Sanidade do algodão começa antes das pragas e dos primeiros sintomas

Monitoramento, redução de inóculo e qualidade de bioinsumos são destaques em congresso

24.09.2026 | 15:27 (UTC -3)
Revista Cultivar

A sanidade do algodoeiro exige ações antes do aumento das populações de insetos e do aparecimento dos primeiros sintomas de doenças. Os hubs técnicos do 15º Congresso Brasileiro do Algodão destacaram monitoramento, redução de inóculo, manejo do sistema produtivo e integração de ferramentas químicas, biológicas, culturais e genéticas. O congresso foi realizado no Expominas, em Belo Horizonte. As discussões também reforçaram a necessidade de preservar a eficiência das tecnologias diante da pressão de seleção sobre pragas e patógenos.

Clima e sistema produtivo

Pulgão e mosca-branca têm exigido atenção crescente dos cotonicultores. Segundo o pesquisador Rafael Pitta, da Embrapa, as duas pragas aparecem com frequência nos levantamentos das áreas de produção. Em alguns monitoramentos, superaram as ocorrências de bicudo e lagartas. Para Pitta, o Manejo Integrado de Pragas (MIP), baseado no monitoramento e na decisão por nível de infestação, é a resposta a esse cenário.

De acordo com o entomologista Eduardo Barros, clima quente, estiagem e desequilíbrios nutricionais podem favorecer explosões populacionais de pragas sugadoras. Veranicos e o El Niño, que em algumas regiões produtoras provoca longos intervalos sem chuva, ampliam esse risco. Em anos de El Niño, o pesquisador recomenda intensificar o monitoramento e antecipar o manejo, antes que as populações atinjam níveis elevados.

No caso do pulgão, a sucção de seiva soma-se ao risco de transmissão de viroses. Barros destacou que o inseto pode transmitir uma virose considerada atípica no algodoeiro, sobretudo quando a infestação ocorre nas fases iniciais da cultura. A mosca-branca também se beneficia de calor, veranico e desequilíbrios do sistema produtivo, incluindo adubações nitrogenadas excessivas. O inseto se alimenta da seiva do floema e causa danos diretos e indiretos, como a formação de fumagina.

Segundo Barros, o controle da mosca-branca precisa atingir adultos e ninfas. As ninfas são imóveis e ficam aderidas às folhas, protegidas por secreções cerosas, com pequena área corporal exposta aos produtos. Por isso, a eficiência depende do ingrediente ativo, da dose, da potência do produto e da capacidade de alcançar o alvo por ação translaminar. Para adultos, o pesquisador citou neonicotinoides e diafentiuron. Para ninfas, citou produtos com ação ninficida, como juvenoides (caso do piriproxifem), cetoenóis e diamidas com atividade sobre a praga. Ele alertou ainda que produtos genéricos exigem atenção à qualidade e à eficiência.

A pesquisadora Eliane Quintela, da Embrapa Arroz e Feijão, reforçou que o manejo precisa ser contínuo. Segundo ela, a mosca-branca tem cerca de 600 plantas hospedeiras e está associada a danos em mais de 40 culturas. O ciclo de vida varia de 18 a 33 dias. Quintela associa o aumento das temperaturas ao encurtamento desse período, o que acelera a reprodução. A soja está entre as principais culturas que favorecem a multiplicação do inseto, o que exige olhar para o sistema como um todo quando o algodão é cultivado em sequência. Plantas daninhas e tigueras também mantêm as populações entre os cultivos e devem ser eliminadas.

A mosca-branca é vetora de viroses em culturas como soja e feijão. No algodoeiro, porém, Quintela ressaltou que, no Brasil, ainda não foi identificada transmissão de virose pelo inseto. Para prolongar a eficiência do manejo, ela recomenda sempre aplicar inseticidas que controlem adultos e ninfas e incorporar o controle biológico. Entre os agentes citados está o fungo entomopatogênico Cordyceps javanica. Para a pesquisadora, combinar ferramentas é essencial diante da capacidade de adaptação da praga e da pressão de seleção causada pelo uso repetido dos mesmos mecanismos de ação.

Lagartas: biologia e resistência

O manejo de lagartas também exige integração de métodos. O entomologista Odair Fernandes lembrou que a Spodoptera frugiperda estava restrita ao continente americano até 2016 e hoje é registrada em diferentes regiões do mundo. A espécie desenvolveu-se originalmente no milho, mas tem ampla gama de hospedeiros: cana-de-açúcar, pastagens, algodão, soja, brássicas e cucurbitáceas. O ciclo, do ovo à formação do adulto, varia de 26 a 39 dias. No algodão, pode haver mais de uma geração durante a safra, e o ciclo se alonga quando as lagartas consomem maçãs.

Em avaliações feitas em áreas de milho, 68% das mariposas analisadas eram fêmeas, e 72% delas já estavam acasaladas. Isso favorece o aumento da população residente na área. Segundo Fernandes, maior volume de chuvas está associado à redução da reprodução da espécie.

O professor Geraldo Papa, da Unesp, apresentou feromônios e atrativos alimentares como ferramentas complementares ao controle químico, dentro do manejo integrado. Distribuídos por toda a lavoura, os feromônios alteram o comportamento das pragas. A formulação pesa no desempenho: segundo Papa, os produtos granulados duram mais que os líquidos. Já os atrativos alimentares associados a inseticidas exploram a necessidade de carboidratos das mariposas para a maturação dos ovos, o que aumenta a exposição dos insetos ao produto.

A gestão da resistência às tecnologias Bt completou o debate. Kristen Knight, líder de desenvolvimento tecnológico da Bayer, apresentou a experiência australiana com a tecnologia Bollgard, que no país se prepara para a quarta geração. O programa australiano tem três objetivos: (a) limitar a exposição dos insetos às tecnologias; (b) reduzir a seleção de indivíduos resistentes; e (c) favorecer a remoção de alelos de resistência ao final da safra.

O cumprimento dos planos de manejo e a adoção de refúgios, avaliados antes, durante e após a safra, são centrais. Segundo Knight, parte dos descumprimentos na Austrália esteve ligada a condições climáticas adversas, e o sucesso só veio com a adesão em massa dos produtores.

Doenças: redução de inóculo

O controle de doenças foliares depende de decisões tomadas antes do surgimento dos sintomas. No hub técnico "Manejo de doenças foliares", a estratégia discutida para mancha-de-ramulária e mancha-alvo reuniu redução do inóculo, planejamento das áreas, arquitetura das plantas e escolha das ferramentas.

Fabiano Perina, da Embrapa Algodão, alertou que uma safra com menor pressão de ramulária não elimina o risco para o ciclo seguinte. O inóculo permanece nas áreas e pode provocar novo aumento da doença sob condições favoráveis, especialmente no Cerrado. Entre os agentes da doença, predomina Ramulariopsis pseudoglycines: um levantamento em safras anteriores identificou a espécie em cerca de 94% dos isolados coletados nas regiões produtoras. Perina destacou também a elevada variabilidade genética das populações, que exige acompanhamento contínuo. Ele defendeu combinar manejo cultural, ferramentas biológicas e controle químico.

Ensaios realizados em 2025 registraram eficiência entre 66% e 87% nos tratamentos para ramulária, conforme o produto. Os ensaios foram conduzidos por uma rede de cerca de 20 pesquisadores, com participação institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Para Perina, o objetivo deve ir além de uma única safra. "Se fizermos um bom manejo, deixamos um potencial de inóculo no final do ciclo muito baixo", afirmou. Com menos inóculo, a pressão inicial da doença no ciclo seguinte tende a ser menor.

Na mancha-alvo, causada pelo fungo Corynespora cassiicola, o sistema de produção interfere diretamente na pressão da doença. Nedio Tormen, da VerdeAgro, apontou que a intensificação de cultivos no Centro-Oeste e no Centro-Norte pode manter mais inóculo disponível ao longo do ano. O algodão implantado após a soja recebeu destaque. Temperaturas elevadas, disponibilidade contínua de água e maior sombreamento do dossel favorecem a progressão da doença, que reduz a capacidade fotossintética das folhas e pode acelerar a desfolha.

"Só aplicações de fungicidas não adiantam", ressaltou Tormen. Lavouras mais fechadas aumentam o sombreamento, enquanto plantas mais abertas e arejadas podem reduzir a pressão da doença. Por isso, o manejo da arquitetura das plantas e o uso adequado de reguladores de crescimento integram a estratégia. Na rede de ensaios da safra 2025, os tratamentos para mancha-alvo tiveram eficiência entre 40% e 60%. Tormen destacou ainda a necessidade de monitorar a resistência a fungicidas, lembrando que na soja já há resistência consolidada relacionada à mancha-alvo.

A visão do produtor foi apresentada por Karla Kudlawiec, coordenadora regional de fitossanidade da SLC Agrícola. Segundo ela, há diferenças importantes entre algodão de primeira e de segunda safra, e o manejo fitossanitário começa no planejamento. O posicionamento das cultivares precisa considerar características genéticas e sanitárias, além do histórico de nematoides e plantas daninhas. Acompanhar ensaios, avaliar a estabilidade dos fungicidas e analisar as novas ferramentas completam a estratégia.

Peso na estratégia fitossanitária

O controle biológico amplia sua participação nos sistemas agrícolas brasileiros. Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente, citou estudo publicado em 2025 que aponta o Brasil como maior produtor e consumidor mundial de agentes de controle biológico. Ele atribuiu parte desse avanço à disposição dos agricultores em incorporar novas ferramentas. Segundo o pesquisador, o uso de microrganismos já está disseminado entre os grandes produtores. Uma das projeções que ele apresentou indica que os biológicos podem responder por metade do mercado de pesticidas até 2050.

A expansão aumenta a importância do controle de qualidade. Flávia Sampaio Alexandre, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), apresentou o trabalho do Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola do campus de Sinop. Entre 2020 e 2025, o laboratório analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte de Mato Grosso. O conjunto incluiu produtos comerciais, inóculos e materiais de multiplicação on farm, com predominância de bactérias e de produtos desse modelo. Entre as situações encontradas, houve, por exemplo, a identificação de agente contaminante em uma das avaliações.

Para a pesquisadora, a qualidade depende de toda a cadeia: pesquisa, produção, armazenamento, manipulação e aplicação no campo. A capacitação de quem manipula e usa os microrganismos também é decisiva para a consistência dos resultados. "O futuro dos bioinsumos depende de confiança. E a confiança começa com a qualidade", afirmou.

As discussões incluíram ainda novas fronteiras tecnológicas. Galdino Andrade Filho, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), apontou a edição gênica e o RNA interferente entre as possibilidades para os próximos anos. Ele também provocou o setor a dar mais atenção a bioinsumos voltados especificamente para o algodão.

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