Novas nectarinas garantem oferta de fruta por mais tempo ao consumidor

As três cultivares possuem períodos de maturação que se complementam, garantindo produção do fim de outubro até o fim de dezembro

22.01.2024 | 16:21 (UTC -3)
Francisco Lima
Foto: Paulo Lanzetta
Foto: Paulo Lanzetta

Três novas cultivares de nectarineiras foram lançadas em conjunto para proporcionar aos produtores disponibilidade de frutas nos pomares por mais tempo. Desenvolvidas pelo Programa de Melhoramento Genético de Frutas de Caroço, liderado pela Embrapa Clima Temperado (RS), as variedades BRS Cathy, BRS Dani e BRS Janita possuem períodos de maturação que se complementam, garantindo produção do fim de outubro ao fim de dezembro.

“Em geral, lançamos uma cultivar de cada vez, porque leva em média cinco anos para serem adotadas e chegarem realmente ao mercado. Mas essas foram lançadas em conjunto porque têm as características comuns de serem doces, com baixa acidez e com uma sequência na maturação”, explica a pesquisadora Maria Bassols Raseira, uma das responsáveis pelo desenvolvimento dos materiais.

Considerando a região de Pelotas (RS), onde ocorreram as principais avaliações a campo, a maturação e consequente colheita é precoce e tem início no final de outubro ou no início de novembro no caso da BRS Cathy. Na sequência, a BRS Dani pode ser colhida a partir da segunda quinzena de novembro e a BRS Janita a partir da segunda semana de dezembro. O foco das frutas é para o mercado in natura.

Disponibilidade de mudas

Atualmente, cinco produtores já foram licenciados para multiplicar os materiais. As mudas devem estar disponíveis ao setor produtivo a partir do ano que vem. A lista dos fornecedores pode ser encontrada na página de cada uma das cultivares no portal Embrapa ou neste documento.

A expectativa é que nos próximos dois a três anos, a pesquisa ainda disponibilize mais três variedades de nectarineiras. Em 2018, a variedade de polpa branca BRS SCS Nina foi lançada, em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), para suprir parte da necessidade de cultivares adaptadas ao cultivo no Brasil. Com os futuros lançamentos, a Embrapa deve disponibilizar sete variedades ao setor produtivo até 2026.

Características das frutas e das plantas

A BRS Cathy e a BRS Dani produzem frutas de polpa branca, com película de cor creme e cobertura majoritariamente vermelha; já a BRS Janita produz frutas de polpa amarela, com película amarelo-esverdeada e cobertura também predominantemente vermelha. As duas primeiras variedades apresentam frutos com peso médio entre 80 g e 100 g. A BRS Janita eleva essa média para entre 90 g e 110 g. 

Em termos de produtividade, a BRS Cathy parte de 15 toneladas por hectare (t/ha), podendo superar 20 t/ha, dependendo da região de cultivo e do manejo do pomar. As variedades BRS Dani e BRS Janita, por sua vez, têm produtividade média em torno de 20 t/ha e também podem superar essa marca em função do contexto produtivo.

Foto: Rodrigo Franzon
Foto: Rodrigo Franzon

As avaliações foram realizadas por mais de 15 anos em áreas experimentais da Embrapa, em Pelotas (RS); por seis a oito anos em Bento Gonçalves (RS), pela Embrapa Uva e Vinho (RS); e em produtores parceiros dos estados do Sul e Sudeste do Brasil. A recomendação de cultivo é para as Regiões Sul e Sudeste do País. As três variedades apresentam baixa necessidade de frio, especialmente a BRS Cathy (200-250 horas de frio), o que significa que são melhor adaptadas a regiões mais quentes, onde há menor incidência de períodos frios (abaixo de 7,2º C).

Batismo das cultivares e apoio dos produtores

Os nomes fantasia das cultivares tendem a ser escolhidos em função de características importantes dos materiais, mas desta vez a equipe decidiu reconhecer pessoas relevantes ao trabalho de melhoramento. A BRS Cathy homenageia a pesquisadora norte-americana Catherine Bailey, uma das primeiras melhoristas de frutíferas, que prestou relevantes contribuições à fruticultura mundial; e a BRS Janita é uma homenagem a Janita Moore, esposa e incentivadora do melhorista James Moore, por quem Maria do Carmo foi orientada.

Já a BRS Dani presta uma homenagem nacional e reconhece o jovem Daniel Staloch, atualmente com quinze anos, que desde criança ajuda o pai, Marcos Staloch, no cultivo de pêssegos e nas avaliações das seleções de nectarineiras. “Na época, era um menino que nos acompanhava nas visitas às Unidades de Observação (UO) na propriedade do pai dele. Com a homenagem ao Daniel, homenageamos também todos os produtores e parceiros que têm colaborado conosco ao longo dos anos”, completa a pesquisadora.

O pai de Daniel, Marcos, cultiva hoje cerca de onze hectares de pêssego e mantém uma UO de nectarinas, mas estava aguardando os resultados das avaliações e dos lançamentos para investir na cultura da nectarineira. A ideia é cultivar em torno um hectare nos próximos dois anos. “Com a homenagem ao Daniel, homenageamos também todos os produtores e parceiros que têm colaborado conosco ao longo dos anos”, completa a pesquisadora.

Para a presidente da Associação dos Produtores de Frutas de Pinto Bandeira (Asprofruta), Rubiane Rubbo, a fruta tem potencial para crescer. “Como a nectarina não tem pelos, não precisa descascar, usar faca, então vejo muito potencial. Cultivamos e acreditamos nela como uma fruta do futuro, para as crianças, nos lanches… E essas variedades que estão sendo lançadas são doces, trazem praticidade e só tendem a expandir o cultivo aqui no nosso município”, declara.

Diferenças entre nectarinas e pêssegos

A pesquisadora esclarece que a nectarina é uma mutação do pêssego e, portanto, pertence à mesma espécie, Prunus persica L.. “Muitos pensam que ela é o cruzamento de pêssego com ameixa, mas não é”, comenta. A principal diferença entre as frutas está na pele, já que a nectarina não tem pelos. A polpa da nectarina também tende a concentrar maior nível de sólidos solúveis, ou seja, costuma ter mais açúcar. 

De modo geral, o cultivo de nectarina tem crescido no mundo, enquanto que o do pêssego está estabilizado, embora no Brasil a nectarina ainda não seja muito popular. Os dados do IBGE mais recentes, de 2017, apontam área colhida de 355 hectares, com produção estimada em 4,2 mil toneladas, em cerca de 280 estabelecimentos. O estado de Santa Catarina era o maior produtor, com 2,1 mil toneladas colhidas, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 605 toneladas à época.

Segundo dados mais recentes da Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2023, elaborada pelo Departamento de Governança dos Sistemas Produtivos da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) do Rio Grande do Sul, o Estado abriga hoje cerca de 60 hectares da fruta, em 74 produtores. Em 2022, o volume de produção estimado foi de 950 toneladas.

O potencial para crescimento do cultivo de nectarinas teria relação com o volume de importações, já que, para os pesquisadores, isso indicaria aumento da demanda pela fruta. Segundo informações da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/MDIC), o Brasil importou, em média, 5,2 mil toneladas e 6,5 milhões de dólares em nectarinas anualmente, considerando-se os últimos seis anos. 

Tendência do cultivo de nectarineiras em comparação com pessegueiro

Foto: Francisco Lima
Foto: Francisco Lima

De acordo com o pesquisador da área de socioeconomia rural da Embrapa Clima Temperado, Luiz Clóvis Belarmino, a tendência nos principais países produtores de pêssegos do ocidente, principalmente Espanha, tem sido uma mudança no tipo de produção e comercialização. Segundo o site Fructidor, que reúne informações internacionais sobre frutas e vegetais, o crescimento naquele país foi 63% na produção de nectarinas em 2023 em relação ao ano anterior (que não atingiu safra plena).

Somando os principais países produtores na Europa em 2023 (Itália, Grécia, Espanha e França), foram colhidas 3,3 milhões de toneladas de frutas da espécie Prunus pérsica, classificadas em nectarinas (39%), pêssegos tradicionais (30%), pávias (20%) e pêssegos achatados (10%). Com relação à nectarina, foram produzidas 1,3 milhão de toneladas, o que representou crescimento de 16% com relação ao ano anterior. 

Segundo o IBGE, o Brasil colheu 208.823 toneladas de pêssegos em 2022. “A diversificação já está acontecendo lá fora e a tendência é que essa mudança ocorra por aqui. O nosso futuro será repetir os hábitos de consumo norte-americanos e dos países europeus exportadores, como a Espanha”, completa o pesquisador.

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