Crédito rural com recursos de LCA cai 71,3% em MS

Levantamento da Aprosoja/MS aponta queda de 90,2% nos financiamentos destinados aos médios produtores em duas safras

06.11.2026 | 16:13 (UTC -3)
Crislaine Oliveira, edição Revista Cultivar

O volume de crédito rural contratado com recursos de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) em Mato Grosso do Sul caiu 71,3% entre as safras 2023/24 e 2025/26, passando de R$ 11,99 bilhões para R$ 3,45 bilhões. A retração foi a maior entre os nove estados que mais utilizam essa fonte de financiamento, segundo o Informativo Econômico 17/2026, elaborado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS).

No mesmo período, a redução nacional foi de 37,5%. Em Mato Grosso do Sul, o recuo atingiu principalmente os médios produtores rurais, cujas contratações diminuíram 90,2%, de R$ 5,35 bilhões para R$ 530 milhões. O número de contratos nesse segmento passou de 7.585 para 979, queda de aproximadamente 87,1%.

Os financiamentos destinados às culturas de soja e milho também apresentaram redução expressiva. O volume contratado com recursos de LCA caiu de R$ 7 bilhões para aproximadamente R$ 1,5 bilhão entre as duas safras, retração de cerca de 78,6%.

As LCAs são títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras para captar recursos destinados ao financiamento de atividades do agronegócio. Os valores aplicados por investidores podem ser direcionados a operações de crédito rural, constituindo uma das fontes de recursos para o setor.

Segundo o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Flôres Gimenes, a diminuição dessa fonte de financiamento pode afetar as condições de acesso ao crédito e ampliar a necessidade de diversificação das alternativas disponíveis aos produtores.

“O produtor precisa entender que o financiamento da safra não depende apenas do dinheiro disponibilizado pelos bancos. Existem outras fontes que ajudam a movimentar o crédito no agronegócio. Quando uma dessas fontes diminui, isso pode afetar as condições de financiamento e exigir que o produtor avalie outras alternativas”, explica.

Poupança rural amplia participação no financiamento

Enquanto as contratações com recursos de LCA diminuíram, a poupança rural ganhou participação no financiamento agropecuário de Mato Grosso do Sul.

O volume contratado com essa fonte passou de R$ 3,09 bilhões na safra 2023/24 para R$ 4,94 bilhões em 2025/26, crescimento de aproximadamente 59,9%. Com isso, a poupança rural tornou-se a principal fonte de recursos do crédito rural contratado no estado, conforme o levantamento.

Entretanto, a maior parte das operações ocorreu com taxas de juros livres, negociadas entre produtores e instituições financeiras.

Dos R$ 4,94 bilhões contratados na safra 2025/26, R$ 4,60 bilhões, equivalentes a aproximadamente 93,1%, corresponderam a financiamentos com juros livres. Outros R$ 340 milhões foram contratados com taxas equalizadas, modalidade em que há subvenção pública para reduzir o custo dos juros.

A mudança na composição das fontes de financiamento evidencia a importância das condições de contratação, especialmente em operações sem taxas subsidiadas.

Outras fontes de financiamento do agronegócio

Além das LCAs e da poupança rural, o agronegócio dispõe de instrumentos de financiamento vinculados ao mercado de capitais e às operações comerciais entre produtores, empresas e instituições financeiras.

Entre eles está a Cédula de Produto Rural (CPR), título que permite ao produtor assumir o compromisso de entregar determinada quantidade de produto agropecuário ou realizar pagamento financeiro em data futura. O instrumento pode ser utilizado em operações com bancos, tradings, cooperativas e revendas de insumos.

Outro mecanismo é o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), título emitido por companhias securitizadoras e lastreado em direitos creditórios vinculados ao setor. Por meio dessas operações, empresas e cooperativas podem acessar recursos de investidores.

Já os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) permitem a aplicação de recursos em ativos relacionados ao agronegócio, incluindo imóveis rurais, participações em empresas e títulos de crédito.

Esses instrumentos representam alternativas de captação e financiamento, embora apresentem estruturas, custos, garantias e condições de contratação distintos.

Aprosoja/MS recomenda avaliação dos custos de financiamento

Diante das mudanças na disponibilidade de crédito, a Aprosoja/MS orienta os produtores a comparar o custo total das operações antes de contratar financiamentos.

A análise deve considerar não apenas as taxas de juros, mas também seguros, tarifas, garantias exigidas e diferenças entre os preços de insumos adquiridos à vista ou a prazo.

Uma das recomendações é converter o custo financeiro em sacas de soja, permitindo avaliar quanto da produção futura será necessário para quitar cada operação.

“Não basta olhar apenas para o valor liberado ou para a facilidade de conseguir o recurso. O produtor precisa saber quanto vai pagar por esse financiamento e quanto isso representa em sacas da sua produção. Essa comparação ajuda a identificar qual alternativa oferece melhores condições para a realidade de cada propriedade”, afirma Gimenes.

O informativo também destaca a necessidade de ampliar os mecanismos de garantia e preservar a segurança jurídica das operações, medidas consideradas importantes pela entidade para melhorar o acesso dos produtores rurais ao financiamento.

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