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Fertirrigação em cana-de-açúcar

02/05/2022

O uso de nitrogênio via água de irrigação em sistema de pivô central pode trazer vários benefícios aos canaviais. Aumento da produtividade e melhorias nos índices de qualidade da matéria prima se destacam. Seu uso, no entanto, precisa ocorrer de forma racional, com atenção a aspectos sociais e ecológicos da região, ao mesmo tempo em que ajude a tornar mais lucrativa a atividade.

A cultura da cana-de-açúcar é bastante exigente quanto à nutrição. O nitrogênio (N) é requerido em grandes quantidades para a produção de biomassa. Em média 1,4 kg de N por tonelada de colmo produzido. É dentre os nutrientes minerais aplicados para a produção de cana-de-açúcar no Brasil o mais caro, e as quantidades adubadas de N fertilizante geralmente são iguais ou menores que as exportadas pelos colmos. A sua deficiência causa redução na síntese de clorofila, de aminoácidos essenciais e da energia necessária à produção de carboidratos e esqueletos carbônicos, refletindo diretamente no desenvolvimento e rendimento da cultura.

A fertirrigação é uma técnica que tem por objetivo a aplicação de fertilizantes em estado líquido, juntamente com a água de irrigação, otimizando o sistema de irrigação, que na maioria das vezes possui um custo elevado. Essa operação é de grande utilidade para as plantas, pois o fertilizante é fornecido com a água que está sendo aplicada ao solo (essencial para sua absorção). Apresenta ainda muitas outras vantagens, como a melhor distribuição do fertilizante no campo, redução dos custos, diminuição da compactação do solo, maior flexibilidade de aplicação, possibilidade de aplicação em épocas críticas e redução de danos mecânicos à cultura.

O uso da fertirrigação possui, de modo geral, a característica de melhorar a eficiência no uso dos nutrientes, por serem aplicados de maneira fracionada, conforme a marcha de absorção de nutrientes da cultura. A aplicação de fertilizantes via água de irrigação deve seguir as recomendações de período de aplicação, frequência, doses e fontes assegurando, dessa maneira, uma adequada oferta de água e nutrientes na zona radicular da planta.

Trabalhando com a hipótese de que a fonte e a oferta de nitrogênio via água de irrigação influenciam o cultivo da cana-de-açúcar na região do Cerrado, foi realizado estudo para avaliar a produtividade, qualidade e rendimento da cana-de-açúcar irrigada submetida a diferentes doses de fertirrigação nitrogenada via sistema de pivô central no ciclo de cana-planta em um latossolo vermelho distrófico argiloso, fase cerrado.

O experimento

O experimento foi conduzido em condições de campo, em área da fazenda Rio Paraiso II pertencente à Usina Raízen, no município de Jataí, Goiás. As coordenadas geográficas do local são 17°44'2.62"S e 51°39'6.06"O, com altitude média de 907 m. Segundo a classificação de Köppen & Geiger (1928), o clima do local é do tipo Aw, tropical, com chuva nos meses de outubro a abril, e seca nos meses de maio a setembro. A temperatura máxima oscila de 35ºC a 37ºC, e a mínima de 12ºC a 15 ºC (no inverno há ocorrências de até 5º graus). A precipitação anual chega a 1.800 mm aproximadamente, porém mal distribuídas ao longo do ano. O solo da área experimental é classificado como Latossolo Vermelho distrófico, muito argiloso.

O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso. Os fatores avaliados constituíram de quatro doses de N aplicados via fertirrigação (0 kg/ ha, 60 kg ha, 120 kg ha e 180 kg ha), parcelada em quatro aplicações mensais a partir dos 60 dias após o plantio.

Todos os tratamentos foram adubados no sulco de plantio com fósforo P2O5 (100 kg/ ha) na forma de superfosfato triplo, potássio K2O (80 kg/ha) na forma de cloreto de potássio, e micronutrientes, conforme resultados das análises de solo e recomendação.

O preparo do solo foi realizado pelo sistema convencional, por meio de aração e gradagem, seguido de abertura dos sulcos de plantio mecanizado. A variedade implantada no experimento foi a IACSP95-5000, nas condições de cana-planta, plantada em 05/08/2014. Os tratos culturais referentes ao uso de herbicidas, inseticidas, fungicidas e demais produtos relacionados com o controle de plantas invasoras, pragas e doenças foram utilizados conforme a necessidade e avaliação de infestação, e de acordo com as práticas adotadas pela Usina Raízen.

A irrigação e fertirrigação foi realizada por um pivô central marca ZIMMATIC, modelo PC 08-64/03-647/01-646/L4 + AC, em aço galvanizado, baixa pressão, com 12 torres de sustentação, com uma área total irrigada de 139,31 hectares, velocidade de 268 m/ h na última torre, aplica uma lâmina bruta mínima para uma volta a 100% de 1,35 mm. A tubulação adutora possui 800m de comprimento, com diâmetro de 162,2 mm feito em PVC de 150/60. Pressurizado por uma bomba simples IMBIL modelo ITA 100-400, com vazão prevista de 128,99 m3 h, e pressão prevista de 63,90 mca, rotação de 1750 rpm e potência do motor de 47,49 CV. Para realização da fertirrigação foi utilizado um sistema acoplado ao pivô contendo duas caixas reservatório para diluição do fertilizante e um sistema de bombeamento para injeção do fertilizante diluído no pivô central. Foi empregada uma lâmina de 3 mm no momento da fertirrigação.

A colheita foi realizada em 25/08/2015. A produtividade de colmo foi determinada através da pesagem total dos colmos presentes nas respectivas parcelas, quantificado o peso dos colmos, cujo valor foi extrapolado para t/ ha. Os parâmetros de qualidade da cana foram determinados no laboratório da própria usina. Os valores de rendimento industrial foram calculados com base nos parâmetros de qualidade e de produtividade de colmos. Os resultados foram submetidos à análise da variância pelo teste F ao nível de 5% de probabilidade, e em casos de significância, foi realizado análise de regressão para os níveis de fertirrigação nitrogenada, utilizando-se o software estatístico SISVAR.

Resultados e discussão

A produtividade de colmos (PC) aumentou linearmente 40,22% em função da fertirrigação nitrogenada, chegando a uma produtividade máxima de 142,55 t/ ha na dose de 180 kg/ ha de N, sendo que cada 1 kg/ ha de N promoveu um acréscimo de 0,7919 t/ ha na PC (Figura 1A). Os açúcares totais recuperáveis (ATR) apresentaram incremento de 5,16%, devido a fertirrigação nitrogenada via água de irrigação, com um valor de ATR de 140,77 kg/ t na dose de 180 kg/ ha de N, sendo que cada 1 kg/ ha de N promoveu incremento de 0,7820 kg/ t no ATR (Figura 1B). O rendimento bruto de açúcar (RBAÇ) aumentou linearmente 43,31% em função da fertirrigação nitrogenada via água de irrigação, de tal modo que na dose de 180 kg/ ha de N alcançou um rendimento de 20,32 t /ha, sendo que cada 1 kg/ ha de N proporcionou aumento de 0,1129 t /ha no RBAÇ (Figura 1C). O rendimento bruto de álcool (RBAL) apresentou acréscimos de 43,20% em função da fertirrigação nitrogenada via água de irrigação, atingindo 14,50 m3 ha na dose de 180 kg/ ha de N, sendo que cada 1 kg /ha de N propiciou aumento de 0,0805 m3 ha no RBAL (Figura 1D). A fertirrigação nitrogenada promoveu incrementos significativo em todos as variáveis produtivas analisadas.

Figura 1. Produtividade de colmo (A), Açúcares totais recuperáveis TR (B), Rendimento bruto de açúcar (C) e Rendimento bruto de álcool (D) em função da dose de nitrogênio via fertirrigação.

No Brasil, experimentos realizados em condições de campo, com aplicação de uréia sobre palhada de cana, têm mostrado perdas por volatilização de amônia (NH3) que podem atingir 20% a 40%, ou mais, do N aplicado. Dados semelhantes têm sido relatados em outras regiões produtoras de cana do mundo. O uso da fertirrigação mitiga o problema das perdas gasosas de NH3 e pode contribuir para aumentar a eficiência de uso da água e do N do fertilizante. A fertirrigação, além de aumentar a produtividade da cana-de-açúcar, promove melhorias nos índices de qualidade da matéria-prima. Essa pratica ainda é pouco difundida, porém seus benefícios para a cultura são vários. No entanto, a aplicação de nutrientes via água de irrigação nas culturas deve ser manejada de forma racional, considerando os aspectos sociais e ecológicos da região, procurando maximizar a produtividade e a eficiência de uso do nutriente e minimizar os custos, quer de mão de obra, quer de capital, de forma a tornar lucrativa a atividade. Deve-se fazer fertirrigação com o objetivo de aumentar o lucro e a produtividade, em quantidade e em qualidade.

Box – A cana-de-açúcar

A cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.) é cultivada no Brasil desde o século XVI e expandiu-se no país, sendo utilizada na produção de açúcar para o consumo interno e exportação, gerando divisas para o país, e adquiriu grande importância econômica, devido à grande demanda por bioenergia, produção de combustível limpo e renovável, substituindo os combustíveis derivados do petróleo. O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar e seus derivados, açúcar e álcool, favorecido por sua extensa área e pelo clima propicio à produção vegetal durante todo o ano.

A área colhida de cana-de-açúcar destinada à atividade sucroalcooleira na safra 2015/16 foi de 8.654,2 mil hectares. São Paulo, maior produtor, possui 52% (4.498,3 mil hectares), seguido por Goiás com 10,4% (885,8 mil hectares), Minas Gerais com 10,1% (866,5 mil hectares), Mato Grosso do Sul com 7% (596,8 mil hectares), Paraná com 6% (515,7 mil hectares), Alagoas com 3,7% (323,6 mil hectares), Pernambuco com 3% (254,2 mil hectares) e Mato Grosso com 2,7% (232,8 mil hectares). Estes oito estados são responsáveis por 94,9% da produção nacional. Os outros 14 estados produtores possuem áreas menores que 1% da área total do país, totalizando 5,1% da área total do país.

O crescimento do cultivo da cultura da cana-de-açúcar na região centro-oeste vem elevando-se não apenas devido a ampliação das áreas agrícolas, mas também pelo aumento da produtividade, porém, é de fundamental importância a aplicação de novas técnicas para a otimização do setor, no que diz respeito a evolução tecnológica, de forma a proporcionar contínua elevação dos índices de produtividade por área, uma vez que a cultura possui grande potencial produtivo.

Artigo publicado na edição 220 da Cultivar Grandes Culturas, mês setembro, ano 2017. 

Nelmício Furtado da Silva, Fernando Nobre Cunha, Fernando Rodrigues Cabral Filho, Marconi Batista Teixeira, Edson Cabral da Silva, IF Goiano – Campus Rio Verde – GO

Revista Cultivar

 

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