Manejo do solo para a cana-de-açúcar

Por Sandro Roberto Brancalião, Marcos Guimarães de Andrade Landell e outros

26.02.2025 | 08:40 (UTC -3)

A expansão da cultura de cana-de-açúcar em áreas onde predominam solos com horizonte superficial de textura leve, na região Centro-Sul do país, tem provocado processos de degradação do solo preocupantes, sendo esses solos mais suscetíveis à erosão.

Em contrapartida, solos argilosos podem ter uma compacidade, ou reação ao tráfego de máquinas e transbordos, maior do que os arenosos, ficando sujeitos ao aumento da densidade e à diminuição da porosidade, o que prejudica as plantas e o seu desenvolvimento radicular.

O efeito do tempo de reforma e a utilização de culturas econômicas (oleaginosas - soja, girassol ou amendoim e gramíneas -, sorgo sacarino, milho) e recuperadoras do solo (braquiária, adubos verdes) serão observados. O comportamento físico, químico e biológico do solo e sua capacidade de autorrecuperação e produção devem ser avaliados, tendo como referência áreas sob vegetação natural, pastagens de longa duração e culturas anuais e perenes conduzidas com sistemas conservacionistas.

A Meiosi (método interrotacional simultâneo), com culturas intercalares, que permitem deixar linhas-mães de cana no campo, e, portanto, as mudas, possibilitará a substituição e a rotação de culturas no local, onde a cultura antecessora seja a soja, por exemplo.

Descrição das atividades

A utilização do cultivo das soqueiras, como forma de facilitar a incorporação do fertilizante no solo e deixar o terreno em condições favoráveis para a aplicação de herbicidas em locais com ausência de palha, deixa o solo mais propício para o manejo e a adequação do preparo.

O preparo do solo tem como finalidade deixar o terreno pronto e propício para que a atividade seguinte da cadeia produtiva - processo de plantio - seja realizada. Compreende atividades normalmente realizadas segundo uma sequência operacional, algumas vezes, bastante padronizadas.

Sequência operacional

A escolha do tipo de preparo será uma consequência da característica mostrada pelo solo de cada um dos locais onde o manejo será executado. A gradagem é uma operação utilizada para se fazer estradas, pois permite que o solo fique compactado ao utilizá-la com umidade excessiva do terreno, formando cicatrizes de preparo. O uso ostensivo na mesma profundidade não melhora a infiltração de água nem promove agregação do solo, entretanto, a gradagem combinada à subsolagem e aração pode ter benefícios, sendo bem regulada e utilizada no momento adequado.

Diferentes classes de grades: leve, média, pesada e superpesada
Diferentes classes de grades: leve, média, pesada e superpesada

A certeza de que solos mal manejados podem perder irreversivelmente as suas capacidades produtivas recai na importância da resiliência dos solos tropicais. Isso leva os agricultores a procurarem minimizar eventuais danos que possam ser implementados aos solos pela ausência de cuidados agronômicos em sua utilização para a produção agrícola.

Definição e utilização do preparo convencional

  • Gradagem pesada: essa mesma operação deve ser novamente realizada na fase final do preparo convencional do solo, com a finalidade reduzir, prioritariamente, o tamanho dos blocos deixados pelas operações anteriores (construção de terraços, subsolagem e aração, se houver) e incorporar eventuais restos culturais que ainda permaneçam na superfície do terreno.
  • Gradagem leve e interação no manejo com herbicidas: quando utilizada complementando a segunda gradagem pesada, tem a finalidade de destorroar o solo, deixando a superfície nivelada para a realização da sulcação. Para que a operação seja eficiente no auxílio aos produtos herbicidas, precisa ser realizada no máximo um ou dois dias antes da realização da operação de sulcação. Isso se justifica porque as sementes, especialmente as das gramíneas, quando germinam, emitem seus primórdios radiculares no sentido da profundidade do solo e, depois de uma ou duas semanas, os produtos de absorção radicular não conseguem mais ter o efeito esperado para o controle das plantas daninhas. Depois de passado este tempo, as raízes saem do raio de ação dos produtos herbicidas e as plantas daninhas vegetam sem limitações.

Ambientes de produção e mecanização intensiva

Atributos morfológicos e, consequentemente, físico-hídricos são extremamente relevantes ao manejo e à conservação dos solos na exploração com a cultura canavieira, já que, no conjunto, implicam na velocidade de infiltração da água (condutividade hidráulica), na capacidade de armazenamento desta, na resistência dos agregados à desestabilização, ou a estabilidade de agregados, e na água disponível.

Os valores médios de déficits hídricos de algumas localidades da região Centro-Sul estão representados na figura abaixo. Acrescente-se, também, que esses déficits são calculados a partir de dados mensais, os quais mascaram significativamente os déficits reais.

Déficit hídrico médio acumulado para plantio em diferentes regiões e épocas em solos com CAD de 50 mm (CAD = Capacidade de Água Disponível) 
Déficit hídrico médio acumulado para plantio em diferentes regiões e épocas em solos com CAD de 50 mm (CAD = Capacidade de Água Disponível) 

Matriz do terceiro eixo

A matriz do terceiro eixo se deve ao fato de uma nova estratégia desenvolvida pelo IAC, ao trazer o ciclo de produção, isto é, o corte da cana-de-açúcar, como mais um fator, o terceiro, a se somar ao ambiente de produção e à época de colheita, com o objetivo de minimizar os efeitos do déficit hídrico.

Esse efeito de minimizar o déficit hídrico gera, consequentemente, ganhos mais expressivos e imediatos na produtividade, principalmente no segundo corte e nos cortes mais avançados no canavial. Isso por que esse modelo impacta diretamente no aprofundamento e desenvolvimento das raízes, gerando queda e, até mesmo, aumento na população de colmos desses primeiros ciclos.

A questão dos argissolos

Considerando-se os solos da região Oeste paulista, pode-se definir, quanto à suscetibilidade à erosão, em ordem crescente: LV ˂ PV arênico ˂ PV. Quanto ao preparo (Tabela 1), deverão ser alocados, quando necessário, em períodos de maior pluviosidade, permitindo um direcionamento do preparo dos argissolos para meses de pluviosidade menos intensa. Em região de déficit hídrico mais acentuado, os latossolos não devem receber o plantio de cana-de-açúcar em janeiro/fevereiro, excepcionalmente quando eutróficos, uma vez que, em função da baixa CAD e de um expressivo desenvolvimento até maio/junho, implicando inclusive na formação dos primeiros internódios, serão expostos a déficits hídricos elevados em meados de safra.

Nessa composição de solos desenvolvidos de arenitos, os argissolos arênicos, que apresentam menor erodibilidade em relação aos argissolos com horizonte A menos espessos, devem ser direcionados para o início do plantio. Nas figuras abaixo encontram-se algumas imagens de perfis de argissolos arênicos com caráter abrupto e de textura arenosa no horizonte A e média no horizonte Bt, e imagens da micromorfologia desses perfis.

Morfologia e micromorfologia de um perfil de argissolo vermelho-amarelo eutrófico arênico ilustrando as razões da CAD elevada
Morfologia e micromorfologia de um perfil de argissolo vermelho-amarelo eutrófico arênico ilustrando as razões da CAD elevada
Perfil de um argissolo vermelho-amarelo eutrófico espessarênico, com detalhe micromorfológico mostrando o contato entre uma lamela de argila e a estrutura maciça porosa em grãos simples do horizonte E, provocando a formação de zonas de acúmulo de água  
Perfil de um argissolo vermelho-amarelo eutrófico espessarênico, com detalhe micromorfológico mostrando o contato entre uma lamela de argila e a estrutura maciça porosa em grãos simples do horizonte E, provocando a formação de zonas de acúmulo de água  

Observa-se na figura abaixo que, entre os horizontes A + E e Bt, ocorrem lamelas de textura média (15% a 20% de argila), as quais interrompem parcialmente a drenagem; no Bt, ocorrem zonas de acúmulo de água, devido à debilidade estrutural (teor médio de argila entre 15% e 25%), não se estabelecendo uma continuidade dos poros, resultando em quantidades elevadas de água disponível pela falta de drenagem deste horizonte Bt, enquadrando estes perfis como solos de CAD alta e, portanto, devendo seu período de colheita ser estendido, tanto para o início como para o final da safra.

Deve-se, no entanto, lembrar que a suscetibilidade à erosão é função da condutividade hidráulica e da resistência dos agregados ao desmonte e arraste pela água, e que esses argissolos se apresentam sem agregação no horizonte A (grãos simples, normalmente quartzo). Assim, embora os arênicos apresentem elevada condutividade hidráulica, apenas uma fase da resistência à erosão necessita de cobertura vegetal para promover a amarração da areia pelo sistema radicular dessa cobertura (soqueiras de cana-de-açúcar, crotalária, milheto, ervas daninhas etc.), o qual produz uma “estrutura” provisória suficiente para evitar o desmonte e o consequente arraste das partículas individuais de quartzo.

(A) perfil de solo com horizonte A arenoso; (B) touceira de gramínea promovendo a amarração da fraca estrutura; (C) volume de terra envolvido pelo enovelamento do sistema radicular da touceira de capim - Fotos: Jairo Mazza
(A) perfil de solo com horizonte A arenoso; (B) touceira de gramínea promovendo a amarração da fraca estrutura; (C) volume de terra envolvido pelo enovelamento do sistema radicular da touceira de capim - Fotos: Jairo Mazza

Por Sandro Roberto Brancalião, Marcos Guimarães de Andrade Landell, Márcio Aurélio Pitta Bidóia, Raffaella Rossetto, e Mauro Alexandre Xavier (IAC/APTA/SAA)

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