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Manejo de nematoides em cana-de-açúcar

02/08/2022

Diferentemente do que ocorre em outras culturas, nematoides não levam canaviais à morte. Mas as plantas geralmente ficam menores, com colmos mais finos, as touceiras se desenvolvem menos e tem menor número de colmos, o campo como um todo se torna muito irregular e pouco produtivo. O uso de nematicidas químicos e biológicos é uma das estratégias para minimizar os prejuízos destes parasitos.

Os nematoides causam redução de produtividade em muitas culturas de importância agrícola, como soja, algodão, milho, café, laranja, e não é diferente em relação à cana-de-açúcar. Em canaviais podem ser encontradas muitas espécies de nematoides, mas quatro são as responsáveis pelos maiores prejuízos aos produtores brasileiros:  Pratylenchus zeae e P. brachurus, Meloidogyne javanica e M. incognita.

De acordo com o DMLab – Laboratório de análises agrícolas em Ribeirão Preto, São Paulo, que analisa amostras enviadas por produtores de todo o Brasil, P. zeae é, sem dúvida, a espécie mais frequentemente encontrada em populações altas o suficiente para causar danos econômicos em canaviais, presente em 97% das amostras analisadas. As espécies M. javanica e P. brachyurus são encontradas em aproximadamente 35% das amostras, enquanto M. incognita é mais rara em canaviais, com presença em aproximadamente 20% das amostras.

Galhas provocadas por Meloidogyne tanto em raízes originárias do tolete plantado como do perfilho brotado

P. zeae é a espécies mais relevante em cana-de-açúcar por ser a mais frequentemente  encontrada em populações altas o suficiente para causar danos econômicos, como citado anteriormente, mas não é a mais patogênica; em geral as espécies de Meloidogyne são mais patogênicas às cultivares de cana-de-açúcar que as espécies de Pratylenchus. Assim, em média, a patogenicidade decresce na seguinte ordem: M. incognitaM. javanica, P. zeae e P. brachyurus. Considerando à frequência em que aparecem em população alta o suficiente para causar dano, a importância decresce na seguinte ordem: P. zeae, M. javanica, M. incognita, P. brachyurus.

O ataque dos nematoides à cana-de-açúcar restringe-se às raízes, de onde extraem nutrientes para o crescimento e desenvolvimento. Esse ataque ao sistema radicular ocorre desde a emissão das primeiras raízes, originadas tanto do tolete como dos perfilhos brotados a partir das gemas. Como os nematoides injetam toxinas no sistema radicular, ocorrem deformações (como as galhas provocadas por  Meloidogyne) e  extensas áreas necrosadas, quando os nematoides presentes são Pratylenchus. Em consequência do ataque de nematoides, as raízes tornam-se pobres em radicelas e incapazes de absorver água e nutrientes necessários para o bom desenvolvimento das plantas, que ficam menores, raquíticas, cloróticas, murchas nas horas mais quentes do dia e menos produtivas.

Lesões em raízes de cana-de-açúcar provocadas por Pratylenchus

Se em culturas como soja, tomate e café, entre outras, se observam com facilidade as galhas provocadas por Meloidogyne, em canaviais nem sempre isso ocorre, devido à espessura das raízes de cana, muitas vezes as galhas passam despercebidas. Já as necroses radiculares provocadas por Pratylenchus podem também ser confundidas em cana por necroses provocadas por certas pragas, como a cigarrinha das raízes. Assim, a detecção de populações de nematoides em canaviais depende de análise de amostras de raízes e solo em laboratório. Tais análises são ainda mais necessárias porque os nematoides não chegam a provocar a morte de plantas de cana-de-açúcar, o que é comum em culturas anuais (soja, algodão, etc.) e até mesmo em algumas perenes. Em cana-de-açúcar, as plantas geralmente ficam menores, com colmos mais finos; as touceiras se desenvolvem menos e tem menor número de colmos; o campo como um todo se torna muito irregular e pouco produtivo; mas não se observam touceiras mortas devido ao ataque de nematoides.

Os danos causados por esses parasitos variam em função das espécies presentes, da população de cada uma delas, do tipo de solo, da variedade de cana e de muitos outros fatores, mas estão em média entre 20% e 40% de redução de produtividade no primeiro corte, podendo chegar a mais de 50 %, em casos de níveis populacionais muito altos e variedades muito suscetíveis. Nas soqueiras, a produtividade também é seriamente reduzida, comprometendo a longevidade da lavoura, que precisa ser renovada mais frequentemente em áreas infestadas.

 A grandeza dos danos causados por nematoides em cana-planta e em cana-soca podem ser facilmente observados em campo, pelo uso de nematicida em áreas infestadas, em comparação com áreas não tratadas: plantas maiores apresentam menores populações de nematoides em suas raízes devido ao uso de nematicidas, no plantio  ou nas soqueiras.

Aspecto do canavial implantado em área infestada por nematoides, tratado (à direita) ou não (à esquerda) com nematicida no plantio
Área infestada por nematoides, tratado (à esquerda) ou não (à direita) com nematicida na soqueira

Um exemplo dos danos causados por nematoides à cana-planta é apresentado na Figura 1, em que está representada a redução de produtividade causada por nematoides em canaviais, conduzidos em diversas áreas infestadas, nas quais o plantio foi realizado em diferentes épocas do ano.  Para estimar tal dano foram comparadas as produtividades do canavial, plantado ou não com nematicida no sulco. No exemplo citado, os nematoides causaram redução de produtividade variando de  11% a 25 %.

Figura 1. Redução de produtividade da cana-planta, plantada em diferentes épocas do ano, devido aos nematoides.

Os danos causados por nematoides em soqueiras também são relevantes e podem ser percebidos quando se efetua ou não o tratamento nematicida em área infestada e se compara a produtividade tanto da área tratada como da não tratada (testemunha). Um exemplo disso está na Figura 2, em que a cana-soca foi tratada tanto com nematicida químico (carbosulfan) como com nematicida biológico (Bacillus subtilis + B.  licheniformis).  

Figura 2. Produtividade da cana-soca conduzida em área infestada por nematoides, tratada com nematicida químico (carbosulfan) ou biológico (Bacillus subtilus + B. licheniformis) e não tratada (testemunha).

Tanto em cana-planta como em soqueira, o uso de nematicidas químicos ou biológicos em áreas infestadas resulta em incremento significativo de produtividade do canavial, o que confirma a importância de nematoides em cana-de-açúcar.

Artigo publicado na edição 227 da Cultivar Grandes Culturas, mês abril, ano 2018.

Leila Luci Dinardo-Miranda, Centro de Cana-de-açúcar, Instituto Agronômico

Revista Cultivar

 

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