Riscos externos elevam volatilidade para commodities agrícolas
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O diesel passou a corroer diretamente o lucro do agricultor, deixando de ser um item na planilha de custos que muitas vezes passava despercebido. O combustível respondia por 3,90% do custo de produção da soja por hectare em 2018. Em 2024, atingiu o pico de 5,54% e recuou levemente em 2025 para 5,25%.
O preço médio pago pelo produtor saiu de R$ 3,50/L em 2018 para R$ 6,56/L na análise parcial de 2026, até agosto. Isso representa uma alta de 87,5% em oito anos, registrando um novo teto histórico, acima até mesmo do preço registrado durante o choque global de energia de 2022, quando o litro chegou a R$ 6,54.
Os dados são de um estudo do Aegro Insights, que analisou 507 mil notas fiscais de compra de diesel para fazendas brasileiras, emitidas no período de 2018 até agosto de 2026.
O levantamento acumulado mostra que o gasto com diesel por hectare de soja subiu 180,4% entre 2018 e 2025, enquanto o custo total da lavoura cresceu cerca de 108% no mesmo período. “Desde 2018, a inflação do diesel, proporcionalmente, foi bem maior do que o aumento do preço da soja. Isso tem a ver com a guerra, com os problemas de disponibilidade do diesel e com o aumento do dólar. São vários fatores que explicam a alta do diesel, e a soja não conseguiu acompanhar esse aumento”, explica o engenheiro agrônomo Mathias Bergamin, que é coordenador de inteligência de mercado da Aegro.
Agora, as preocupações se voltam para o planejamento da safra de soja 2026/27. Segundo Bergamin, o cenário atual é de cautela e monitoramento, com o objetivo de evitar que o produtor seja obrigado a adquirir combustível em momentos de pico de preços.
“O produtor tem que se planejar mais para comprar diesel. Antes, o custo do combustível não tinha um peso tão relevante como agora. O produtor precisa comprar o volume ideal de diesel para as operações de semeadura da soja, avaliando a disponibilidade do distribuidor para garantir a entrega no início de setembro e mitigar riscos de ficar sem diesel na hora do plantio”, orienta.
De acordo com a pesquisa do Aegro Insights, a relação de troca ficou prejudicada. Enquanto, em 2018, uma saca de soja comprava 20,74 litros de diesel, essa relação caiu para 17,46 litros por saca em 2026, o que representa a pior relação de troca da série histórica analisada pelo estudo. Em 2018, cada hectare consumia o equivalente a 1,43 sacas de soja em diesel (R$ 103,95/ha, dentro de um custo total de R$ 2.666,29/ha, sem considerar arrendamento e depreciação). Em 2025, o consumo subiu para 2,44 sacas por hectare (R$ 291,45/ha, sobre um custo total de R$ 5.550,89/ha).
Como o diesel ganhou peso nas contas da fazenda, o produtor precisa buscar alternativas para economizar. “Uma recomendação é tentar aumentar a eficiência operacional das máquinas agrícolas para garantir o menor consumo de combustível. O produtor pode investir em otimização do parque interno, fazer as manutenções preventivas, garantir que os bicos de pulverização estejam limpos e buscar um maior controle do consumo de diesel”, diz o coordenador de inteligência de mercado da Aegro.
Além disso, para planejar a safra de soja 2026/27, os produtores devem levar em consideração as peculiaridades locais porque o peso do diesel na produção de soja varia muito de acordo com a região. De acordo com a pesquisa, o Rio Grande do Sul e estados de fronteira agrícola sofreram mais nas safras 2023 e 2024.
O Mato Grosso teve a menor participação do diesel no custo da soja entre os 12 estados analisados pela pesquisa do Aegro Insights. Embora o custo total da safra de soja matogrossense (R$ 5.307,12/ha) seja maior do que o custo da soja no Rio Grande do Sul (R$ 4.567,70/ha), o diesel ocupa uma fatia menor na planilha de produção de soja no Centro-Oeste.
Uma hipótese provável que explica isso é a escala e a maturidade logística mais consolidada do Mato Grosso, com rotas internas mais curtas e frota diluída em área maior, enquanto estados de fronteira agrícola como Maranhão, Bahia, Tocantins e Pará tiveram o diesel com percentual acima de 5,1% no custo da lavoura e provavelmente ainda pagam mais pelo diesel por terem uma infraestrutura em formação.
O peso do diesel no custo de produção da soja:
- Maranhão: 6,28% do custo, R$ 378,70/ha (2,97 sc/ha).
- Rio Grande do Sul: 5,99%, R$ 273,38/ha (2,14 sc/ha).
- Bahia: 5,86%, R$ 360,24/ha (2,82 sc/ha).
- Goiás: 5,55%, R$ 291,90/ha (2,29 sc/ha).
- Mato Grosso: 4,71%, R$ 250,00/ha (1,96 sc/ha).
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