Trinta anos de resistência ao glifosato

Por Ricardo Alcántara-de la Cruz, UFV

09.06.2026 | 07:40 (UTC -3)
Foto: Ricardo Alcántara-de la Cruz
Foto: Ricardo Alcántara-de la Cruz

O glifosato é, sem dúvida, um dos herbicidas mais importantes da história da agricultura. Desde sua introdução na década de 1970 e, sobretudo, após a adoção de culturas transgênicas resistentes a partir de 1996, transformou profundamente o manejo de plantas daninhas no mundo.

Sua popularidade não é por acaso: trata-se de um produto altamente eficiente, de amplo espectro, relativamente barato e fácil de usar. Essas características fizeram com que se tornasse a principal ferramenta de controle em muitos sistemas agrícolas.

No entanto, esse mesmo ano de 1996 também marcou o primeiro relato de uma planta daninha resistente ao glifosato - uma espécie de azevém (Lolium rigidum) na Austrália -, sinalizando, já naquele momento, os desafios associados ao uso intensivo desse herbicida. O uso repetido ao longo de décadas criou uma forte pressão de seleção, favorecendo a sobrevivência de indivíduos naturalmente mais tolerantes. Com o tempo, isso levou à evolução da resistência.

Atualmente, existem quase 400 casos documentados de resistência ao glifosato no mundo, envolvendo 62 espécies de plantas daninhas, com registros em diversos sistemas agrícolas e regiões. No Brasil, já são mais de 20 casos confirmados, distribuídos em diferentes espécies. Mais do que a quantidade, o que chama atenção é a complexidade crescente e a dispersão desse problema.

Esta análise baseia-se na revisão científica publicada na revista Pest Management Science, intitulada “Thirty years of glyphosate-resistant crops and weeds: Current situation and future prospects”, desenvolvida com a participação de estudantes de graduação e pós-graduação da UFV, bem como de pesquisadores de referência na área, como Fernando Adegas (Embrapa), Caio Carbonari (Unesp), Edivaldo Velini (Unesp e presidente da SBCPD), Rafael De Prado (Universidade de Córdoba) e Stephen Duke (Universidade do Mississippi), reunindo diferentes experiências e perspectivas sobre o tema.

Complexidade da resistência

A resistência ao glifosato não ocorre de uma única forma. Diferentemente de outros herbicidas, as plantas daninhas desenvolveram uma grande diversidade de mecanismos para sobreviver ao herbicida. Esses mecanismos incluem alterações no local de ação, redução da absorção, menor translocação dentro da planta, sequestro do herbicida em compartimentos celulares e até sua degradação. Em muitos casos, mais de um desses mecanismos ocorre simultaneamente na mesma planta.

Esse acúmulo de mecanismos, conhecido como “resistência acumulada” ou “creeping resistance”, é especialmente preocupante. Isoladamente, cada mecanismo tem efeito limitado, mas, quando combinados, atuam de forma sinérgica - ou seja, potencializam-se entre si -, muitas vezes com efeito exponencial, tornando o controle muito mais difícil e, em muitos casos, ineficiente.

Culturas transgênicas

A adoção de culturas transgênicas resistentes ao glifosato foi um marco na agricultura moderna. Lançadas comercialmente em 1996, essas culturas expandiram-se rapidamente, passando de 1,7 milhão de hectares para cerca de 180 milhões em menos de duas décadas, e atualmente ultrapassam 200 milhões de hectares no mundo.

Hoje, 28 países cultivam transgênicos, sendo que mais de 80% da área global está concentrada entre Estados Unidos, Brasil e Argentina. Soja, milho e algodão respondem por mais de 90% dessa área.

Entre os principais países produtores, o Brasil foi um dos últimos a adotar cultivos transgênicos, com início oficial em 2003, a partir da soja. No entanto, sua aceitação foi rápida e expressiva.

A soja transgênica rapidamente alcançou ampla adoção, seguida por milho e algodão, que hoje dominam os sistemas produtivos e foram fundamentais para a expansão agrícola do país. A área cultivada com essas culturas praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de cerca de 37 milhões para mais de 70 milhões de hectares.

Nesse mesmo período, a produção cresceu de duas a três vezes, acompanhada por ganhos expressivos de produtividade - cerca de 74% no algodão, 61% no milho e 66% na soja.

Mais do que uma ferramenta de controle, o glifosato foi um dos principais motores da agricultura moderna. Sua adoção impulsionou inovação e crescimento econômico, viabilizando sistemas mais eficientes e consolidando o plantio direto. Sustentou cadeias produtivas inteiras - envolvendo sementes, insumos, máquinas, logística e pesquisa.

Esse avanço ajudou a redesenhar o mapa agrícola brasileiro, impulsionando a expansão e o surgimento de comunidades e até de cidades inteiras no interior do país, muitas delas diretamente dependentes dessa dinâmica produtiva. O impacto vai além do campo: resultou em melhor qualidade de vida, geração de renda e maior oferta de alimentos a preços mais acessíveis, que seriam significativamente mais elevados sem o glifosato e as culturas transgênicas.

Considerando a importância do agronegócio brasileiro, que representa cerca de 6,5% do PIB nas atividades primárias e cerca de 23% quando considerada toda a cadeia, é inevitável questionar quanto dessa contribuição está direta ou indiretamente associada a sistemas produtivos dependentes do glifosato.

Por outro lado, esse modelo também contribuiu para a simplificação dos sistemas de manejo. A dependência de um único herbicida levou à repetição do uso do glifosato safra após safra, muitas vezes como principal ou única ferramenta de controle, favorecendo a seleção e disseminação de biótipos resistentes.

A realidade brasileira

O Brasil está entre os países com maior pressão de seleção, devido à ampla adoção de culturas resistentes ao glifosato.

Espécies como buva (Conyza spp.), capim-amargoso (Digitaria insularis) e capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) tornaram-se emblemáticas. Muitas delas, além da resistência ao glifosato, apresentam resistência a herbicidas de outros mecanismos de ação, o que torna o manejo ainda mais complexo.

A dispersão ocorre rapidamente, por meio de sementes, máquinas agrícolas e movimentação de grãos. Estimativas recentes indicam que mais de 26 milhões de hectares, aproximadamente 55% da área produtora de grãos no Brasil, apresentam infestações com plantas daninhas resistentes ao glifosato.

O capim-amargoso é um dos principais destaques, com cerca de 18,7 milhões de hectares infestados, seguido pela buva (17,5 milhões) e pelo azevém (4,8 milhões). Espécies de carurus (Amaranthus spp.) e o capim-pé-de-galinha também vêm se expandindo rapidamente, alcançando aproximadamente 4,2 milhões e 8,6 milhões de hectares, respectivamente, em menos de uma década após a detecção da resistência ao glifosato. É importante destacar que a soma das áreas infestadas por espécie não corresponde ao total estimado de 26 milhões de hectares, uma vez que diferentes espécies frequentemente ocorrem simultaneamente na mesma área.

O impacto econômico da resistência é significativo. Em 2025, os custos adicionais de manejo da resistência ao glifosato no Brasil ultrapassaram R$ 7,5 bilhões por ano, relacionados ao custo de herbicidas alternativos. Ou seja, essa estimativa não inclui perdas de produtividade nem custos indiretos, como mais aplicações, controle mecânico ou manual e adoção de outras tecnologias transgênicas, além de maior consumo de combustível e mão de obra. Espécies como buva, capim-amargoso e capim-pé-de-galinha concentram grande parte desse impacto.

Aprendizados e expectativas

Após mais de 50 anos de uso do glifosato - e 30 anos desde a introdução das culturas transgênicas e os primeiros casos de resistência -, a principal lição é clara: não existe solução única no manejo dessas plantas.

O glifosato continua sendo uma ferramenta essencial e o herbicida mais utilizado no mundo. Além disso, seu uso, especialmente em sistemas com culturas transgênicas, trouxe benefícios ambientais importantes, como a redução do revolvimento do solo, o menor consumo de combustível e o menor impacto ambiental em comparação a alternativas.

No entanto, seu uso isolado não é sustentável no longo prazo. A resistência continuará evoluindo sempre que houver alta pressão de seleção e baixa diversidade de manejo.

O futuro do controle de plantas daninhas passa pela diversificação: rotação de mecanismos de ação, integração de práticas culturais, controle mecânico e estratégias preventivas.

Mais do que substituir o glifosato, o desafio é utilizá-lo de forma mais estratégica, dentro de sistemas integrados.

Reflexão final

A história do glifosato é um exemplo de sucesso - e um alerta.

Poucos produtos tiveram impacto tão amplo na agricultura, na ciência e na economia. Sua contribuição vai muito além do controle de plantas daninhas.

Mas fica a pergunta: veremos outra molécula tão revolucionária quanto o glifosato - ou já aprendemos que nenhuma solução, por melhor que seja, permanece eficaz sozinha por muito tempo?

Por Ricardo Alcántara-de la Cruz, UFV

Artigo publicado na edição 321 da Revista Cultivar Grandes Culturas

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