Relare debate desafios para ampliar uso de bioinsumos no Brasil
Especialistas destacam necessidade de adaptar microrganismos às condições locais e avançar em regulamentação
Três espécies de tripes associadas a hortaliças podem atuar como predadores facultativos do ácaro-rajado Tetranychus urticae. A maior pressão ocorreu sobre os ovos. Em criação conjunta durante 20 dias, as três espécies de tripes reduziram a abundância de formas ativas de Tetranychus urticae. Os resultados ampliam a compreensão sobre as interações entre essas pragas e indicam impacto potencial sobre estratégias de manejo integrado.
Pesquisadores avaliaram Frankliniella occidentalis, Thrips palmi e Megalurothrips usitatus. As três espécies consumiram Tetranychus urticae em ensaios de laboratório. A intensidade da predação variou conforme a espécie de tripes, o estágio de desenvolvimento do predador, o estágio da presa e a presença de tecido vegetal (doi 10.3390/insects17080873).
Frankliniella occidentalis apresentou a maior predação sobre ovos. Larvas de primeiro ínstar alcançaram taxa corrigida de 96,8%, larvas de segundo ínstar chegaram a 95,7% e adultos atingiram 98,2%. O desempenho permaneceu alto nos três estágios avaliados.
Thrips palmi apresentou resposta dependente do estágio. Adultos consumiram 64,1% dos ovos de Tetranychus urticae. Larvas de primeiro ínstar registraram 26,3%. Larvas de segundo ínstar alcançaram 15,2%. Megalurothrips usitatus apresentou taxas menores, entre 19,8% e 23,1% nos estágios avaliados.
A predação sobre ninfas do ácaro apresentou maior variação. Larvas de primeiro ínstar de Thrips palmi alcançaram 57,3%. Adultos da mesma espécie registraram 50,3%. Adultos de Frankliniella occidentalis atingiram 46%. Megalurothrips usitatus apresentou valores entre 28,8% e 35,8%. A pressão sobre adultos de Tetranychus urticae ficou abaixo daquela observada sobre ovos e variou de 10,4% a 34,7%.
A presença da planta hospedeira alterou a predação sobre ovos. A retirada do material vegetal elevou o consumo por Frankliniella occidentalis e Thrips palmi. O efeito para Megalurothrips usitatus apresentou menor intensidade e não alcançou significância estatística. A predação sobre ácaros adultos permaneceu baixa nos diferentes substratos.
Segundo os pesquisadores, arenas sem tecido vegetal aumentam a possibilidade de encontro entre predador e presa. A ausência da planta também elimina possíveis refúgios para os ovos e retira uma fonte alternativa de alimento dos tripes. Por esse motivo, as taxas obtidas sem planta representam um limite potencial de capacidade predatória. Elas não correspondem a uma estimativa direta para lavouras ou cultivos protegidos.
Os experimentos de criação conjunta reforçaram o efeito sobre a população do ácaro. Após 20 dias, Megalurothrips usitatus reduziu em 51,84% a abundância de formas ativas de Tetranychus urticae. Thrips palmi provocou redução de 31,08%. Frankliniella occidentalis apresentou redução de 54,04%.
O estudo, porém, não atribui toda essa queda à predação direta. A competição por recursos vegetais, alterações induzidas pelos tripes na qualidade da planta e respostas de defesa do hospedeiro também podem participar do resultado. Os pesquisadores consideram necessários ensaios de semicampo e campo para separar esses mecanismos.
As interações predatórias entre as próprias espécies de tripes tiveram menor intensidade. Adultos não reduziram de forma significativa a sobrevivência de adultos de outras espécies durante os ensaios de 24 horas. Resultados semelhantes ocorreram na maior parte das combinações envolvendo larvas.
Uma exceção envolveu larvas de segundo ínstar de Megalurothrips usitatus. Elas reduziram a sobrevivência de ovos de Frankliniella occidentalis em 57,4%. Nas demais combinações com ovos de espécies diferentes, os pesquisadores não detectaram efeito significativo.
A equipe também empregou PCR quantitativa para confirmar a transferência de material genético das presas aos predadores. DNA de Tetranychus urticae apareceu em indivíduos das três espécies de tripes após os ensaios de alimentação. O método também detectou DNA de tripes utilizados como presa em combinações selecionadas. Os pesquisadores ressaltam o uso dessa análise como confirmação da interação trófica, não como medida direta da intensidade de predação.
Os ensaios ocorreram em laboratório, a 25 graus Celsius, umidade relativa de 50% com variação de dez pontos percentuais e fotoperíodo de 16 horas de luz e oito horas de escuro. As arenas não possuíam colônias de ácaros previamente estabelecidas nem acúmulo de teias.
Essa condição limita a extrapolação para o campo. Populações altas de Tetranychus urticae produzem teias sobre folhas, pecíolos e caules. Essa estrutura pode dificultar o deslocamento e a busca dos inimigos naturais. Estudos anteriores citados no trabalho já registraram redução da predação por Frankliniella occidentalis na presença de teias.
Os pesquisadores classificam os três tripes como onívoros dependentes do contexto, e não apenas como herbívoros. A capacidade de consumir ovos de Tetranychus urticae pode contribuir para reduzir populações do ácaro em determinadas situações. Isso não transforma os tripes em organismos benéficos ao sistema produtivo. As mesmas espécies provocam danos diretos às culturas e algumas também transmitem vírus de plantas.
Para o manejo integrado, o estudo aponta a necessidade de considerar essa interação ao avaliar populações simultâneas de tripes e ácaros. Programas com inseticidas de amplo espectro direcionados aos tripes também podem eliminar uma fonte incidental de mortalidade de Tetranychus urticae. A relevância agronômica desse efeito ainda depende de validação em condições reais de cultivo.
Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura