Como garantir qualidade na semeadura do milho

Por Gustavo Arantes Coelho, Jorge Wilson Cortez e Diandra Pinto Della Flora (UFGD)

02.02.2024 | 10:10 (UTC -3)

O milho é uma das culturas mais antigas cultivadas e pertence ao grupo dos cereais sendo utilizado na alimentação humana e de animais. Para as culturas anuais “uma boa colheita começa com uma boa semeadura”. Assim, a implantação da cultura de forma adequada, seja na população de plantas, na profundidade de semeadura ou na adubação correta são itens necessários para garantir elevadas produtividade.

O milho é uma cultura sensível ao estabelecimento de plantas, sendo necessário adequar a correta população de plantas por hectare como os espaçamentos entre as mesmas na linha. Pois as plantas irão competir por água, luz e nutrientes. Plantas com má distribuição irá prejudicar seu desenvolvimento acarretando em diminuição da produtividade da cultura.

Tratamos o espaçamento entre sementes como “distância longitudinal” sendo uma influenciadora da qualidade da semeadura. A distribuição longitudinal de plantas é avaliada como espaçamento normais, falhos e duplos. Espaçamentos normais estão dentro de 0,5 a 1,5 vezes o espaçamento médio, o falho as plantas estão muito distantes uma das outras e duplos as sementes estão muito próximas. Assim, o objetivo de uma boa semeadura é ter as plantas equidistantes uma das outras, com quantidade adequada por hectare, o que irá garantir maior potencial produtivo das plantas. Outros fatores como a profundidade e velocidade de semeadura também podem afetar a semeadura.

Com relação a outros fatores que podem afetar a semeadura temos normalmente na semeadora os mecanismos dosadores tipo disco perfurado horizontal (mecânico) ou o pneumático (disco vertical). Esses mecanismos apresentam condições diferentes de qualidade para a semeadura em que se espera no mecânico 60% de espaçamentos normais, enquanto no pneumático espera-se 90% de regularidade. Mas com uma boa regulagem da semeadora é possível obter nos dois tipos de mecanismos altos valores de regularidade.

Assim, entender o processo de distribuição das sementes ao longo da área é essencial, principalmente devido as novas tecnologias como a agricultura de precisão. Pois é possível que em alguns locais possam ocorrer fatores que afetam a qualidade da semeadura. Assim, entender e verificar a distribuição espacial pode ajudar a entender e permitir a investigação localizada de fatores estranhos ao processo de semeadura.

Neste contexto, objetivou-se avaliar a qualidade da semeadura por meio do estande e da distribuição longitudinal das plantas de milho com as técnicas de agricultura de precisão.

Para atender esse objetivo foi montado um experimento em fazenda comercial, localizada no município de Dourados, MS, com solo Latossolo Vermelho distroférrico, tendo a semeadura do milho realizada no dia 05 de março de 2020.

O contorno foi realizado por um aplicativo de GNSS para smartphone, resultando em aproximadamente 35 ha e grade amostral de 2 pontos por ha (Figura 1).

Figura 1 – Malha e contorno da área amostral
Figura 1 – Malha e contorno da área amostral

Na semeadura utilizou-se uma semeadora com sistema pneumático e espaçamentos entre linhas de 0,45 cm com um total de 13 linhas, acoplada em um trator com 301,5 kW de potência a uma velocidade de trabalho de 6 km h-¹, distribuindo o híbrido de milho super precoce.

O estande foi avaliado por meio da contagem direta de plantas em 2 m com 3 repetições (linhas) em cada ponto, 10 dias após a semeadura do milho. A determinação de espaçamentos normais, falhos e duplos foi realizado pela medição direta entre as plantas, considerando-se os espaçamentos: "duplos" (D): < 0,5 vez o Xref., “normais" (A): 0,5 <Xref. < 1,5, e "falhos" (F): > 1,5 o Xref.

Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva, a geoestatística e o interpolação. Quando constatada dependência espacial entre os dados, foi realizada a krigagem dos dados, quando não apresentarem dependência espacial foi utilizado o inverso do quadrado da distância (IDW). A espacialização da variabilidade do estande e espaçamentos normais, falhos e duplos, foi realizada por meio da construção dos mapas temáticos.

Após a coleta dos dados a campo e processado as análises estatísticas observou-se uma amplitude dos dados e alto valor do coeficiente de variação principalmente no espaçamento falho e no duplo, bem evidenciados em alguns pontos. Já os dados de estande e espaçamentos normais apresentaram menor variabilidade, tendo uma média de 2,51 plantas/m e regularidade de 88,36%, um pouco abaixo do esperado de 90% para uma semeadora de dosador do tipo pneumático.

Na análise espacial da distribuição longitudinal de plantas de milho e do estande, através da geoestatística (Tabela 2), observa-se que apenas o estande apresenta dependência espacial com um modelo de semivariograma exponencial com índice de dependência espacial classificado como moderado (25-75%). Ainda para a variável estande, o alcance obtido foi de 94 m, o que indica que o presente trabalho a distância considerada para amostragem (70,71 m) foi satisfatória para alcançar a dependência espacial. A distribuição longitudinal de planta apresentou gráficos de efeito pepita puro evidenciando que não existe a dependência espacial entre os pontos de falho, duplo e normal sendo os mapas gerados pelo interpolador inverso da distância.

No estande de plantas (Figura 2) mais de 99% da área teve de duas a três plantas por metro o que é considerado aceitável. Apenas pequena parte da área ficou abaixo de 2 plantas/m localizadas nas extremidades do talhão.

Figura 2 – Variabilidade do estande de milho (plantas/m)
Figura 2 – Variabilidade do estande de milho (plantas/m)

Os espaçamentos normais são importantes para não se ter uma grande variabilidade do estande evitando espaçamentos falhos e duplos. Para a semeadora pneumática utilizada é estipulado que tenhamos pelo menos 90% dos espaçamentos normais. Assim, obtivemos apenas 38% da área com espaçamentos maior ou igual a 90% considerados como normal (Figura 3), e a maior parte da área 61,52% ficou com espaçamentos entre 60% a 90% como normal. Foi constatado baixa pluviosidade durante o estabelecimento das culturas o que pode ter prejudicado a emergência.

Figura 3 – Variabilidade do espaçamento normal (%) da cultura do milho
Figura 3 – Variabilidade do espaçamento normal (%) da cultura do milho

O mapa de espaçamentos falhos (Figura 4a) mostra que em 95,4% da área se tem menos de 20% de espaçamentos falhos sendo que destes mais da metade é menor que 10%. Relacionando com o estande de plantas por metro verifica-se que faltaram plantas, confirmado pelo mapa de espaçamentos falhos. Já os espaçamentos duplos (Figura 4b) tem 98,7% da área total menos de 10% de espaçamentos duplos. O que é um percentual baixo afetando muito pouco a equidistância das plantas.

Figura 4 – Variabilidade de espaçamentos falhos (%) (a) e duplos (%) (b) da cultura do milho
Figura 4 – Variabilidade de espaçamentos falhos (%) (a) e duplos (%) (b) da cultura do milho

Desse modo, evidencia que devido a pouca pluviosidade no momento da semeadura algumas plântulas não emergiram diminuindo o estande de plantas e aumentando os espaçamentos falhos.

Portanto, verifica-se que para a semeadura do milho ocorre variabilidade espacial mais acentuada no estande e no espaçamento normal. Fatores relacionados ao clima podem afetar a qualidade da semeadura. Verifica-se maior variabilidade nos espaçamentos falhos do que nos duplos.

Por Gustavo Arantes Coelho, Jorge Wilson Cortez e Diandra Pinto Della Flora (UFGD)

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