Ordem de infestação por ácaros define defesa antioxidante

Estudo mostra que chegada antecipada de Tetranychus urticae reduz população de T. ludeni em feijoeiro

28.01.2026 | 07:04 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: Bruce Watt, University of Maine
Foto: Bruce Watt, University of Maine

A ordem de colonização por ácaros fitófagos interfere diretamente na dinâmica populacional das pragas e na resposta bioquímica do feijoeiro. Pesquisa conduzida no Rio Grande do Sul demonstrou que a chegada antecipada de Tetranychus urticae reduz de forma significativa a população de Tetranychus ludeni e modula a atividade de enzimas antioxidantes da planta. O trabalho avaliou feijoeiro comum (Phaseolus vulgaris) sob diferentes cenários de infestação e mediu respostas associadas à defesa vegetal.

O estudo partiu do conceito de efeito de prioridade. Esse efeito descreve a vantagem competitiva da espécie que coloniza primeiro o hospedeiro. A hipótese testada indicou que o primeiro herbívoro altera as condições da planta e dificulta o estabelecimento do competidor que chega depois. Para testar essa premissa, os pesquisadores compararam infestações isoladas, simultâneas e sequenciais dos dois ácaros.

Os experimentos ocorreram em ambiente controlado. Plantas jovens de feijão receberam fêmeas adultas de T. ludeni e T. urticae. Os tratamentos incluíram infestação isolada de cada espécie, liberação simultânea das duas e liberações com intervalo de quatro dias entre uma espécie e outra. Após 14 dias, os pesquisadores contaram apenas os indivíduos adultos, o que permitiu distinguir visualmente as espécies.

Resultados do estudo

Os resultados mostraram efeito claro da ordem de chegada. Quando T. ludeni infestou a planta sozinho, sua população cresceu mais. Quando dividiu a planta com T. urticae, apresentou redução acentuada. A queda ocorreu tanto na infestação simultânea quanto nos tratamentos em que T. urticae chegou primeiro. Nesse cenário, T. ludeni apresentou as menores abundâncias registradas.

T. urticae manteve desempenho elevado. A espécie apresentou crescimento populacional semelhante quando sozinha ou acompanhada de T. ludeni. Mesmo quando chegou depois, conseguiu se estabelecer na planta. O resultado indicou maior capacidade competitiva de T. urticae no feijoeiro.

A distribuição dos ácaros nas folhas não variou entre as faces adaxial e abaxial. A análise estatística não identificou preferência por região foliar. O resultado sugere que, nas condições do experimento, o espaço disponível na planta não favoreceu segregação espacial entre as espécies.

Resposta fisiológica

Além da dinâmica populacional, o trabalho avaliou a resposta fisiológica do feijoeiro. Os pesquisadores mediram a atividade de três enzimas antioxidantes. As enzimas analisadas incluíram ascorbato peroxidase (APX), catalase (CAT) e superóxido dismutase (SOD). Essas enzimas participam do controle de espécies reativas de oxigênio geradas durante o estresse causado pela herbivoria.

A presença dos ácaros alterou de forma significativa a atividade das três enzimas. Plantas infestadas por T. urticae apresentaram maior atividade de APX. Esse padrão indicou estímulo à decomposição do peróxido de hidrogênio gerado durante o ataque. Já plantas infestadas por T. ludeni mostraram aumento na atividade de CAT e SOD, enzimas associadas às etapas iniciais da defesa antioxidante.

Nos tratamentos com coexistência, a resposta variou conforme a ordem de infestação. Quando T. urticae chegou primeiro, a atividade enzimática não aumentou de forma expressiva após a entrada de T. ludeni. O resultado sugere modulação da defesa vegetal condicionada pelo primeiro herbívoro.

Análises de correlação

As análises de correlação reforçaram esse padrão. T. ludeni associou-se positivamente à atividade de CAT e SOD e negativamente à APX. T. urticae apresentou resposta oposta, com correlação positiva com APX e negativa com CAT e SOD. O comportamento indicou que cada espécie ativa componentes distintos do sistema antioxidante da planta.

Os autores destacaram que a chegada antecipada de T. urticae compromete o desenvolvimento de T. ludeni. O efeito decorre tanto da competição direta quanto da indução de respostas defensivas na planta. O trabalho indicou que o feijoeiro ajusta seu metabolismo de defesa conforme a identidade e a sequência de infestação dos herbívoros.

A pesquisa foi realizada por Tairis da Costa, Julia Renata Schneider, Aline Marjana Pavan, Luana Fabrina Rodighero, Anderson de Azevedo Meira, Noeli Juarez Ferla e Geraldo Luiz Gonçalves Soares.

Mais informações em doi.org/10.3390/insects17020145

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