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Uso planejado das áreas na safrinha

14/07/2022

No período da safrinha é importante contar com planejamento adequado para o bom uso das áreas de cultivo. Deixar as lavouras em pousio desponta como a pior opção. Outro fator fundamental reside no papel do aumento da biodiversidade como alternativa para melhoria do manejo cultural no sistema de produção soja/milho/algodão.

A safrinha, de milho ou de sorgo, que surgiu como alternativa às culturas de inverno nas regiões menos frias, principalmente em substituição ao trigo, atualmente ultrapassa, tanto em área plantada, como na média da produtividade, a cultura de verão ou da safra. Essa denominação de safrinha se deve mais ao potencial de produtividade, que é menor nesse caso, que propriamente à área cultivada. Assim, o cultivo do milho em sucessão à soja tornou-se a dobradinha perfeita em muitas regiões, pois a soja fixa o nitrogênio (cerca de 1 kg de N/saca colhida) tão demandado pelo milho e este aumenta a matéria orgânica do solo pelo resíduo deixado na forma de palha. Portanto, nessas regiões sobram poucas alternativas para a rotação dessas culturas. Por outro lado, a rotação de culturas com diferentes espécies vegetais é uma prática fundamental para o aumento da biodiversidade, por reduzir os problemas fitossanitários devido a um melhor equilíbrio biológico (no ambiente acima e abaixo da superfície do solo), aumentar a quantidade de matéria orgânica e, consequentemente, dar sustentabilidade à produção.

O atraso das chuvas ocorrido nesse ano e os preços baixos do milho na última safra levaram a uma redução da área semeada com o milho verão e aumento da área cultivada com a soja. Esses fatos devem trazer algumas dúvidas ao produtor quanto às opções de cultivo na safrinha. Outro fator que tende a afetar a decisão do produtor para a próxima safra tem sido a alta incidência, em algumas regiões, de doenças cujos patógenos são transmitidos pela cigarrinha-do-milho. Quanto a ocorrência de outras pragas e doenças, o produtor deve estar atento ao monitoramento periódico, para interferir no sistema sempre que necessário, mas seguindo as recomendações baseadas nos níveis de ação. A incidência de lagartas, tanto na soja, como no milho verão, não despertou maiores preocupações, em grande parte pelas condições favoráveis do clima e pela atividade eficiente dos eventos Bt utilizados nos últimos anos. É importante registrar que o manejo eficaz das pragas ao longo dos anos tende a baixar a população geral de pragas na região. Também, nenhum novo registro de resistência de inseto às tecnologias Bt a campo foi documentado. A adoção das boas práticas agronômicas como: a dessecação antecipada, o uso de sementes certificadas, o tratamento de sementes, o manejo eficaz das plantas daninhas/tigueras e, principalmente, a inclusão das áreas de refúgio nas  culturas Bt e a realização do monitoramento periódico (que deve ser iniciado mesmo antes da semeadura) constitui a principal estratégia para o manejo fitossanitário efetivo.

Nas áreas semeadas com o milho safrinha ou a serem cultivadas, além das observações já apresentadas, deve-se reiterar o tratamento de sementes com inseticidas de ação sistêmica, como aqueles à base de neonicotinoides para o controle de sugadores. Além disso, é indispensável monitorar a incidência de cigarrinhas logo após a emergência das plantas para reduzir a incidência de viroses e enfezamentos no milho. Nas áreas com histórico de incidência dessas doenças ou onde a janela ideal para o plantio do milho safrinha já tenha passado, uma alternativa é a utilização da safrinha de sorgo, pois, além dele não ser afetado pelas doenças, por não ser hospedeiro da cigarrinha, reduz sua população para os plantios na próxima safra. Além disso, o sorgo é bem mais tolerante ao estresse hídrico, típico nos períodos de veranico que ocorrem nos plantios mais tardios.

Caso não haja a possibilidade de aproveitar toda ou parcialmente a área com uma cultura comercial na safrinha (milho, algodão ou sorgo), ela não deve ser deixada em pousio, pois essa é a pior opção. Nas áreas em pousio, o crescimento de plantas tiguera constitui uma das principais ameaças ao sucesso da próxima safra, pela sobrevivência de patógenos e pragas na área. Neste caso, surge a oportunidade para se fazer uma melhoria da qualidade e quantidade de palhada para a próxima safra, utilizando uma ou mais culturas de cobertura. O aumento de custo, em função das novas tecnologias introduzidas no sistema de produção, e o crescimento dos problemas no campo como, por exemplo, a exaustão da matéria orgânica do solo e consequente maior incidência de nematoides, além do aumento na complexidade do manejo fitossanitário, têm preocupado os produtores.

Muitos organismos são benéficos e têm importante papel na manutenção do equilíbrio biológico
Muitos organismos são benéficos e têm importante papel na manutenção do equilíbrio biológico

A rotação de culturas é uma prática milenar, sempre utilizada com sucesso na agricultura convencional. Essa prática é considerada uma forma eficiente de reduzir os impactos ambientais provocados pela monocultura, melhorando as condições físicas, químicas e biológicas do solo. Além disso, a rotação melhora as condições ambientais acima do nível do solo, o que promove um manejo mais eficiente das plantas daninhas, doenças e pragas, principalmente aquelas específicas para cada cultura comercial.

Embora a rotação de culturas seja uma prática bastante benéfica para o sistema de produção, nem sempre é factível. A modernização das atividades agrícolas é cada vez mais necessária, com a adoção de novas tecnologias e grandes investimentos em infraestrutura (máquinas, equipamentos e insumos) e treinamento da equipe operacional (“know-how”), para tornar a atividade mais competitiva, com ganhos em produtividade e em escala na produção. Considerando esses e outros fatores, as opções de culturas, economicamente viáveis para fazer rotação, ficam muito restritas. Por exemplo, na região Centro Oeste do Brasil predomina o cultivo da soja no verão e a sucessão com o milho safrinha ou algodão. Portanto, as opções para o agricultor são realmente escassas e a solução para diversificar as espécies cultivadas na área é a rotação das culturas de cobertura, aumentando assim a biodiversidade no agro ecossistema.

Muitos produtores ainda não perceberam os benefícios das culturas de cobertura e insistem em deixar as áreas em pousio. Isto porque boa parte deles mantêm pouco registro sobre suas atividades/resultados na propriedade. Assim, as pequenas perdas ao longo do tempo ou os ganhos a médio e longo prazos ficam difíceis de serem percebidos em função das flutuações comerciais e ambientais. Há resultados de pesquisa indicando que o cultivo do solo com culturas de cobertura modifica a sua estrutura, deixando seu perfil comparável ao da mata nativa. Então, um avanço no uso das culturas de cobertura, introduzindo sua rotação, demanda ainda maior esforço. Portanto, como os benefícios da rotação das culturas de cobertura só tem um retorno a médio e longo prazos, a sua demonstração ao produtor deve ser muito convincente, para que essa prática seja amplamente adotada.

Um exemplo concreto reside no que vem sendo realizado na Fazenda Capuava em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, pelo engenheiro Agrônomo José Eduardo de Macedo Soares Junior. A diversificação e consorciação das culturas de cobertura no agro ecossistema promovem muitos benefícios para o produtor e restauram a sustentabilidade agrícola e ambiental. No curto e médio prazos, ela reduz a incidência de pragas, doenças e plantas daninhas, ao mesmo tempo em que aumenta o teor de matéria orgânica do solo, melhorando tanto a fertilidade, como a retenção de umidade, reduzindo os estresses devido aos períodos de estiagem. A utilização de plantas de cobertura com sistema radicular de alta capacidade de penetração no solo recicla os nutrientes minerais reduzindo a lixiviação, melhora a penetração da água da chuva por aumentar a porosidade do solo, reduzindo compactação, erosão, e pereniza as nascentes entre vários outros benefícios.

É necessário monitorar tanto as culturas comerciais como as de cobertura para a presença de pragas, doenças, plantas daninhas e organismos benéficos

O produtor, ao realizar a transição do seu sistema de produção, com ou sem o uso da monocultura de cobertura, para a rotação de culturas de cobertura, deve estar ciente que é um processo gradual e deve estar atento a vários fatores. Paulatinamente vai aumentar a diversidade biológica, tanto dos organismos que vivem na superfície, como no solo. Muitos desses organismos são benéficos e têm importante papel em manter o equilíbrio biológico alimentando-se de pragas importantes para a cultura comercial. O maior teor de matéria orgânica no solo permite a sobrevivência de microrganismos patogênicos para as pragas subterrâneas como, por exemplo, os nematoides. Portanto, a adoção de práticas que protejam os organismos benéficos no ambiente leva à redução no uso de defensivos no campo.

Cuidados para garantir os benefícios e o sucesso do novo sistema

  • Monitorar tanto as culturas comerciais como as de cobertura para pragas, doenças, plantas daninhas e organismos benéficos (predadores, parasitoides e patógenos), bem como o perfil do solo para avaliar a saturação do alumínio e profundidade de raízes.
  • A adoção de métodos de controle das pragas deve obedecer ao nível de ação estabelecido pela pesquisa para cada praga e cultura, evitando assim as pulverizações desnecessárias, ou seja, aquelas que não trazem benefício econômico e que podem promover um desequilíbrio causador de explosão da população de outras pragas.
  • Caso o monitoramento da praga indique controle, tratar com produtos específicos e com maior eficiência para cada grupo de praga e monitorar a sua atividade, com intervalo necessário para avaliar os resultados e o impacto no ciclo biológico da praga.
  • Consorciar algumas culturas de cobertura com culturas comerciais, oferecendo plantas alternativas como alimento às pragas, o que reduz os danos na cultura comercial, aumentando e mantendo a população dos organismos benéficos na área.

As pragas que atacam as culturas durante a emergência são o grande desafio dos produtores que começam a rotação das culturas de cobertura, especialmente aqueles que utilizam uma única espécie de planta de cobertura. No inicio, a incidência de lagartas cortadeiras, lesmas, larva-arame e outras pragas desafiam as novas práticas, até que a rotação de diferentes culturas de cobertura começe a produzir efeitos.

Mesmo nos sistemas de plantio direto, onde há pouca palha, as glebas de encosta podem sofrer erosão devido à compactação do solo pelo baixo teor de matéria orgânica, reduzindo drasticamente a produtividade. Assim, inicialmente pode ser necessária uma subsolagem. Mas só isso pode não ser suficiente e outras práticas talvez sejam necessárias para manter as condições do solo favoráveis. Paulatinamente o produtor vai descobrindo que a rotação e consorciação das culturas de cobertura  trazem maior diversidade de plantas na área cultivada, operando uma verdadeira revolução para o seu sistema de produção, reduzindo o uso de defensivos para o controle de pragas, doenças e plantas daninhas, ao mesmo tempo em que aumenta a eficiência das culturas na utilização dos fertilizantes, recuperando ou aumentando a sua produtividade. Além disso, o aumento do teor de matéria orgânica no perfil do solo contribui para a correção da acidez nas camadas mais profundas, o que permite maior desenvolvimento do sistema radicular das culturas comerciais.

No sistema de produção das culturas anuais, predominam as culturas comerciais soja, milho e algodão. O arroz, feijão e sorgo, esporadicamente também são utilizados. Além dessas culturas, dependendo da região são utilizadas, ainda, culturas de cobertura para produzir palhada para o plantio direto. Como as opções de culturas comerciais para rotação são restritas, a rotação planejada de culturas de cobertura torna-se essencial para diversificar o agro ecossistema durante as estações do ano.

No sistema de plantio direto, tão importante quanto a quantidade (camada de palha) é a qualidade da matéria orgânica cobrindo o solo. Para manter uma boa relação carbono/nitrogênio (C/N) na matéria orgânica do solo é fundamental a diversificação das fontes de palha, pois as de gramíneas têm maior teor de carbono e as de leguminosas (proporcionalmente) de nitrogênio. Assim, a combinação de espécies de diferentes grupos melhora a relação C/N. A camada de palha deve ser espessa o suficiente para proteger a superfície do solo do impacto mecânico das gotas de chuva, evitando a desagregação das partículas do solo, bem como sua proteção contra a dessecação pela incidência direta da luz solar. A abundância de matéria orgânica, retendo um maior teor de umidade, permite inclusive uma maior diversidade de organismos secundários da fauna e flora do solo, aumentando assim a biodiversidade. Portanto, tanto a quantidade quanto a diversidade de espécies de plantas para serem utilizadas como cobertura são igualmente importantes.

Os ganhos são progressivos com a incorporação de fitomassa no perfil do solo. O aprofundamento das raízes no perfil do solo trás uma série de benefícios, como discutido anteriormente. Para isso, a neutralização do alumínio do solo nas camadas mais profundas é fundamental. Além dos corretivos de solo, a matéria orgânica tem papel relevante nesse processo. A fitomassa produzida pelas raízes é até mais importantes que a produzida pela parte aérea das plantas. Experimentos conduzidos com braquiária têm demonstrado que a fitomassa das raízes resulta em maior ganho em produtividade que a da parte aérea da planta, quando avaliados separadamente. Ainda, cada cultura tem um sistema radicular com diferentes capacidades de penetração no solo. À medida que vai se rotacionando as culturas de cobertura, vai se aprofundando o perfil do solo explorado pelo sistema radicular das plantas comerciais, podendo passar de menos de 80 cm para mais de 2,5 m de profundidade. Obviamente, plantas com um sistema radicular mais profundo terão seu potencial produtivo bastante aumentado.

Há fortes evidências que o atual gargalo para o aumento da produtividade das culturas anuais em muitas propriedades está na qualidade física do solo, pois o plantio direto vem sendo praticado com pouca palhada e geralmente uma única espécie vegetal. Assim, resta um baixo teor de matéria orgânica, que limita o estabelecimento da população ideal de plantas, o aprofundamento das raízes e reduz a tolerância das plantas ao déficit hídrico por explorar apenas as camadas superficiais do solo, além de aumentar o acamamento. Aparentemente, a principal vantagem dos solos de cerrados, que reside na profundidade, tem sido pouco aproveitada pela maioria dos produtores.

Artigo publicado na edição 225 da Cultivar Grandes Culturas, mês fevereiro, ano 2018.

José M. Waquil, Consultor

Revista Cultivar

 

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