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Abortamento de vagens em soja

21/07/2022

Episódios de abortamento de vagens e deficiência no enchimento de grãos de soja em lavouras com elevado potencial produtivo tem preocupado pesquisadores e produtores em várias regiões de cultivo brasileiras. As causas desses distúrbios se mostram complexas e não podem atribuídas apenas ao clima. A coincidência de vários fatores estressantes, com possível efeito sinérgico, associada a excesso de umidade no solo e no ar e a baixa luminosidade durante o período reprodutivo podem estar entre as explicações para esse fenômeno.

No Brasil são estimados aproximadamente 35 milhões de hectares de soja na safra 2017/18, nas mais diversas condições de ambiente e de sistemas de produção. Nesse amplo universo, há incontáveis casos de sucesso e superação, mas também muitos problemas. Os sojicultores brasileiros recorrentemente se deparam com entraves fitossanitários, climáticos, logísticos, etc., que podem ser localizados, regionais ou nacionais, acarretando prejuízos com diferentes magnitudes.

Entre os problemas da soja nessa safra, destacam-se os de abortamento de vagens e/ou de enchimento deficiente de grãos. Esses casos chamaram a atenção não por terem sido mais onerosos e abrangentes que outros, gerados por equívocos na instalação da cultura, inadequado manejo do solo, doenças fúngicas, insetos-praga, plantas daninhas, nematoides, chuva na colheita, etc., mas por terem ocorrido em lavouras que vinham apresentando elevado potencial produtivo, em áreas com bons históricos agronômicos, conduzidas por sojicultores experientes e assistidas por profissionais competentes.

Grande parte dos relatos sobre esses distúrbios na soja veio das regiões oeste e norte do Paraná, médio Paranapanema em São Paulo e sudoeste do Mato Grosso do Sul. Contudo, apesar da considerável quantidade de agricultores acometidos, ressalta-se que a distribuição dos casos foi aleatória e com extensão de área relativamente baixa, em relação ao total de lavouras comerciais dessas regiões.

Quanto aos sintomas, as lavouras vinham apresentando desenvolvimento normal, visualmente com elevado potencial produtivo, até os estádios fenológicos de formação das vagens (tecnicamente denominados de R3 e R4). Quando se iniciou o período de enchimento de grãos (estádio R5.1), os problemas começaram a ficar evidentes. Houve situações em que as vagens foram abortadas das plantas de soja, em diferentes níveis de dano, e, em outras, as vagens permaneceram conectadas às plantas, sem que os grãos pudessem completar seu desenvolvimento.

Episódios chamam a atenção pelas características das áreas, com bons históricos agronômicos, conduzidas por sojicultores experientes e assistidas por profissionais competentes

De forma generalizada, o abortamento de vagens tem sido atribuído ao clima. Realmente, nas duas últimas semanas de dezembro de 2017 e nas duas primeiras semanas de janeiro de 2018, praticamente todas as regiões sojícolas do centro-sul do Brasil permaneceram por vários dias sob chuva, sol encoberto e solo com alto teor de água. Porém, não foram raras as situações em que se constatou um talhão de soja com problemas nas vagens e, a poucos metros de distância, talhões com soja em estádios fenológicos semelhantes ao da área prejudicada, apresentando vagens com desenvolvimento normal e elevado potencial produtivo. Diante disso, fica claro que a abordagem isolada do clima não é suficiente para elucidar os distúrbios fisiológicos observados. As evidências apontam para um problema agronômico complexo, decorrente da interação de vários fatores.

Geneticamente, a soja está programada para descartar um grande número de flores, que são normalmente produzidas em excesso, assim como é comum a ocorrência de aborto de vagens quando as plantas têm necessidade de ajustar o enchimento de grãos em função da oferta de recursos do ambiente (água, luz, nutrientes, etc.). Esse controle complexo é comandado por atributos genéticos inerentes a cada cultivar, que respondem a sinais do ambiente (clima e solo) e do manejo (época de semeadura, adubação, agroquímicos, etc.). Portanto, apesar de não ter sido possível aferir o grau de suscetibilidade das cultivares de soja, é imprescindível considerar o fator genético no estudo e na elucidação desse problema.

Outra causa erroneamente apontada para o abortamento de vagens foi a ocorrência de antracnose, doença causada pelo fungo Colletotrichum truncatum, que pode atacar folhas, hastes, pecíolos e vagens. A infecção e o desenvolvimento dessa doença são favorecidos por alta umidade relativa do ar associada a elevadas temperaturas e essa condição de ambiente torna frequente a antracnose na região dos Cerrados. Apesar do fungo ser de ocorrência comum, na maioria dos casos, fora da região dos Cerrados, se comporta como oportunista, ou seja, cresce em tecidos vegetais mortos por outras causas. E, mesmo nos Cerrados, onde a doença é comum e grave, não provoca queda de vagens verdes, como ocorreu nessa safra.

Nas lavouras com enchimento deficiente de grãos, o resultado da adversidade sofrida está ficando mais evidente com o decorrer da colheita. Mesmo em lavouras onde o produtor não havia percebido o problema, há relatos de elevados índices de grãos avariados.  Portanto, há perdas quantitativas e qualitativas na soja.

Em se tratando de sojicultura no Brasil é correto considerar que a grande maioria das lavouras permanece constantemente sob algum nível de estresse, desde a sua instalação até a colheita. Do ponto de vista agronômico, busca-se soluções para minimizar ou evitar as causas desses estresses, para que as cultivares possam expressar ao máximo o seu potencial genético. Os fatores de estresse são didaticamente divididos em bióticos (patógenos, insetos-pragas, plantas daninhas, etc.) e abióticos (temperatura, fotoperíodo, água, nutrientes, etc.). Contudo, em termos práticos, é fundamental considerar que, em um determinado ambiente de produção, os fatores de estresse atuam concomitantemente e podem interagir entre si.

Sendo assim, reafirma-se que as causas que geraram o abortamento de vagens e/ou o enchimento deficiente de grãos são complexas e não podem ser unicamente atribuídas ao clima. Sugere-se, portanto, que houve coincidência de vários fatores estressantes, com possível efeito sinérgico. O excesso de umidade no solo e no ar e a baixa luminosidade durante o período reprodutivo da soja ampliaram a ação desses fatores. É preciso considerar também o grau de sensibilidade das cultivares de soja e possíveis práticas equivocadas de manejo do solo e da cultura.

Embora não existam técnicas que possam resolver ou minimizar o problema já estabelecido, permanece a recomendação, para as próximas safras, da inserção da soja em um sistema de produção diversificado, com cultivares adaptadas à região de cultivo e do adequado manejo do solo, além de cuidadosa condução da lavoura com a devida atenção ao manejo de insetos-pragas, doenças e plantas daninhas, evitando os exageros na aplicação de agroquímicos e outros produtos. 

Artigo publicado na edição 226 da Cultivar Grandes Culturas, mês março, ano 2018.

Claudine Dinali Santos Seixas, José Salvador Simoneti Foloni, Norman Neumaier, Embrapa Soja

Revista Cultivar

 

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