Hidrocarbonetos reduzem o estabelecimento de mosca-branca

Eicosano e esqualano diminuíram em até 83,4% o estabelecimento de Bemisia tabaci em ensaios controlados

23.07.2026 | 14:20 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Sebastião José de Araújo
Foto: Sebastião José de Araújo

A herbivoria causada por Bemisia tabaci alterou o perfil químico de quatro leguminosas e elevou a abundância relativa de hidrocarbonetos de cadeia longa. Em bioensaios, parte desses compostos reduziu o estabelecimento de adultos da mosca-branca. Eicosano e esqualano apresentaram os maiores efeitos e diminuíram o pouso dos insetos em até 83,4% sob condições de escolha. Os resultados indicam potencial para o desenvolvimento de semioquímicos voltados ao manejo sustentável da praga (DOI 10.1016/j.napere.2026.100219).

O estudo avaliou soja, feijão-mungo-verde, feijão-mungo-preto e feijão-caupi. As plantas permaneceram sob condições controladas e receberam infestação de adultos de Bemisia tabaci durante 72 horas. Plantas sem insetos formaram o tratamento de controle.

Análise química

A análise química empregou coleta dinâmica do espaço de cabeça e cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas. A infestação modificou o perfil das quatro espécies. Os principais compostos associados à herbivoria incluíram eicosano, heneicosano, tetracosano, dotriacontano e esqualano. A intensidade da resposta variou entre as culturas.

Soja e feijão-mungo-verde apresentaram padrões de indução semelhantes. O feijão-mungo-preto acumulou maior proporção de álcoois de cadeia longa. O feijão-caupi produziu um perfil distinto, com substâncias ausentes nas plantas sadias.

Os pesquisadores selecionaram 14 hidrocarbonetos e compostos relacionados para os ensaios comportamentais. As aplicações ocorreram na superfície superior das folhas de soja. Os testes usaram concentrações de 200 e 500 partes por milhão. Plantas sem tratamento e plantas tratadas apenas com acetato de etila serviram como controles.

Sem escolha

No ensaio sem possibilidade de escolha, conduzido com 200 partes por milhão, o eicosano reduziu o estabelecimento dos adultos em 57,6% após 24 horas. O esqualano apresentou redução de 55,9% no mesmo período. Após 48 horas, os índices alcançaram 54,2% e 52,5%, respectivamente.

O aumento da dose para 500 partes por milhão ampliou a resposta. Eicosano e esqualano reduziram o estabelecimento em 60% após 24 horas. O eicosano manteve o mesmo resultado após 48 horas. O esqualano registrou redução de 55% no segundo período de avaliação.

Octadecano, dotriacontano e hexadecano produziram respostas intermediárias. Outros compostos apresentaram efeito moderado ou baixo. O acetato de etila provocou apenas pequena alteração no comportamento dos insetos. Esse resultado atribui a maior parte da ação aos hidrocarbonetos testados.

Com escolha

Os ensaios com possibilidade de escolha concentraram a avaliação em eicosano e esqualano. Na concentração de 200 partes por milhão, o eicosano reduziu o estabelecimento em 83,4% após 24 horas. O esqualano alcançou redução de 74,3%. Após 48 horas, os índices recuaram para 45,3% e 42,6%, mas permaneceram superiores aos controles.

A baixa volatilidade e a característica hidrofóbica desses compostos sustentam a hipótese de ação por contato. A mosca-branca utiliza estímulos físicos e químicos durante o pouso, a exploração da superfície foliar e o início da inserção dos estiletes. Alterações na composição química da folha podem interferir na aceitação da planta hospedeira.

Concentrações naturais

O trabalho não determinou as concentrações naturais dos hidrocarbonetos nas folhas. A análise mediu abundância relativa dos compostos. As identificações também permanecem provisórias até a confirmação com padrões químicos autênticos.

Os testes comportamentais ocorreram apenas em soja e sob condições controladas. A colônia de Bemisia tabaci também permaneceu mantida nessa cultura. A experiência prévia dos insetos com o hospedeiro pode ter influenciado as respostas.

Os pesquisadores recomendam novos estudos com quantificação absoluta, misturas de hidrocarbonetos e diferentes plantas hospedeiras. Ensaios em condições de semicampo e campo também precisam avaliar persistência, estabilidade das formulações e eficácia diante de chuva, radiação ultravioleta, vento e variações de temperatura.

Os resultados apresentam eicosano e esqualano como candidatos para ferramentas baseadas em modificação do comportamento. A aplicação prática depende de validação química, compreensão dos mecanismos sensoriais da mosca-branca e comprovação de desempenho em condições agrícolas.

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