por cento dos municípios apresentaram risco moderado e 17,0 por cento, risco alto. No arroz, os índices chegaram a 28,7 por cento e 8,5 por cento. No milho, 29,2 por cento dos municípios ficaram em risco moderado e 5,5 por cento em risco alto. No sorgo, 15,2 por cento apresentaram risco moderado e 0,3 por cento, risco alto.

Os pesquisadores Gabriel Dorotel da Silva Ferreira e Cesar Augusto Marchioro, da Universidade Federal de Santa Catarina, usaram modelagem de nicho ecológico com o algoritmo MaxEnt. O modelo combinou registros de ocorrência da praga, variáveis climáticas, altitude e dados de produção agrícola. A análise também incorporou uma matriz de risco com cinco classes de probabilidade de ocorrência e cinco classes de importância econômica municipal.

Áreas de risco

O estudo identificou áreas de risco fora da distribuição nativa da praga. As regiões incluem América do Norte, América Central, América do Sul, Europa, sudeste da Austrália e Nova Zelândia. No Brasil, as áreas mais sensíveis concentram-se no Sul e no Sudeste. Nessas regiões, ocorre sobreposição entre clima favorável e produção agrícola relevante.

A variável com maior influência no modelo foi a temperatura média anual, com 41,64 por cento de importância. A sazonalidade da temperatura respondeu por 20,96 por cento. A altitude respondeu por 19,31 por cento. Juntas, essas variáveis explicaram a maior parte da distribuição potencial de Mythimna separata. A aptidão aumentou até cerca de 15 graus Celsius e caiu em temperaturas superiores. O modelo indicou maior favorabilidade em altitudes inferiores a 500 metros.

Danos em culturas

A espécie causa danos em culturas de ampla distribuição, como milho, arroz, sorgo, cana-de-açúcar e trigo. Segundo os pesquisadores, a capacidade migratória amplia o risco de dispersão após uma eventual entrada. Estudos com radar citados pelos pesquisadores mostram deslocamentos em altitudes de 50 metros a 500 metros, com velocidades de 4 metros por segundo a 12 metros por segundo e voos de cerca de dez horas por noite. Esse padrão permite deslocamentos de até 144 quilômetros por noite.

A análise global mostrou grande exposição de áreas agrícolas. Nas áreas cultivadas com arroz, 35 por cento ficam em regiões moderadamente a altamente adequadas. No milho, o índice chega a 39 por cento. No trigo, alcança 46,9 por cento. No Brasil, 90,7 por cento das áreas de arroz e 36,2 por cento das áreas de cana-de-açúcar aparecem dentro de zonas climaticamente adequadas para a praga.

Os pesquisadores calcularam o Índice de Concentração Normalizado para medir a relevância econômica de cada cultura nos municípios. No trigo, 36,6 por cento dos 1.016 municípios produtores apresentaram dependência moderada a muito alta. Na cana-de-açúcar, 22,9 por cento dos 3.169 municípios produtores entraram nessas classes. No milho, 10,0 por cento dos 5.110 municípios apresentaram dependência moderada a alta. No arroz, o índice chegou a 7,1 por cento dos 1.665 municípios. No sorgo, alcançou 6,5 por cento dos 644 municípios.

Prioridade para vigilância

Os mapas de risco econômico indicam prioridade para vigilância fitossanitária em pontos de entrada e municípios com maior dependência das culturas hospedeiras. O trabalho cita inspeção direcionada de produtos e resíduos agrícolas, redes de armadilhas em municípios prioritários, procedimentos padronizados de notificação e planos de contingência em escala municipal.

A pesquisa compara a situação com invasões já registradas no Brasil. Helicoverpa armigera entrou no país e já possuía ampla distribuição quando recebeu o primeiro registro, em 2013. A erradicação tornou-se inviável. Em outro caso, Cydia pomonella teve detecção precoce e passou por um programa coordenado de erradicação, com armadilhas, remoção de hospedeiros e manejo local.

Segundo os pesquisadores, mapas em escala municipal podem orientar a alocação de recursos de vigilância. A integração entre risco climático, rotas prováveis de introdução e valor econômico das culturas permite antecipar áreas prioritárias para prevenção contra Mythimna separata.

Outras informações em doi.org/10.1002/ps.70954

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