Reação de plantas de cobertura a Meloidogyne enterolobii proveniente de algodoeiro

Por Anderson Vieira Modro, Beatriz Martins, Mireli do Carmo Vieira da Silva e outros

07.07.2026 | 08:44 (UTC -3)
Foto: Jorge Bleno da Silva Verssiani
Foto: Jorge Bleno da Silva Verssiani

As plantas de cobertura têm se expandido nos sistemas agrícolas brasileiros, devido à melhoria da qualidade do solo. Entre os benefícios, destacam-se o aumento da matéria orgânica, a melhoria da estrutura física, a ciclagem de nutrientes e o auxílio no manejo de plantas daninhas e fitopatógenos. Seu uso em sucessão / rotação de culturas contribui para reduzir a dependência exclusiva de insumos químicos e aumentar a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Apesar disso, nematoides fitoparasitas permanecem como importantes limitantes da produtividade. Destacam-se espécies do gênero Meloidogyne (nematoides-das-galhas), amplamente distribuídas e capazes de parasitar diversas culturas, causando alterações no sistema radicular, prejuízos na absorção de água e nutrientes e perdas produtivas.

Dentre essas espécies, Meloidogyne enterolobii tem ganhado destaque como espécie emergente e altamente agressiva, caracterizada pela elevada virulência e ampla gama de hospedeiros, sendo capaz de infectar e superar resistência de plantas a M. incognita, M. javanica e M. arenaria.

No Brasil, a preocupação intensificou-se a partir de 2019, com relatos em algodoeiros (Gossypium hirsutum L.) em Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso, incluindo infecções em cultivares previamente resistentes, evidenciando “quebra” de resistência.

Estudos conduzidos no Brasil indicam a presença de grupos fisiologicamente distintos de M. enterolobii, com comportamento diferenciado frente a plantas hospedeiras, com base em testes com hospedeiros diferenciais. De maneira geral, esses grupos têm sido referidos como “raça 1”, associada à goiabeira e a hortaliças, e “raça 2”, associada a populações provenientes do algodoeiro. Esta última, caracterizada pela elevada capacidade reprodutiva em algodoeiro, tem demonstrado potencial para superar fontes de resistência previamente eficazes.

Esse cenário é particularmente preocupante em sistemas intensivos, como a sucessão soja-algodão, nos quais o nematoide pode se multiplicar e persistir ao longo das safras, reduzindo a eficiência de práticas como a rotação de culturas e exigindo ajustes no manejo.

Nesse contexto, a seleção de plantas de cobertura torna-se estratégica para a redução das populações do nematoide e a melhoria do solo. No entanto, ainda são escassas as informações sobre a reação dessas espécies, especialmente frente a populações agressivas associadas ao algodoeiro (“raça 2”), o que dificulta recomendações em programas de manejo integrado.

Diante disso, o presente estudo teve como objetivo avaliar a reação de diferentes espécies de plantas de cobertura à M. enterolobii, visando identificar materiais resistentes ou maus hospedeiros, a fim de subsidiar a escolha de espécies mais adequadas em sistemas de rotação e sucessão e contribuir para a redução das populações do nematoide no solo.

Material e métodos

O experimento foi conduzido em casa de vegetação na Estação Experimental da Staphyt Brasil (Conchal - SP), sob temperatura controlada (25°C - 30°C) e irrigação regular, por 90 dias após a inoculação (DAI). O delineamento foi inteiramente casualizado (DIC), com 19 tratamentos e cinco repetições, cada uma composta por um vaso com uma planta.

Os tratamentos incluíram tomateiro (Solanum lycopersicum, Santa Clara) como padrão de suscetibilidade; 17 espécies de plantas de cobertura: Avena sativa (aveia-branca), Fagopyrum esculentum (trigo-mourisco, IPR 92 Altar), Crotalaria ochroleuca, C. spectabilis, C. juncea, Triticum aestivum (trigo, cultivares TBIO Ponteiro e TBIO Duque), Secale cereale (centeio, BRS Serrano), Arachis hypogaea (amendoim, IAC OL3), Cenchrus americanus (milheto, BRS 1501; anteriormente Pennisetum glaucum), Canavalia ensiformis (feijão-de-porco), Sorghum bicolor (sorgo, genótipos B1G211 e B233), Mucuna pruriens (mucuna-preta), Megathyrsus maximus (capim-zuri, BRS Zuri; anteriormente Panicum maximum), Crotalaria breviflora e Urochloa ruziziensis (= Brachiaria ruziziensis). Adicionalmente, o algodoeiro (Gossypium hirsutum, BRS 416) foi utilizado como tratamento complementar para verificação da viabilidade do inóculo.

O inóculo foi obtido de plantas de algodoeiro provenientes do norte de Minas Gerais. A população foi previamente caracterizada por eletroforese de isoenzimas como M. enterolobii, adaptada ao algodoeiro e, por isso, denominada neste estudo como “raça 2”. Em seguida, foi multiplicada por três meses em algodoeiro (Gossypium hirsutum, cv. IMA 5801B2RF), em casa de vegetação, assegurando a viabilidade e a capacidade infectiva do nematoide a essa cultura.

As plantas foram cultivadas em vasos de isopor (1 L) contendo mistura de solo e areia (2:1, v/v), previamente esterilizada em autoclave a 121°C por duas horas.

Aos 20 dias após a semeadura, realizou-se a inoculação com suspensão de ovos e juvenis de segundo estádio (J2) de M. enterolobii, sendo a identidade da espécie novamente confirmada por eletroforese de isoenzimas. Estabeleceu-se uma população inicial (Pi) de 2.500 ovos/J2 por planta. A suspensão foi aplicada em dois orifícios (~2 cm de profundidade) ao redor da zona radicular.

Durante o experimento, estruturas reprodutivas (flores, vagens, frutos e inflorescências) foram removidas manualmente para prolongar o período vegetativo, manter o vigor e evitar senescência precoce, garantindo uniformidade e maior disponibilidade de tecido radicular para avaliação da multiplicação de M. enterolobii.

Aos 90 DAI, as raízes foram retiradas, lavadas em água corrente, secas em papel-toalha e fragmentadas (< 0,5 cm). A extração de ovos e juvenis seguiu o método de Hussey & Barker (1973), modificado por Boneti & Ferraz (1981), com trituração em solução de NaOCl a 1% por 45 s, peneiramento (20, 100 e 500 mesh) e coleta do material retido na peneira de 500 mesh.

A quantificação foi realizada em câmara de Peters, sob microscópio óptico, determinando a população final (Pf) de ovos/J2 por planta. Com base nesses dados, calculou-se o fator de reprodução (FR = Pf/Pi), conforme Oostenbrink (1966), considerando Pi = 2.500 ovos/J2 por planta, para avaliar a multiplicação do nematoide nas espécies de plantas de cobertura.

Plantas com FR ≥ 1 foram consideradas suscetíveis, por elevarem a população do nematoide, enquanto aquelas com FR < 1 foram classificadas como resistentes, sendo indicadas para manejo. Os dados foram submetidos à análise estatística, com agrupamento de médias pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade.

Resultados obtidos

Os maiores fatores de reprodução (FR) ocorreram no tomateiro Santa Clara (25,70) e no algodoeiro BRS 416 (6,47), confirmando alta suscetibilidade e viabilidade do inóculo. Valores elevados de FR indicam que o nematoide encontrou condições favoráveis para se multiplicar no sistema radicular da planta hospedeira. Em condições de campo, essa multiplicação pode resultar em aumento significativo da população do patógeno durante o período de entressafra.

Entre as coberturas, C. spectabilis (0,48), capim-zuri BRS Zuri (0,42) e Urochloa ruziziensis (0,36) apresentaram FR < 1 (resistentes). C. ochroleuca (0,84) e C. breviflora (0,92) também foram classificadas como resistentes, embora com menor eficiência na redução da população do nematoide.

A maioria das espécies foi suscetível (FR ≥ 1), incluindo aveia-branca (AF1355), trigo-mourisco (IPR 92 Altar), trigo (TBIO Ponteiro e TBIO Duque), centeio (BRS Serrano), milheto (BRS 1501), feijão-de-porco, sorgo (B1G211 e B233) e amendoim (IAC OL3). Destacam-se milheto BRS 1501 (6,83) e centeio BRS Serrano (5,40), com FR semelhantes ou superiores ao algodoeiro. Nessas condições, o uso dessas espécies durante a entressafra pode resultar em aumento expressivo da população do patógeno no solo, devendo ser evitado em áreas infestadas.

Espécies como C. juncea (FR = 1,12) e mucuna-preta (FR = 1,12) apresentaram FR próximo de 1, sendo classificadas como suscetíveis, porém com baixa multiplicação. Apesar disso, seu uso deve ser criterioso, pois essas espécies tendem a manter a população do nematoide próxima ao nível inicial ao final do ciclo da cultura, contribuindo para a persistência do patógeno no solo ao longo do tempo.

A utilização de C. spectabilis, capim-zuri e U. ruziziensis em sistemas de rotação ou consórcio apresenta elevado potencial para a redução da densidade populacional de M. enterolobii. Esse efeito é maximizado quando as plantas apresentam bom estabelecimento, com estande uniforme e elevada densidade radicular, promovendo ampla ocupação do solo. Nessas condições, ocorre maior contato do nematoide com o sistema radicular das plantas, favorecendo a redução da população ao final do ciclo.

Escolhas adequadas

Em sistemas agrícolas intensivos, especialmente aqueles baseados na sucessão soja-algodão, a escolha das plantas de cobertura exerce papel importante no manejo do nematoide. Espécies suscetíveis podem multiplicar intensamente o patógeno durante a entressafra, elevando a população no solo antes da implantação da cultura seguinte e aumentando o risco de perdas produtivas.

Classificação das espécies

Do ponto de vista prático, os resultados permitem classificar as espécies quanto ao risco de uso em áreas infestadas. Espécies como C. spectabilis, capim zuri e U. ruziziensis podem ser priorizadas, pois apresentam potencial para reduzir a população do nematoide ao longo do ciclo.

Por outro lado, milheto BRS 1501, centeio BRS Serrano, trigo (TBIO Ponteiro e TBIO Duque) e feijão-de-porco devem ser evitados nessas áreas, devido à elevada capacidade de multiplicação de M. enterolobii, “raça 2”.

Já espécies com FR próximo de 1, como C. juncea e mucuna-preta, devem ser utilizadas com cautela. Apesar da baixa multiplicação do nematoide, essas espécies tendem a manter a população próxima ao nível inicial quando conduzidas até o final do ciclo. Nesses casos, recomenda-se o manejo antecipado da cobertura, visando evitar a manutenção do patógeno no solo e favorecer a redução populacional.

Considerações finais

Plantas de cobertura influenciam a dinâmica de M. enterolobii na entressafra: espécies suscetíveis (FR ≥ 1) aumentam a população em sistemas como soja e algodão, elevando o risco à cultura seguinte, enquanto espécies más hospedeiras (FR < 1) reduzem o nematoide. Assim, sua seleção é essencial no manejo integrado, visando menor pressão de inóculo e maior sustentabilidade do sistema produtivo.

* Por Anderson Vieira Modro, Beatriz Martins, Mireli do Carmo Vieira da Silva (Unasp); Daniela Santana Rodrigues Verssiani (Esalq); Jorge Bleno da Silva Verssiani (Staphyt Brasil)

Artigo publicado na edição 321 da Revista Cultivar Grandes Culturas

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