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Desafios da ferrugem-asiática na safra

08/07/2022

Panorama da incidência da ferrugem asiática nos estados brasileiros produtores de soja aponta para os riscos de agravamento da doença, principalmente em áreas semeadas tardiamente. Produtor deve estar atento às condições climáticas e proteger as lavouras para evitar reduções de produtividade. Rotação de fungicidas e a associação de multissítio despontam entre as medidas necessárias para aumentar a eficiência dos produtos sítio-específicos.

A safra de soja no Brasil começa com o término dos períodos de vazio sanitário, que variam em cada estado. Essa medida é atualmente uma das principais estratégias de manejo da ferrugem-asiática e tem como objetivo a redução de inóculo do fungo Phakopsora pachyrhizi na entressafra. Lavouras semeadas logo após o término do vazio sanitário tendem a ter a doença em estádios mais adiantados de desenvolvimento da cultura, mas começam a multiplicação do fungo, que se dissemina pelo vento, para áreas semeadas mais tarde.

As ocorrências de ferrugem-asiática na safra podem ser verificadas no mapa do site do Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net), também disponível em aplicativos nas plataformas iOS e Android (Tabela 1). O principal objetivo do mapa é informar as primeiras ocorrências para alertar o produtor sobre a chegada da doença. Como o fungo se dissemina facilmente pelo vento, com o alerta, o produtor pode proteger sua lavoura, evitando perdas de produtividade. O Consórcio Antiferrugem é uma parceria pública-privada e as informações no site são inseridas por pesquisadores e pela assistência técnica, mas não há 100% de cobertura em todas as regiões produtoras. Outras parcerias têm sido estabelecidas para aumentar a abrangência do site.

Na safra 2017/18, as primeiras ocorrências de ferrugem-asiática foram registradas no site a partir da segunda quinzena de novembro em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, em lavouras comerciais, algumas irrigadas, e em áreas experimentais utilizadas para o monitoramento do fungo. Mais de 70% das ocorrências registradas no site até o final de janeiro foram de lavouras na fase de enchimento de grãos (estádio R5), o que caracteriza uma situação mais tranquila de manejo para as primeiras semeaduras. Apesar de a ferrugem ser uma das doenças mais severas da cultura, seu potencial de dano diminui à medida que a incidência é tardia na lavoura. Essa incidência tardia nas primeiras semeaduras é uma das consequências da redução de inóculo proporcionada pelo vazio sanitário.

No Rio Grande do Sul, a ferrugem-asiática mostrou-se muito severa nas últimas safras. Essa doença continua sendo a maior preocupação dos produtores e técnicos, em razão da grande quantidade de inóculo do fungo oriundo da Bolívia, do Paraguai e de outras regiões do Brasil. O Rio Grande do Sul é o único estado produtor que não possui vazio sanitário e, em situações de inverno ameno como o de 2017, há a manutenção de soja voluntária com ferrugem-asiática no campo. As precipitações em novembro e janeiro ocorreram acima da média histórica, sem veranicos importantes na região até o final de janeiro. Na safra atual, a doença apareceu 30 dias mais cedo em relação à safra anterior (16/11/2017) e, apesar de mostrar-se discreta na fase vegetativa da soja, agora se encontra em curva ascendente, com potencial para tornar-se uma grande epidemia. O número baixo de ocorrências no estado relatado no site do Consórcio pode ser explicado pelo fato de o produtor conhecer bem a doença e não enviar amostras aos laboratórios para fazer o cadastro da ocorrência.

O estado do Paraná tem o maior número de relatos no site do Consórcio em função da excelente cobertura obtida pela colaboração da assistência técnica. A doença já foi relatada em praticamente todas as regiões produtoras. No estado, as semeaduras foram atrasadas em 10 dias a 15 dias, em razão do atraso das chuvas. Apesar desse atraso, o primeiro foco de ferrugem-asiática foi relatado na mesma época da safra passada (segunda quinzena de novembro). A baixa precipitação no início da safra e depois as precipitações frequentes no final de dezembro e no início de janeiro interferiram no desenvolvimento das lavouras, prolongando o ciclo da cultura. Com isso, a maior parte das colheitas deverá ocorrer a partir de fevereiro. A frequência das chuvas dificultou as entradas para as aplicações de fungicidas, ocasionando atrasos e aumento de intervalos. Em algumas situações são relatadas lavouras em enchimento de grãos com alta severidade de ferrugem-asiática no baixeiro. Os problemas com ferrugem tendem a se agravar em lavouras semeadas após novembro. Lavouras de soja semeadas em dezembro e janeiro, após feijão, têm apresentado sintomas já no vegetativo e irão demandar maior número de aplicações com os fungicidas mais eficientes, aumentando a pressão de seleção de resistência do fungo aos fungicidas. Essas áreas, embora não significativas em relação à área de soja da safra principal no estado, podem acelerar a perda de eficiência dos fungicidas. Nessa safra, em decorrência do atraso no início das chuvas, a janela de semeadura da soja foi prorrogada para 14 de janeiro no Paraná.

A maioria das lavouras de soja no estado do Mato Grosso do Sul está em fase de enchimento de grãos e em algumas áreas a colheita já ocorre. A ferrugem-asiática está presente em praticamente todos os municípios produtores de soja, mas no geral, a infestação da doença é baixa e restrita ao baixeiro das plantas. Na região de Bonito e da fronteira com o Paraguai, a situação é mais grave e a severidade da doença é alta, com dificuldade de controle do fungo. A intensidade da doença começou a se elevar na última semana de janeiro, no estado como um todo, indicando a possibilidade de epidemia severa, o que pode comprometer a produtividade de forma significativa nas áreas semeadas a partir de novembro.

No sudoeste de Goiás, a ocorrência da ferrugem-asiática tem sido imprevisível, começando mais cedo em determinadas safras ou regiões, mesmo sob condições menos favoráveis, ou tardiamente sob condições climáticas favoráveis. Essas situações estão diretamente relacionadas com a presença do inóculo inicial, reforçando a necessidade de um bom vazio sanitário. No sudoeste, a parceria entre o Sindicato Rural, a Universidade de Rio Verde e colaboradores tem contribuído no monitoramento da doença por meio de análises foliares para os produtores, tendo sido analisadas até o final de janeiro mais de 1,3 mil amostras. Muitas dessas amostras são coletadas em parcelas específicas para monitoramento (denominadas sentinelas), que não recebem aplicação de fungicidas até o surgimento da ferrugem, quando então são eliminadas para evitar a multiplicação do fungo. Os primeiros relatos da ferrugem-asiática nessa safra ocorreram em 28/01/2018, em Rio Verde, pela Agro Carrregal e em 29/01/2018, em Jataí, pela Universidade Federal de Goiás, em soja no estádio R6 e R5, respectivamente. Na safra 2016/17, o primeiro relato de ferrugem-asiática ocorreu em 11/01/2017, no município de Jataí, seguido de Rio Verde, em 19/01/2017. Tanto na safra 2016/17 quanto na atual, todas as parcelas de monitoramento finalizaram seu ciclo sem sintomas da ferrugem-asiática detectados, mesmo com condições climáticas favoráveis para a sua ocorrência. No entanto, a extensa janela de semeadura, superior a 60 dias, no sudoeste goiano tem sido motivo de preocupação, porque as lavouras semeadas a partir de novembro podem receber esporos provenientes de outros estados já com ocorrências da ferrugem-asiática.

No Mato Grosso, de modo geral, a safra 2017/18 vem apresentando chuvas acima da média normal. Em algumas localidades foram observadas restrições hídricas na fase de enchimento de grãos. As condições climáticas nos meses de dezembro e janeiro foram favoráveis para a ocorrência e o desenvolvimento da ferrugem-asiática no estado. As primeiras ocorrências foram registradas nos municípios de Campo Verde e de Primavera do Leste, na segunda quinzena de dezembro. Posteriormente, as regiões de Parecis (Tangará da Serra, Deciolândia e Campo Novo do Parecis) e médio-morte (Nova Mutum, Lucas do Rio Verde e Sorriso) na primeira quinzena de janeiro. Já na região do Vale do Araguaia (Nova Xavantina até Vila Rica) não houve relatos até o final de janeiro. As lavouras semeadas no mês de setembro com cultivares precoces (<105 dias) já foram colhidas. Mas nas semeadas de outubro em diante (cerca de 60%), em algumas regiões, as aplicações de fungicidas foram atrasadas em razão da alta frequência das chuvas associada à capacidade operacional das propriedades. Considerando a oferta de inóculo e a capacidade de dispersão do fungo, podem ocorrem perdas significativas de produtividade nessas áreas.

A ferrugem-asiática continua sendo uma das principais preocupações dos técnicos e produtores de soja

A semeadura na região oeste da Bahia ocorreu dentro do calendário previsto, de 08 de outubro a 15 de janeiro, uma vez que as condições climáticas foram favoráveis a essa operação. As lavouras semeadas em outubro, nas áreas irrigadas, já foram ou estão sendo colhidas, sem problemas com a ferrugem-asiática. O primeiro relato da doença ocorreu em 03/01/2018, no município de São Desidério, em uma área comercial no estádio R3. Com as condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do fungo, outros focos foram relatados nesse mesmo município. Se as condições continuarem favoráveis ao fungo, os problemas com a ferrugem-asiática podem se agravar na região, porque existem lavouras em diferentes estádios fenológicos. Para acompanhar os focos da região, a Círculo Verde em parceria com o Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães (SRLEM) e colaboradores de diversas empresas de agroquímicos se uniram e passaram a oferecer no Sindicato Rural o “Laboratório Alerta Ferrugem” para análise gratuita de folhas com suspeita da doença.

De maneira geral, observa-se em todas as regiões que as lavouras semeadas mais cedo apresentaram escape ou incidência tardia da ferrugem-asiática e a situação deve-se agravar nas semeaduras tardias. A partir de janeiro, pode-se observar, pelo site, ocorrências generalizadas em alguns estados e ainda podem aumentar nos estados que tiveram semeaduras tardias. O produtor deve estar atento às condições climáticas e proteger as lavouras para evitar reduções de produtividade.

O número de fungicidas com eficiência satisfatória para o controle da ferrugem-asiática reduziu nos últimos anos com a resistência ou menor sensibilidade do fungo aos três principais grupos de fungicidas com modo de ação sítio-específicos: os “triazóis” (fungicidas Inibidores da Desmetilação, IDM), as “estrobilurinas” (Inibidores da Quinona externa, IQe) e as “carboxamidas” (Inibidores da Succinato Desidrogenase, ISDH). A rotação dos modos de ação, recomendada como estratégia antirresistência, não é possível de ser realizada na cultura uma vez que os fungicidas são formulados em misturas com dois ou três modos de ação. Apesar disso a indicação é que se realize a rotação dos fungicidas. Embora a resistência seja cruzada dentro do mesmo modo de ação, os ingredientes ativos são afetados de maneira diferente pelas mutações do fungo.

É difícil prever quais serão as mutações que estarão presentes no fungo na safra e nas regiões e, dessa forma, para aumentar a eficiência dos fungicidas sítio-específicos, depois de detectada na região, o produtor deve sempre procurar associar o fungicida multissítio (à base de cobre, mancozebe e clorotalonil) nas aplicações para o controle da ferrugem-asiática, em função do alto potencial de dano da doença.

SENTINELAS (Box)

O monitoramento da ferrugem-asiática é essencial para o controle no momento correto. Os sintomas da ferrugem-asiática podem aparecer em qualquer estádio de desenvolvimento, sendo mais comumente observados após o fechamento do dossel da lavoura nas semeaduras iniciais, mas podem aparecer antes em lavouras semeadas tardiamente em razão do aumento de inóculo do fungo.

Os primeiros sintomas da ferrugem-asiática são discretos nas lavouras, sendo difícil para o produtor encontrar a doença no início. Uma das estratégias para o monitoramento é a utilização de parcelas sentinelas.

Parcelas sentinelas para monitoramento da ferrugem-asiática foram utilizadas pela primeira vez na África. No Brasil, em 2003/04, a Syngenta Proteção de Cultivos, implantou mais de 1500 áreas “Syntinelas”, distribuídas nas principais regiões produtoras de soja, com o apoio de pesquisadores e produtores. Na Argentina, centenas de parcelas também foram estabelecidas nos primeiros anos em regiões de produção de soja, evitando aplicações desnecessárias de fungicidas. Após a entrada da ferrugem-asiática nos Estados Unidos, em 2004, o programa de parcelas sentinelas foi estabelecido entre Universidades e o USDA-APHIS, com um mínimo de 30 parcelas sentinelas por estado.

Áreas sentinelas são áreas pequenas, semeadas preferencialmente antes da lavoura principal ou com cultivares precoces. Essas parcelas não recebem aplicação de fungicida e permitem o monitoramento em uma área menor, em plantas em estádio mais avançado. Após a detecção da ferrugem-asiática, essas áreas devem ser tratadas com fungicidas ou destruídas para evitar a multiplicação do fungo.

Com o vazio sanitário, a semeadura antes da lavoura principal acabou sendo limitada, mas pode-se semear cultivares precoces. Canteiros de germinação podem ser usados pelo produtor como sentinelas.

Em 2016, a Syngenta retomou essa iniciativa instalando mais de 400 áreas de monitoramento e auxiliando a inserção de ocorrências no site do Consórcio Antiferrugem, contando com o apoio de mais de 500 produtores, pesquisadores e técnicos (GTEC). Esse projeto também foi implementado em outros países da América Latina, envolvendo principalmente o Paraguai e a Bolívia.

Marcelo H. Habe, Syngenta Proteção de Cultivos

Artigo publicado na edição 225 da Cultivar Grandes Culturas, mês fevereiro, ano 2018.

Cláudia V. Godoy, Embrapa Soja; José Fernando J. Grigolli, Fundação MS; Éder N. Moreira, Faculdade Centro Mato-grossense – FACEM; Hercules D. Campos, Universidade de Rio Verde – UniRV; Carolina Deuner, Universidade de Passo Fundo; Mônica C. Martins, Círculo Verde

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