Movimento de percevejos desafia eficácia de plantas companheiras

Estudo registra migração rápida entre framboesa, morango e espécies usadas como plantas-armadilha

21.08.2026 | 10:24 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Cnrdmroglu / Pexels
Foto: Cnrdmroglu / Pexels

Plantas companheiras podem alterar o deslocamento de percevejos invasores em cultivos de framboesa e morango. O efeito, porém, varia com a espécie vegetal, o tempo após a chegada dos insetos e as condições locais. Experimentos com Halyomorpha halys e Nezara viridula mostraram movimentação frequente entre a cultura principal e a vegetação adjacente. Os resultados indicam potencial das plantas companheiras para concentrar pragas, mas também apontam risco de funcionamento dessas áreas como rotas de dispersão.

Pesquisadores da Universidade de Geisenheim, na Alemanha, avaliaram os insetos em dois experimentos realizados em 2024 (doi 10.1002/ps.71217). O primeiro acompanhou adultos de Halyomorpha halys em gaiolas de semicampo com framboeseiras, fava, girassol e uma mistura de plantas floríferas. O segundo empregou marcação, liberação e recaptura de Nezara viridula em uma área de morango com faixas de vegetação companheira.

Halyomorpha halys

No ensaio com Halyomorpha halys, todos os adultos iniciaram o experimento sobre framboeseiras. A equipe acompanhou os insetos durante cinco dias. Ao longo do período, os percevejos passaram a ocupar fava e girassol com maior frequência.

No conjunto das observações, 50,4% dos registros ocorreram nas framboeseiras. A área aberta das gaiolas respondeu por 24,8%. A fava concentrou 10,9% dos registros e o girassol, 10,7%. A mistura de plantas floríferas recebeu 3,3%.

A distribuição também mudou entre os dois ambientes experimentais. A gaiola sombreada concentrou maior proporção de insetos nas framboeseiras. O ambiente exposto ao sol apresentou maior uso relativo do girassol. O modelo estatístico apontou redução na chance de uso das plantas companheiras no ambiente sombreado. Os pesquisadores alertam para uma limitação importante: cada condição de luminosidade correspondeu a uma única gaiola. Dessa forma, o estudo não separou o efeito do ambiente da identidade de cada estrutura.

Os adultos de Halyomorpha halys apresentaram deslocamento médio de 72,8 centímetros entre detecções sucessivas. A mediana alcançou 37,4 centímetros. Em 29,2% dos intervalos, os insetos permaneceram no mesmo ponto detectado.

Probabilidade de movimento

A probabilidade de movimento aumentou nas observações realizadas às duas horas da tarde em comparação com as dez horas da manhã. Temperatura e umidade relativa maiores dentro de cada período experimental também se associaram a maior probabilidade de deslocamento. Entre os insetos em movimento, as distâncias percorridas alcançaram valores maiores no ambiente sombreado e às duas horas da tarde.

O uso de fava e girassol cresceu com o tempo após a liberação dos percevejos. O girassol apresentou maior uso relativo no ambiente exposto ao sol. Os dados reforçam a influência do contexto local sobre a seleção das plantas. O experimento não permitiu separar os efeitos de fenologia, estação e condições ambientais.

Nezara viridula

O ensaio de campo com Nezara viridula mostrou dinâmica semelhante entre morangueiros e vegetação companheira. A equipe liberou 600 adultos marcados. Metade iniciou o experimento na área de morango. A outra metade iniciou nas faixas com plantas companheiras. Após 24 horas, os pesquisadores recapturaram 104 indivíduos, equivalentes a 17,3% do total liberado.

Entre os 56 adultos recapturados após liberação no morango, apenas 17 permaneceram na área da cultura. O número correspondeu a 30,4% das recapturas desse grupo. Outros 39 indivíduos apareceram nas faixas de plantas companheiras. Essa parcela representou 69,6%.

O grupo liberado nas faixas de vegetação apresentou distribuição mais equilibrada. Dos 48 indivíduos recapturados, 25 permaneceram nas faixas e 23 migraram para o morango. As proporções alcançaram 52,1% e 47,9%, respectivamente. A análise estatística apontou menor retenção no habitat de origem entre insetos liberados no morango.

Pontos fixos de retenção

Os resultados afastam uma interpretação das plantas-armadilha como pontos fixos de retenção. As espécies companheiras podem receber adultos vindos da cultura principal, mas os insetos também retornam ao cultivo. A eficiência da estratégia depende do período de atratividade de cada planta em relação à fase mais suscetível da cultura.

Os pesquisadores destacam a fenologia como elemento central do manejo. Uma planta companheira pode atrair adultos antes do período crítico da cultura ou oferecer um recurso mais atrativo durante essa fase. Clima local, cultivar, vegetação vizinha e estágio de desenvolvimento dos percevejos também interferem no resultado.

A estratégia exige monitoramento simultâneo da cultura e das plantas companheiras. Essas faixas podem funcionar como pontos de concentração e como indicadores da chegada dos insetos. O manejo também precisa considerar a possibilidade de recolonização do cultivo.

O estudo avaliou apenas adultos e acompanhou períodos curtos. O ensaio com Halyomorpha halys durou cinco dias. O teste com Nezara viridula acompanhou as recapturas por 24 horas. Os experimentos ocorreram em um único local e em uma única temporada. A pesquisa não mediu danos aos frutos nem produtividade. Os cientistas recomendam novos estudos com posturas, ninfas, danos, inimigos naturais e diferentes arranjos de plantas companheiras.

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