Custo do diesel na produção de soja mais que dobrou em 8 anos

Preço da oleaginosa não acompanhou a disparada do custo do combustível, que teve alta de 87,5% na série histórica

26.08.2026 | 14:09 (UTC -3)
Darlene Santiago

O diesel passou a corroer diretamente o lucro do agricultor, deixando de ser um item na planilha de custos que muitas vezes passava despercebido. O combustível respondia por 3,90% do custo de produção da soja por hectare em 2018. Em 2024, atingiu o pico de 5,54% e recuou levemente em 2025 para 5,25%.

O preço médio pago pelo produtor saiu de R$ 3,50/L em 2018 para R$ 6,56/L na análise parcial de 2026, até agosto. Isso representa uma alta de 87,5% em oito anos, registrando um novo teto histórico, acima até mesmo do preço registrado durante o choque global de energia de 2022, quando o litro chegou a R$ 6,54.

Os dados são de um estudo do Aegro Insights, que analisou 507 mil notas fiscais de compra de diesel para fazendas brasileiras, emitidas no período de 2018 até agosto de 2026.

Recorde histórico do diesel e a safra de soja 2026/27

O levantamento acumulado mostra que o gasto com diesel por hectare de soja subiu 180,4% entre 2018 e 2025, enquanto o custo total da lavoura cresceu cerca de 108% no mesmo período. “Desde 2018, a inflação do diesel, proporcionalmente, foi bem maior do que o aumento do preço da soja. Isso tem a ver com a guerra, com os problemas de disponibilidade do diesel e com o aumento do dólar. São vários fatores que explicam a alta do diesel, e a soja não conseguiu acompanhar esse aumento”, explica o engenheiro agrônomo Mathias Bergamin, que é coordenador de inteligência de mercado da Aegro.

Agora, as preocupações se voltam para o planejamento da safra de soja 2026/27. Segundo Bergamin, o cenário atual é de cautela e monitoramento, com o objetivo de evitar que o produtor seja obrigado a adquirir combustível em momentos de pico de preços.

“O produtor tem que se planejar mais para comprar diesel. Antes, o custo do combustível não tinha um peso tão relevante como agora. O produtor precisa comprar o volume ideal de diesel para as operações de semeadura da soja, avaliando a disponibilidade do distribuidor para garantir a entrega no início de setembro e mitigar riscos de ficar sem diesel na hora do plantio”, orienta.

Relação de troca do diesel com a soja

De acordo com a pesquisa do Aegro Insights, a relação de troca ficou prejudicada. Enquanto, em 2018, uma saca de soja comprava 20,74 litros de diesel, essa relação caiu para 17,46 litros por saca em 2026, o que representa a pior relação de troca da série histórica analisada pelo estudo. Em 2018, cada hectare consumia o equivalente a 1,43 sacas de soja em diesel (R$ 103,95/ha, dentro de um custo total de R$ 2.666,29/ha, sem considerar arrendamento e depreciação). Em 2025, o consumo subiu para 2,44 sacas por hectare (R$ 291,45/ha, sobre um custo total de R$ 5.550,89/ha).

Como o diesel ganhou peso nas contas da fazenda, o produtor precisa buscar alternativas para economizar. “Uma recomendação é tentar aumentar a eficiência operacional das máquinas agrícolas para garantir o menor consumo de combustível. O produtor pode investir em otimização do parque interno, fazer as manutenções preventivas, garantir que os bicos de pulverização estejam limpos e buscar um maior controle do consumo de diesel”, diz o coordenador de inteligência de mercado da Aegro.

Além disso, para planejar a safra de soja 2026/27, os produtores devem levar em consideração as peculiaridades locais porque o peso do diesel na produção de soja varia muito de acordo com a região. De acordo com a pesquisa, o Rio Grande do Sul e estados de fronteira agrícola sofreram mais nas safras 2023 e 2024.

O Mato Grosso teve a menor participação do diesel no custo da soja entre os 12 estados analisados pela pesquisa do Aegro Insights. Embora o custo total da safra de soja matogrossense (R$ 5.307,12/ha) seja maior do que o custo da soja no Rio Grande do Sul (R$ 4.567,70/ha), o diesel ocupa uma fatia menor na planilha de produção de soja no Centro-Oeste.

Uma hipótese provável que explica isso é a escala e a maturidade logística mais consolidada do Mato Grosso, com rotas internas mais curtas e frota diluída em área maior, enquanto estados de fronteira agrícola como Maranhão, Bahia, Tocantins e Pará tiveram o diesel com percentual acima de 5,1% no custo da lavoura e provavelmente ainda pagam mais pelo diesel por terem uma infraestrutura em formação.

Disparidades regionais

O peso do diesel no custo de produção da soja:

- Maranhão: 6,28% do custo, R$ 378,70/ha (2,97 sc/ha).

- Rio Grande do Sul: 5,99%, R$ 273,38/ha (2,14 sc/ha).

- Bahia: 5,86%, R$ 360,24/ha (2,82 sc/ha).

- Goiás: 5,55%, R$ 291,90/ha (2,29 sc/ha).

- Mato Grosso: 4,71%, R$ 250,00/ha (1,96 sc/ha).

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