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A lagarta oriental Mythimna separata, praga quarentenária ausente no Brasil, encontra áreas climaticamente favoráveis no país e pode gerar risco econômico para cultivos de trigo, milho, cana-de-açúcar, arroz e sorgo. Estudo mapeou a ameaça global da espécie e estimou o risco para municípios brasileiros com base na aptidão climática e na importância econômica dessas culturas.
O maior risco recai sobre o trigo. Entre os municípios produtores, 45,8 por cento entraram na classe de risco moderado e 48,9 por cento na classe de risco alto em caso de invasão. Na cana-de-açúcar, 47,1 por cento dos municípios apresentaram risco moderado e 17,0 por cento, risco alto. No arroz, os índices chegaram a 28,7 por cento e 8,5 por cento. No milho, 29,2 por cento dos municípios ficaram em risco moderado e 5,5 por cento em risco alto. No sorgo, 15,2 por cento apresentaram risco moderado e 0,3 por cento, risco alto.
Os pesquisadores Gabriel Dorotel da Silva Ferreira e Cesar Augusto Marchioro, da Universidade Federal de Santa Catarina, usaram modelagem de nicho ecológico com o algoritmo MaxEnt. O modelo combinou registros de ocorrência da praga, variáveis climáticas, altitude e dados de produção agrícola. A análise também incorporou uma matriz de risco com cinco classes de probabilidade de ocorrência e cinco classes de importância econômica municipal.
O estudo identificou áreas de risco fora da distribuição nativa da praga. As regiões incluem América do Norte, América Central, América do Sul, Europa, sudeste da Austrália e Nova Zelândia. No Brasil, as áreas mais sensíveis concentram-se no Sul e no Sudeste. Nessas regiões, ocorre sobreposição entre clima favorável e produção agrícola relevante.
A variável com maior influência no modelo foi a temperatura média anual, com 41,64 por cento de importância. A sazonalidade da temperatura respondeu por 20,96 por cento. A altitude respondeu por 19,31 por cento. Juntas, essas variáveis explicaram a maior parte da distribuição potencial de Mythimna separata. A aptidão aumentou até cerca de 15 graus Celsius e caiu em temperaturas superiores. O modelo indicou maior favorabilidade em altitudes inferiores a 500 metros.
A espécie causa danos em culturas de ampla distribuição, como milho, arroz, sorgo, cana-de-açúcar e trigo. Segundo os pesquisadores, a capacidade migratória amplia o risco de dispersão após uma eventual entrada. Estudos com radar citados pelos pesquisadores mostram deslocamentos em altitudes de 50 metros a 500 metros, com velocidades de 4 metros por segundo a 12 metros por segundo e voos de cerca de dez horas por noite. Esse padrão permite deslocamentos de até 144 quilômetros por noite.
A análise global mostrou grande exposição de áreas agrícolas. Nas áreas cultivadas com arroz, 35 por cento ficam em regiões moderadamente a altamente adequadas. No milho, o índice chega a 39 por cento. No trigo, alcança 46,9 por cento. No Brasil, 90,7 por cento das áreas de arroz e 36,2 por cento das áreas de cana-de-açúcar aparecem dentro de zonas climaticamente adequadas para a praga.
Os pesquisadores calcularam o Índice de Concentração Normalizado para medir a relevância econômica de cada cultura nos municípios. No trigo, 36,6 por cento dos 1.016 municípios produtores apresentaram dependência moderada a muito alta. Na cana-de-açúcar, 22,9 por cento dos 3.169 municípios produtores entraram nessas classes. No milho, 10,0 por cento dos 5.110 municípios apresentaram dependência moderada a alta. No arroz, o índice chegou a 7,1 por cento dos 1.665 municípios. No sorgo, alcançou 6,5 por cento dos 644 municípios.
Os mapas de risco econômico indicam prioridade para vigilância fitossanitária em pontos de entrada e municípios com maior dependência das culturas hospedeiras. O trabalho cita inspeção direcionada de produtos e resíduos agrícolas, redes de armadilhas em municípios prioritários, procedimentos padronizados de notificação e planos de contingência em escala municipal.
A pesquisa compara a situação com invasões já registradas no Brasil. Helicoverpa armigera entrou no país e já possuía ampla distribuição quando recebeu o primeiro registro, em 2013. A erradicação tornou-se inviável. Em outro caso, Cydia pomonella teve detecção precoce e passou por um programa coordenado de erradicação, com armadilhas, remoção de hospedeiros e manejo local.
Segundo os pesquisadores, mapas em escala municipal podem orientar a alocação de recursos de vigilância. A integração entre risco climático, rotas prováveis de introdução e valor econômico das culturas permite antecipar áreas prioritárias para prevenção contra Mythimna separata.
Outras informações em doi.org/10.1002/ps.70954
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