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Uso de fertilizantes de liberação gradual em cana

15/07/2022

Fornecimento regular e contínuo de nutrientes para as plantas, menor frequência de aplicações em solos, redução de perdas de nutriente devido à lixiviação, imobilização e volatilização, além de eliminação de danos causados às raízes pela alta concentração de sais estão entre as vantagens da liberação controlada de fertilizantes em cana-de-açúcar.

A cana-de-açúcar é cultivada em quase todas as regiões agrícolas brasileiras, o que abrange solos com fertilidade variável e, consequentemente, diferentes ambientes de produção. Neste contexto a adubação se torna um fator indispensável para o pleno desenvolvimento da cultura, com finalidade de obtenção de altas produtividades.

A adubação tem por objetivo fornecer à planta todos os nutrientes, sem os quais o vegetal não completa seu ciclo. A prática de adubação, além de constituir um dos fatores indispensáveis para o desenvolvimento das plantas, se manejada de forma correta pode acelerar consideravelmente seu crescimento, reduzir os custos de produção e possibilitar maiores produtividades (Malavolta,1980).  Neste contexto, avanços devem ser realizados em programas nutricionais no que diz respeito a eficiência de uso pelas diversas culturas, como a cana-de-açúcar.

Uma alternativa de fertilização para aumentar a eficiência de uso pelas plantas diz respeito ao emprego de adubos encapsulados, denominados fertilizantes de liberação gradual. Esses fertilizantes, uma vez aplicados no solo, liberam os nutrientes de forma gradual devido ao recobrimento por substâncias químicas e/ou orgânicas.

A liberação gradual de nutrientes depende da umidade e da temperatura do solo, uma vez que a temperatura promove expansão da camada de resina, provocando aumento de sua permeabilidade à água. Esse processo ocorre independentemente da permeabilidade, pH ou atividade microbiológica do solo, podendo variar de poucos meses a até quase 20 meses para liberação total, sendo a longevidade específica de cada formulação do fertilizante.

Trabalhos científicos relatam que as principais vantagens dos fertilizantes de liberação gradual são o fornecimento regular e contínuo de nutrientes para as plantas, menor frequência de aplicações em solos, redução de perdas de nutriente devido à lixiviação, imobilização e, ainda, volatilização, eliminação de danos causados a raízes pela alta concentração de sais, maior praticidade no manuseio dos fertilizantes, contribuição à redução da poluição ambiental pelo NO-3, atribuindo valor ecológico à atividade agrícola (menor contaminação de águas subterrâneas e superficiais), e redução nos custos de produção.

O uso de fertilizantes de liberação controlada se soma a esses avanços, devido ao efeito protetor das camadas de polímeros que envolvem os grânulos, diminuindo os efeitos de lixiviação, volatilização e adsorção pelos colóides do solo, tornando os nutrientes mais acessíveis ao sistema radicular e consequentemente melhorando a eficiência de uso pelas plantas.

Figura 1: Preciptação mensal entre Dezembro de 2013/outubro de 2014

Com o objetivo de avaliar a eficiência agronômica desses fertilizantes foi realizado um ensaio de campo conduzido pelo Centro de Cana – IAC, em soqueira de cana-de-açúcar de terceiro corte, no município de Serrana, São Paulo, em um Latossolo Vermelho mesoálico, textura franco arenosa.

A variedade de cana utilizada no experimento foi a RB 86-7515, apresentando as características de alta produtividade agrícola e rusticidade, alto teor de sacarose, perfilhamento médio, colheita de meio a final de safra e tolerância às principais doenças.

Os tratamentos foram constituídos pela aplicação dos fertilizantes de liberação controlada na proporção de 50%, 75% e 100% em relação a adubação convencional. Utilizou-se duas fontes de fertilizante de liberação controlada, uma com 60% do formulado com liberação controlada e 40% convencional, outra de 40% do formulado com liberação controlada e 60% convencional. A adubação convencional  foi realizada conforme recomendação do Boletim 100 IAC, de acordo com resultado da análise de solo, na quantidade de 120 kg/ha de N e K2O e 30 kg/ha de  P2O5,  bem como um tratamento testemunha, sem aplicação dos fertilizantes, conforme descrito na tabela 1:

Tabela 1

Os fertilizantes de liberação controlada utilizados no ensaio possuíam longevidade de liberação para o Nitrogênio em torno de 120-150 dias, enquanto para o potássio em torno de 120- 180 dias.

Uma informação importante neste estudo diz respeito aos dados pluviométricos. De acordo com a figura 1 a preciptação total ocorrida durante a condução do ensaio, comprendido entre os meses de Dezembro/13 a setembro/14 resumiu-se a apenas 762,2mm de chuva.

Os resultados do estudo mostraram algumas respostas interessantes. Os dados obtidos para rendimento agrícola, expressos em toneladas de colmos por hectare, podem ser analisados na tabela 2.

Tabela 2

Observa-se pelos dados descritos na tabela 2 um grupo distinto de três médias em relação ao rendimento de colmos por hectare. A menor média é atribuída a testemunha absoluta, ou seja, sem adubação, sendo este um parâmetro já esperado. Um outro grupo intermediário, composto pela dosagem de 50% da adubação convencional com os fertilizantes de liberação controlada na proporção, tanto de 40/60, quanto de 60/40 (controlada/convencional) sobre a palhada e 75% da adubação convencional 60/40 (controlada/convencional), incorporado sob a palhada. Outro grupo com média maior em rendimento agrícola, superior à adubação convencional, composto por 75% e 100% tanto de 40/60, quanto de 60/40 (controlada/convencional) aplicado sobre a palhada da cana.

Entretanto, observa-se baixa produtividade no canavial, independentemente dos diferentes tratamentos estudados no ensaio, o que pode ser explicado principalmente pela quantidade de chuvas durante o período de condução de ensaio, ficando muito abaixo da necessidade hídrica exigida pela cultura da cana-de-açúcar, que necessita de precipitação anual de aproximadamente 1200-1500 mm bem distribuído ao longo do período para um bom desenvolvimento vegetativo, que reflete diretamente na produtividade.

Observa-se pelos dados da figura 1 que a precipitação durante a condução do ensaio foi de apenas 762,2 mm, insuficiente para a demanda hídrica da cana e ainda com distribuição desuniforme. É possível verificar em dezembro de 2013 uma condição pluviométrica acima da média histórica, entretanto, entre os meses de janeiro a março de 2014 a distribuição de chuva ficou muito abaixo da média. Neste período há uma grande exigência de água pela planta, devido ao rápido crescimento. O baixo índice pluviométrico ocorrido neste período pode ter contribuído para a menor produtividade do canavial.

Em relação às características tecnológicas da cana-de-açúcar pode-se verificar pelos dados apresentados nas tabelas 3 e 4 que as diferentes doses de fertilizantes de liberação gradual em relação a adubação convencional proporcionaram valores médios semelhantes para teores de Brix, Fibra, Pol, Pureza, Açúcares Redutores e ATR.

Tabela 3
Tabela 4

Foram avaliados também os teores foliares de nitrogênio e potássio relacionados às doses de fertilizantes de liberação gradual comparados com a adubação convencional, descritos na tabela 5.

Tabela 5

 Como pode ser observado os efeitos dos diferentes tratamentos não influenciaram os teores foliares de nitrogênio e potássio

Os teores foliares de nitrogênio, considerados adequados para a cana-de-açúcar, para amostras de folha +1 na fase de pleno desenvolvimento vegetativo, encontram-se na faixa de 18 g/ kg – 25 g/ kg, e o potássio entre 10 g/ kg – 16 g. kg estando os valores médios proporcionados pelos diferentes tratamentos dentro da faixa aceitável para a referida cultura.

De acordo com os resultados alcançados neste estudo relacionado ao ambiente de produção em que o ensaio foi conduzido, pode-se concluir que a adubação com fertilizante de liberação controlada na proporção de 75% da adubação convencional proporcionou o mesmo rendimento de colmos por hectare comparado a 100 % da adubação convencional, sem afetar as características tecnológicas da cana-de-açúcar e os teores foliares de nitrogênio e potássio.

Artigo publicado na edição 225 da Cultivar Grandes Culturas, mês fevereiro, ano 2018.

Julio Cesar Garcia, Centro de Cana – IAC

Revista Cultivar

 

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