Mosca-branca: pequena devastadora

Como manejar de modo correto o complexo mosca-branca na cultura da soja

06.10.2017 | 20:59 (UTC -3)

O complexo de moscas-brancas (Bemisia tabaci) é, atualmente, uma das mais importantes pragas da agricultura mundial, devastando plantios tanto nas regiões tropicais como temperadas de inúmeros países. Com origem provável no Oriente, mais precisamente no subcontinente Indiano, porém foi descrita pela primeira vez, na Grécia, em 1889, como Aleurodes tabaci em plantas de fumo (Nicotina sp.). Atualmente, com exceção da Antártida e dos ambientes salinos, está mundialmente distribuída. A comercialização e o transporte de plantas, principalmente ornamentais, são os grandes facilitadores da sua disseminação entre os continentes Europeu, Asiático e Americano. 

Com certeza a distribuição generalizada desta praga está relacionada principalmente a fatores como: intensificação dos cultivos agrícolas, expansão dos monocultivos e o uso indiscriminado de agroquímicos. Sua habilidade em se adaptar a inúmeros hospedeiros, independentemente das condições ambientais, tem facilitado a sobrevivência. Além disso, a fácil adaptação a regiões de climas tropical, subtropical e temperado a transformou também em um vetor de mais de uma centena de viroses descritas em diferentes partes do mundo. 

Bemisia tabaci é conhecida no Brasil desde 1923, mas só foi relatada como praga em 1968, quando grandes populações foram detectadas em lavouras de algodão no norte do estado do Paraná e a partir de 1972 novas populações surgiram no sul do estado de São Paulo e em outras partes do país.

A praga reapareceu na década de 90, com altos níveis populacionais no Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), no Centro-Oeste (Distrito Federal e Goiás) e no nordeste (Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Paranaíba, Ceará e Piauí) com enormes prejuízos a agricultura destas regiões. Essa população foi verificada primeiramente em Campinas, São Paulo, em meados de 1991, atacando inicialmente plantas ornamentais, e depois se difundindo rapidamente pelas demais áreas agrícolas de São Paulo o que levou muitos pesquisadores a conclusão de que se tratava de um novo “biótipo” introduzido no Brasil.

Em relação a biótipos, há uma polêmica ainda a ser esclarecida para finalmente ser aceita por toda a comunidade científica a respeito dessa praga. Isso se deve ao fato de que a principio o referido “biótipo” foi considerado, na década de 90, como uma nova espécie, denominada Bemisia argentifolli. Entretanto, esta denominação não foi aceita por toda a comunidade científica que passou a tratá-la como um complexo de espécies com cerca de 20 biótipos. (Ex. biótipo A, B, Q entre outros) e que apenas os biótipos A e B estavam presentes no Brasil. Contudo em estudos recentes relacionados a essa hipótese um grupo de pesquisadores concluiu, após comparar o DNA de todos estes conhecidos “biótipos”, que a diferença genética entre eles era de aproximadamente 5%, indicando serem espécies distintas, já que para serem da mesma espécie estes supostos biótipos deveriam apresentar diferenças genéticas de no máximo 3,5%. Sendo assim, no Brasil atualmente, segundo esse grupo de pesquisadores, se está diante de quatro espécies: a MEAM1 (Middle East-Asia Minor 1) anteriormente biótipo “B”; MED (Mediterranean) anteriormente biótipo “Q” e NW1 (New World 1) e NW2 (New World 2) conhecidas como biótipo “A”. 

Importante saber também que morfologicamente são espécies idênticas. Isso significa que diferenças a campo serão impossíveis de serem percebidas por enquanto. Contudo, mesmo com todas essas justificativas baseadas em características genéticas ainda assim muitos persistem na antiga classificação e, provavelmente, o tempo dirá qual será a melhor forma de abordar este pequeno sugador que tem causado tantas preocupações ao produtor rural e que atualmente está presente em todos os estados brasileiros, com prejuízos superiores a R$ 10 bilhões.

Espécies ou biótipos, enfim, para o produtor o importante é esclarecer que são populações com potenciais de maximizar seus papéis e melhorar sua capacidade de virulência mais rápido que a capacidade das plantas hospedeiras de melhorarem seus sistemas de defesa, levando, de certo modo, a pequenas mutações entre indivíduos, diferenciando-os e muitas vezes isolando-os geograficamente.

Este complexo de moscas-brancas vem causando, nos cultivos agrícolas brasileiros, vários problemas, primeiramente relacionados à sua ação direta como sugadores de seiva e injeção de toxinas, que induzem desordens fisiológicas, reduzindo o vigor das plantas e a produção, e por sugarem de forma contínua a planta, ejetam uma substância adocicada que facilita o crescimento da fumagina, que interfere na atividade fotossintética das folhas, alterando a qualidade da produção de inúmeros cultivos. E de forma indireta, como transmissores de várias espécies de vírus, potencializando o efeito devastador da praga e transformando-a em praga-chave de culturas como feijão, algodão,

tomate e outras hortaliças em geral. E nesses últimos anos também os cultivos de soja têm sofrido devido à sua presença em altas populações, principalmente nas fases reprodutivas da planta. Transformando-a em um dos insetos de maior impacto na entomologia agrícola mundial, daí o motivo para chamá-la de “a praga do século 20”, porém nota-se que esta denominação se manterá também neste século 21.

Classificação, morfologia, biologia e plantas hospedeiras

A mosca-branca é um inseto da ordem Hemiptera, subordem Sternorryncha e família Aleyrodidae, apresentando em torno de 126 gêneros e mais de 1.200 espécies, sendo a B. tabaci a mais importante e amplamente distribuída.

O adulto da mosca-branca mede de 0,8mm a 2mm de comprimento, sendo as fêmeas maiores que os machos, com quatro asas membranosas recobertas por uma pulverulência branca, olhos vermelhos e antenas longas em relação ao tamanho da cabeça. Dependendo da alimentação e das condições climáticas os machos vivem de nove dias a 17 dias e as fêmeas podem viver de 38 até 74 dias e estão quase sempre em pares.

Tanto o adulto como as ninfas possuem aparelho bucal do tipo “picador-sugador”. Quando em repouso, as asas são mantidas levemente separadas, com um dos lados paralelos e na forma de um telhado, podendo-se visualizar o abdome, cuja coloração é amarela. A reprodução se dá por via sexuada, e ocorre de duas a quatro horas após a emergência, originando machos e fêmeas, mas pode apresentar reprodução assexuada gerando apenas machos.

Os ovos da mosca-branca têm formato de pera, coloração amarela nos primeiros dias e marrom quando próximos à eclosão e são colocados na face inferior das folhas, ficando presos por um pedúnculo curto, podendo ser depositados isoladamente, em grupos separados ou ainda em semicírculos. Uma fêmea pode colocar em média 300 ovos dependendo do hospedeiro e da temperatura, sendo que a eclosão das ninfas se dá em média após seis dias. Em situações de estresses provocados por doses elevadas de inseticidas, as fêmeas, na tentativa de preservar a espécie, podem intensificar a oviposição e aumentar a proporção de fêmeas em sua prole. E na falta de alimento podem interromper a postura.

Segundo as pesquisas a região de maior preferência para oviposição da mosca-branca é a apical. Plantas com 30 a 40 dias após a emergência são preferidas para a colocação de seus ovos, pois as folhas mais novas são mais finas, macias e possuem maior quantidade de nutrientes e água disponíveis, facilitando não só a oviposição como também a alimentação do adulto e da geração que virá em seguida.

As ninfas, medem cerca de 0,3mm a 0,6mm, com duração de 12 dias dependendo das condições ambientais e da planta hospedeira. Passam por quatro estágios ninfais, sendo que logo após a eclosão as ninfas do primeiro instar caminham pela folha à procura de um local adequado para começarem sua alimentação. Nesta fase possuem formato elíptico, coloração branca-esverdeada, plana ventralmente e convexa dorsalmente e apresentando pernas bem desenvolvidas.

As ninfas do segundo e do terceiro instar são fixas na planta e se alimentam de forma contínua, sendo que as pernas e as antenas são atrofiadas, com asas desenvolvidas internamente. Já no quarto estágio a ninfa ainda se alimenta, porém apenas no início, cessando a alimentação quando aparentemente sofre mudanças morfológicas para se transformar em “pupário”, onde é possível verificar uma diferenciação morfológica de ninfa de quarto instar para “pseudopupa”, sendo essa última bastante destacada por apresentar características como o aparecimento de olhos vermelhos e coloração de um amarelo mais intenso, com duração em torno de 1,5 dia a dois dias. A emergência do adulto se realiza por meio de uma abertura em forma de “T” invertido, na região anterior dorsal do pupário.

As colônias se estabelecem na face inferior das folhas. Quando em altas infestações é possível encontrar todas as fases da praga: ovos, quatro estágios ninfais e adultos. Em temperaturas de 25ºC, completam o ciclo, de ovo a adulto, em três a quatro semanas em média e somente o adulto é capaz de migrar até novas plantas. Os estágios imaturos permanecem fixos à planta hospedeira.

Os adultos apresentam pouca habilidade para dirigir seus voos, que ocorrem de forma passiva numa corrente de ar, podendo ser encontrados a 7km do foco de infestação. O vento e as condições locais para a sobrevivência da prole determinam o voo desta praga. Geralmente podem voar cerca de 3m a 4m de altura, sendo que certos adultos foram encontrados até a 300m de altura, provavelmente guiados pelas correntes de ar.

A temperatura pode definir efetivamente o ciclo de vida desta praga, que pode variar de 15 dias a 24 dias, bem como a fertilidade, o desenvolvimento embrionário e a longevidade do adulto.

Assim sendo, quanto maior a temperatura, maior o número de gerações da mosca-branca, podendo alcançar até 15 gerações por ano. Entretanto, a precipitação pluviométrica contribui de forma negativa neste inseto, reduzindo suas populações, principalmente nas fases em que ainda é móvel ou pseudopupa, pois se encontra destacada da folha e passível de ser levada pela água das chuvas.

Este “complexo de moscas-brancas”, segundo as pesquisas, adaptou-se à alimentação em diferentes plantas, agrupando, atualmente, cerca de 700 espécies de plantas hospedeiras, predominantemente anuais e herbáceas, pertencentes a mais de 80 famílias botânicas, de grande importância agrícola como soja, ervilha, feijão, algodão, tomate, batata, berinjela, pimenta, fumo, repolho, couve, brócolis, melão, melancia, pepino, mamão, uva, poinsétia, roseira, entre outras.

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Táticas de manejo do complexo mosca-branca em cultivos de soja

É necessario entender que esta praga deve ser controlada dentro do sistema produtivo e isso significa que não só o sojicultor deve estar atento, mas todos os produtores que compõem a cadeia agrícola produtiva do país.

Portanto, a conscientização dos produtores, sobre as medidas de controle a serem tomadas antes, durante e no final dos cultivos agrícolas é essencial para a redução dos problemas ocasionados por essa praga.

Em linhas gerais as táticas de manejo integrado para a mosca-branca podem ser assim descritas...

Destruição dos restos de cultura, tigueras e plantas espontâneas

Os restos culturais de plantas hospedeiras da praga devem ser destruídos ou incorporados ao solo logo após a colheita, para evitar a formação de um foco de sobrevivência para ovos, ninfas e adultos da mosca-branca.

Caso o produtor, após a colheita, tenha sua área coberta por tigueras de soja, estas plantas devem ser eliminadas antes que a praga conclua um ciclo na planta, pois sua manutenção ocasionará a perpetuação do inseto ou mesmo sua disseminação para outras culturas e áreas circunvizinhas.

Preparo do solo antecipado

Como a mosca-branca depende de hospedeiros para sua sobrevivência, preparar o solo com antecedência, evitando que as plantas daninhas cresçam sobre ele e perpetuem a praga na área é uma boa opção. Também se deve proceder a eliminação das plantas daninhas no estabelecimento da cultura, o que pode ter um efeito positivo, diminuindo as populações iniciais da praga.

Evitar a proximidade de hortas caseiras às culturas

Hortas caseiras são um dos principais focos, tanto da mosca-branca quanto dos vírus por ela transmitidos. Pode-se dizer que lá estão as fontes permanentes da praga. Assim, evitá-las ou se possível pelo menos monitorá-las seria um procedimento correto para produtores, principalmente aqueles que cultivam além da soja, tomate e feijão.

Evitar o escalonamento do plantio e adotar barreiras vivas

Plantios escalonados e próximos a áreas infestadas devem ser evitados. Quando isto não for possível a atenção deve ser redobrada, pois nestes casos as migrações da praga são mais frequentes. Também é importante que se observem as direções do vento, evitando que as primeiras áreas plantadas se iniciem ao seu favor, já que a praga utiliza esse mecanismo como principal meio de dispersão e seguramente se alastrará de forma escalonada por entre os talhões.

A adoção de barreiras vivas pode ser também implantada com culturas como o sorgo, o milho, o milheto e outras plantas similares e mesmo sabendo que a mosca-branca pode vir a infestar essas gramíneas, ainda sim podem ser consideradas dentro do manejo como culturas alternativas para quebra de ciclo da praga, pois não são hospedeiras preferenciais da mosca-branca além do que podem ajudar a impedir ou retardar a entrada de adultos do inseto na área. As barreiras vivas devem ser posicionadas perpendicularmente à direção dos ventos e se possível circundando todo o cultivo.

Controle biológico

Muitas espécies de insetos, ácaros e aranhas alimentam-se de ninfas e adultos de mosca-branca. Dentre os insetos predadores, é possível citar o bicho-lixeiro, as joaninhas e os percevejos (Orius e Geocoris sp.). Apesar de esta praga estar há muitos anos causando danos aos agricultores, pouca informação existe sobre a biologia e o impacto da maioria dos predadores de B. tabaci.

Para o caso dos parasitóides, Encarsia formosa e Eretmocerus californicus já são utilizados amplamente na Europa e nos Estados Unidos. São liberados em cultivos de hortaliças, protegidos ou não, cerca de dois meses após o plantio, totalizando cinco liberações (uma por semana) na proporção de 1,5 vespa/planta, porém, segundo pesquisadores, é muito importante que a praga esteja em baixa população, para que haja tempo do inimigo natural se estabelecer.

Muitos fungos estão associados à mosca-branca, Verticillium sp., Paecilomyces spp., Aschersonia aleyrodis e Beuveria bassiana, sendo que este último tem sido comercializado por algumas empresas no Brasil para controle da praga em questão. Contudo, mais estudos sobre sua eficácia precisam ser desenvolvidos, pois a tática pode ser viável sob o ponto de vista de controle da praga, mas se não utilizada de forma adequada pode vir a falhar, pois além das condições climáticas o controle biológico exige conhecimento da bioecologia do inseto-alvo.

Monitoramentos constantes nas lavouras

O monitoramento consiste no acompanhamento da ocorrência da praga na cultura, assumindo o critério de que as medidas de controle sejam adotadas apenas com o objetivo de diminuir a densidade populacional do inseto para níveis que não causem danos de importância econômica.

Como ainda não há dados conclusivos sobre os níveis de controle para a tomada de decisão nas aplicações de inseticidas para mosca-branca em soja, medidas de controle estão sendo utilizadas com base apenas na observação da presença da praga nas folhas da cultura e, o que é pior, muitas vezes a tomada de decisão é baseada na presença de fumagina nas folhas, o que já se torna um problema, pois significa que se está controlando a referida praga “às cegas” ou tardiamente.

Portanto, é imprescindível que o produtor ou o técnico responsável pela área faça inspeções pelo menos uma vez por semana na cultura, com o intuito de identificar focos de infestações, tendo em vista que depois da primeira migração de adultos, a colonização pode aumentar drasticamente. Também são importantes estas vistorias para identificar a presença das formas jovens na parte inferior das folhas, pois devem ser controladas na medida do possível, mas são frequentemente ignoradas pelo produtor, talvez por desconhecimento ou mesmo porque o agricultor não as visualize devido, principalmente, ao seu pequeno tamanho e localização.

Quando o produtor se dá conta, a população deste inseto já se estabeleceu e com grande possibilidade de que esteja em percentuais muito altos nos baixeiros das plantas de soja, como já descrito anteriormente, o que pode inviabilizar ou mesmo comprometer qualquer aplicação de inseticida, já que estarão protegidas por um emaranhado de folhas da própria cultura e, provavelmente, no último estágio de ninfa, em que possivelmente não se alimente mais. Portanto, as fases da praga devem ser consideradas na tomada de decisão, pois dependendo da proporção de ovos, ninfas, pseudopupas e adultos, é possível optar por inseticidas de diferentes modos de ação, sendo que a escolha errada pode acarretar em gastos desnecessários, onerando ainda mais o custo de produção da cultura.

O nível de infestação de mosca-branca (adultos/planta) cresce linearmente com o tempo devido à migração dos adultos provenientes de outros cultivos, portanto, essa fase da praga pode ser monitorada de duas formas: utilizando armadilhas confeccionadas com materiais plásticos pintados de amarelo e untados com uma substância oleosa. O inseto atraído pela cor ficará aderido ao substrato oleoso, permitindo que se constatem os primeiros adultos. Outra forma seria o caminhamento em ziguezague de modo a percorrer todo o plantio, quantificando o número de adultos em 50 folíolos do terço superior, considerando-se infestadas as plantas que apresentarem dez ou mais adultos/folíolo.

Para ovos e ninfas deverá ser realizada uma estratificação vertical da planta. A observação e a quantificação poderão ser feitas utilizando-se uma lupa de bolso com aumento mínimo de 60 vezes. Deve-se iniciar o caminhamento em ziguezague pelo talhão a ser amostrado, escolher o primeiro ponto aleatoriamente e neste coletar três folíolos (um no ponteiro, outro no terço médio e por fim no baixeiro, separando-os em sacos plásticos devidamente etiquetados). Para padronizar a coleta, sempre escolher nas folhas de soja o foliolo do meio. Assim, o procedimento deverá ser repetido até que atinja no mínimo 12 pontos coletados.

A quantificação deverá ser realizada em apenas 2cm²/folíolo, sempre separando as fases em: ovo, ninfa móvel, ninfa clara e pseudopupa (conforme a Ficha de Avaliação) para que possa, segundo a quantidade média encontrada de cada fase, tomar uma decisão assertiva em relação a controlar ou não a praga e também na escolha do produto (seja químico ou biológico) mais apropriado para a fase predominante naquele talhão. Com certeza a real constatação da predominância de ninfas claras (aquelas de segundo até início do quarto instar), pode determinar o bom desempenho de produtos sistêmicos ou translaminares de ação ninficida, pois como a alimentação nesta fase é contínua, a ação de tais produtos será otimizada.

Estes monitoramentos devem ser realizados preferencialmente pela manhã, tentando não afugentar os adultos e 24 horas após precipitações intensas. Também é importante que o produtor saiba que o intervalo crítico de estabelecimento da praga se dá nos primeiros 60 dias da cultura, pois a partir do fechamento da soja, as dificuldades de controle aumentam e a probabilidade de se ter uma redução na população sem grandes prejuízos na produção final diminuem bastante e os custos no controle aumentam consideravelmente.

Optar por espécies e cultivares resistentes ou tolerantes

O uso de cultivares resistentes ou tolerantes seria uma das formas mais baratas de controle. Porém, isso dependerá de cada produtor, pois nem sempre existe um ajuste perfeito entre a cultivar favorita e a resistente. Um exemplo disso seria o uso de cultivares glabras (desprovidas de pelos), pois em geral, são menos preferidas pela mosca-branca para oviposição que as de folhas pilosas

Culturas-armadilhas

A cultura armadilha ou planta-isca é uma prática muito antiga, que se baseia no plantio antecipado ou não de uma cultivar ou mesmo espécie diferente mais atrativa para a praga que a cultivar de interesse, onde se pode plantar em áreas marginais ou em faixas intercaladas à cultura, com o objetivo de estimular a praga em preterir ou retardar a colonização da cultura definitiva.

Tal prática foi utilizada em cultivos de algodão com o gergelim como cultura armadilha, sendo que essa cultura foi capaz de reduzir o número de aplicações de inseticidas contra a praga-alvo. Porém, segundo os autores, para se ter sucesso nesta prática deve-se levar em conta alguns pontos, como, por exemplo: a escolha da variedade de gergelim e o plantio do gergelim nas bordaduras utilizando três a cinco fileiras para áreas pequenas (até 5ha) e dez fileiras para áreas maiores (a partir de 10ha).

Os mesmos autores ressaltam que a cultura-armadilha de gergelim deve ser monitorada constantemente, para que não se torne um foco de disseminação da praga, para a cultura principal. Se o gergelim for abandonado, poderá causar um problema maior que o previsto, principalmente se as condições forem favoráveis ao desenvolvimento da mosca-branca, ou seja, clima seco e quente.

Medidas fitossanitárias obrigatórias

O vazio sanitário, já estabelecido em alguns estados do Centro-Oeste para culturas como tomate e feijão, é uma ferramenta “auxiliar” para a redução desta praga e das doenças que transmite, porém deveria ser seguido por todos os estados produtores e em outras culturas hospedeiras para que se iniciasse um processo de quebra generalizada do ciclo desta praga tão importante para o País.

Controle químico do complexo de moscas-brancas

O controle da mosca-branca em soja e também em outras culturas ainda é realizado quase que exclusivamente por meio de produtos sintéticos, portanto, é importante que as empresas produtoras de agroquímicos possam oferecer ao produtor compostos mais modernos, que apresentem eficiência no controle da praga em seus diferentes estágios, sem, contudo, provocar efeitos indesejaveis.

Assim, o uso de produtos seletivos, ou seja, aqueles com potencial para controlar a praga a níveis aceitáveis, sem, no entanto, causar efeitos deletérios aos inimigos naturais é uma importante estratégia dentro do Manejo Integrado tanto para a cultura da soja como para outros cultivos hospedeiros da praga em questão.

A adoção de agroquímicos de forma indiscriminada, com o objetivo de controlar a mosca-branca, pode acarretar inúmeros problemas tanto para o meio ambiente como para o homem. Além disso, segundo a pesquisa o problema fitossanitário criado por B. tabaci é muito complexo por estar relacionado a diversos fatores, tais como a grande plasticidade genética, partindo do princípio que seja um complexo de moscas-brancas; a ampla variedade de hospedeiros; a capacidade de transmitir vírus pertencentes a vários grupos, principalmente geminivírus; a presença de enorme variabilidade genética para a evolução de resistência a inseticidas e, por fim, a facilidade com que se movimenta de forma constante entre plantas da mesma área, entre áreas cultivadas e entre hospedeiros.

Portanto, não é surpreendente que esse complexo de espécies tenha causado uma crise de proporção mundial.

O uso de agroquímicos, dentro de um programa de manejo integrado da mosca-branca, pode apresentar uma resposta imediata se forem estabelecidos alguns cuidados, como usar inseticidas em função da eficiência, da fase da praga, da seletividade sobre inimigos naturais e insetos polinizadores, do poder residual e do grau de toxidade sobre o homem e os animais.

Antes das aplicações e sempre que possível, o produtor ou técnico responsável deve monitorar as áreas de cultivo e suas imediações, observando a planta em diferentes pontos e avaliando a incidência de adultos, ninfas e ovos da mosca-branca.

Em situações em que se constata a presença de ninfas, optar por inseticidas que possam controlar esta fase também. Isto porque muitas vezes o aumento da incidência de adultos na lavoura é reflexo de um controle inadequado de ninfas, pois se desenvolvem, frequentemente, livres de qualquer tipo de controle por parte do produtor. Portanto, o manejo adequado de mosca-branca exige conhecimento de sua biologia, bem como o conhecimento de como cada inseticida pode afetá-la.

Além disso, para aperfeiçoar o controle da mosca-branca, ao contrário do que normalmente tem sido feito, as pulverizações devem ser iniciadas, primeiramente nas bordaduras ou ao redor das áreas plantadas e depois em seu interior, pois deste modo será formada, na própria lavoura, uma pequena barreira de contenção, evitando que os adultos da mosca-branca migrem para áreas não pulverizadas.

Também se recomendam aplicações de inseticidas em volumes de calda adequados e nas horas mais frescas do dia, para atingir a face inferior das folhas e se possível sem vento.

Torna-se importante para um efetivo controle a rotação de inseticidas, levando-se em conta o sítio de ação de cada produto utilizado. Isto porque pesquisas realizadas em diversos países, inclusive no Brasil, têm comprovado a evolução da resistência de B. tabaci aos principais grupos químicos de inseticidas, que vão desde organofosforados, piretroides, carbamatos, reguladores de crescimento, neonicotinoides, até a própria resistência à sua combinação. E somente a implantação de programas de manejo da resistência no Brasil poderia diminuir ou mesmo resolver estes problemas, como já estão fazendo países como EUA, Israel e Espanha.

Enfim, seja qual for a cadeia produtiva em que a praga esteja presente torna-se necessário que as medidas a serem adotadas tenham por objetivo não somente o controle da praga, mas também a sustentabilidade do que se produz, sempre respeitando o meio ambiente e consequentemente melhorando a qualidade da produção agrícola como um todo.

* Por Cecilia Czepak, Matheus Le Senechal, Karina C. A. Godinho, Humberto O. Guimarães, Matheus F. J. Barbosa, Matheus R. de M. Lima, Rafael F. Silvério, Igor D. Weber e Alexandre S. G. Coelho (Universidade Federal de Goiás)

Artigo publicado na edição 221 da Revista Cultivar Grandes Culturas

Clique aqui para saber quais pesticidas estão registrados para controle de "Bemisia tabaci"

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