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Manejo ecológico do bicho-mineiro no café

12/04/2022

No manejo do bicho mineiro, praga de maior importância para o cafeeiro nas regiões de clima quente e seco, é importante aumentar o rol de ferramentas disponíveis para auxiliar na redução populacional deste inseto. Neste sentido, o uso de predadores naturais e a adoção de quebra-ventos, como os constituídos por Leucena e Guandu arbóreo, tem grande potencial para prevenir infestações e ajudar no controle.

O bicho-mineiro, Leucoptera coffeella (Guérin-Méneville, 1842) (Lepidoptera: Lyonetiidae) é considerado a praga de maior importância para o cafeeiro nas regiões de clima quente e seco, superando a broca-do-café Hypothenemus hampei (Ferrari, 1867) (Coleoptera: Curculionidae, Scolytinae). É uma praga exótica, que tem como região de origem a África tropical, introduzida no Brasil provavelmente em mudas de cafeeiros (Coffea spp.) atacadas e provenientes das Antilhas e Ilha de Bourbon, em 1851. É praga monófaga, que ataca somente cafeeiro.

O surgimento da ferrugem-do-cafeeiro no Brasil, Hemileia vastatrix, no início da década de 1970 pode ser considerado um marco para colocar o bicho-mineiro no status de praga. Cafeeiros plantados em espaçamentos adequados para alta tecnologia, a pleno sol, com o objetivo de controle da doença propiciam ambientes favoráveis para a multiplicação do inseto, que se desenvolve bem em condições de maior insolação e baixa umidade do ar.

O inseto adulto é uma pequena mariposa com 6,5 mm de envergadura, de coloração branco-prateada e asas anteriores e posteriores franjadas. Quando em repouso as asas anteriores cobrem as posteriores.

Adulto do bicho-mineiro pousado sobre uma folha de cafeeiro.

Coloca os ovos na superfície superior das folhas e a lagartinha ao eclodir penetra diretamente para o interior da folha, sem entrar em contato com a parte externa. Nessa fase a lagarta vive dentro da lesão ou minas por ela mesma construída, e quando completamente desenvolvida mede aproximadamente 3,5 mm de comprimento.

Ovos do bicho-mineiro postos sobre a superfície superior da folha.
Lagartas de bicho-mineiro no interior da mina, tendo sido retirada a epiderme superior da folha na lesão.

A lesão causada pela lagarta apresenta o centro mais escuro, como resultado do acúmulo de excreções sob a epiderme foliar. A epiderme superior da folha, no local da lesão, destaca-se com facilidade.

Lesão ou mina produzida pela lagarta do bicho-mineiro.

De modo geral, e principalmente nas épocas de grande infestação, o maior número de lesões é encontrado nas folhas do terço superior do cafeeiro devido a maior insolação, temperatura e vento, o que retira a umidade das folhas e favorece a praga.

Após o completo desenvolvimento a lagarta abandona a folha pela superfície superior da mina e com o auxílio de um fio de seda desce até as folhas baixeiras para empupar em casulo construído também com fios de seda e no formato da letra X.

Casulo do bicho-mineiro construído por fios de seda no formato de X.

O ciclo evolutivo de ovo a adulto dura entre 19 dias e 87 dias, sendo o mais curto em temperaturas mais elevadas, daí a severidade da praga em regiões mais quentes. A fase de lagarta, que é a que causa dano, dura de 9 dias a 40 dias, passando por três fases (ecdises) e podem ocorrer de 8 a 12 gerações ao ano.

Representação do ciclo evolutivo do bicho-mineiro das folhas do cafeeiro.

As lesões ou minas, causadas pelas lagartas, reduzem a capacidade foliar de fotossíntese em função da redução da área foliar. Também, em ataque intenso ocorre a desfolha da planta, de cima para baixo devido à distribuição da praga, e em consequência há redução na produção de café. Lavouras intensamente desfolhadas podem levar até dois anos para se recuperarem.

As pesquisas mostram que o nível de controle para L. coffeella encontra-se entre 26%  a 36% de área foliar lesionada, após o que começa a ocorrer prejuízos na produção de café.

No Sul de Minas foi constatada, em 1976, uma redução na produção de café da ordem de 52% devido uma desfolha de 67% no mês de outubro, ocasião em que ocorreu a maior florada daquele ano. Posteriormente, entre 1987 e 1993 também foram constatados altos prejuízos, com redução na produção entre 34,3% e 41,5%.

Condições para a ocorrência do bicho-mineiro

A presença do bicho-mineiro está condicionada a diversos fatores: (1) climáticos - temperatura e chuva principalmente; (2) condições da lavoura - lavouras mais arejadas têm maior probabilidade de serem atacadas e (3) presença ou ausência de inimigos naturais - parasitoides, predadores e entomopatógenos (fungos e bactérias).

Épocas do ano com temperaturas mais elevadas e maior déficit hídrico são condições propícias para o desenvolvimento da praga. Lavouras mais arejadas, com maior espaçamento entre plantas estão mais predispostas ao ataque do bicho-mineiro. Em geral, os cafeeiros em locais de maior altitude em uma mesma lavoura de café estão mais sujeitos ao ataque da praga, por esses locais propiciarem condições ideais para a sua ocorrência, como maior exposição aos ventos e consequentemente maior insolação e menor umidade do ar.

As épocas em que são constatadas as maiores populações da praga são os períodos secos do ano, com início em junho e pico em outubro, sendo menor antes e após esses meses, geralmente, nas principais regiões cafeeiras do Brasil. Há casos em que a população aumenta em março-abril em decorrência de veranico no mês de janeiro e/ou fevereiro, como frequentemente ocorre na cafeicultura do cerrado mineiro. A precipitação pluvial e a umidade relativa influenciam negativamente a população da praga, ao contrário, a temperatura exerce influência positiva.

Manejo ecológico do bicho-mineiro

A predação, ou seja, o controle natural das lagartas do bicho-mineiro feita principalmente por vespas predadoras (Hymenoptera: Vespidae) apresenta aproximadamente 70% de eficiência. Cerca de 18% do controle natural é feito por micro himenópteros parasitoides.

Vespa predadora, Protonectarina sylverae, procurando por lagarta de bicho-mineiro na lesão.    

A preservação de áreas de vegetação natural próximas aos cafezais pode desempenhar papel importante na estratégia de conservação e aumento das vespas predadoras e parasitoides. Áreas de vegetação natural, ou regenerada, adjacentes às culturas possibilitam que espécies sensíveis às práticas culturais encontrem refúgio em seu interior. A definição de táticas de manejo dessas plantas próximas da cultura do cafeeiro poderá ser usada como uma das estratégias complementares na regulação populacional de artrópodes-praga, contribuindo para a redução gradual da dependência de produtos de proteção de plantas, promovendo o desenvolvimento sustentável do agroecossistema cafeeiro. A utilização de faixas de leguminosas (Fabaceae) arbóreas (aléias) como quebra-ventos pode reduzir o ataque de pragas em virtude de oferecer barreiras que dificultarão a entrada de insetos que são propagados pelo vento, modificar o microclima tornando-o desfavorável às pragas como o bicho-mineiro e aumentar a incidência de inimigos naturais por oferecer abrigo e alimentos alternativos.

A pesquisa

O estudo da influência de aléias de leguminosas (Fabaceae) arbóreas, ou quebra-ventos, na incidência de bicho-mineiro em cafeeiro foi objeto de pesquisa. O trabalho foi realizado na Fazenda Experimental da Epamig, em São Sebastião do Paraíso/Minas Gerais. Foi utilizada a linhagem de cafeeiro Topázio, de porte baixo, no espaçamento adensado na linha (3,4m x 0,5 m). As fabáceas utilizadas como aléias, ou quebra-ventos, foram o Guandu arbóreo (Cajanus cajan), Gliricídea (Gliricidia sepium), Leucena (Leucaena leucocephala) e Acácia (Acacia mangium), plantadas perpendicularmente ao sentido dos ventos predominantes. As avaliações da incidência de bicho-mineiro foram efetuadas mensalmente entre os meses de abril, início da infestação, e outubro, pico da praga na região, por meio da contagem de folhas minadas. A incidência da predação por vespas foi avaliada com a contagem de minas "predadas", pela observação das rasgaduras feitas pela vespa nas lesões. Também foram determinadas quais as espécies de vespas presentes, o que foi feito pela captura de espécimes com armadilhas adesivas de cor amarela (24cm x 9,5cm) distribuídas nas parcelas no mês de outubro de cada ano (pico da praga), colocadas dependuradas no centro de cada parcela e na mesma altura das plantas de cafeeiro.

Rasgaduras produzidas por vespas para retirada da lagarta do bicho-mineiro.
Vespas coletadas em armadilha adesiva de cor amarela dentro de cafezal.
Detalhe das vespas coletadas em armadilha adesiva de cor amarela dentro de cafezal.

Resultados da pesquisa

Estão apresentados e discutidos os resultados obtidos em 2009 após uma poda das aléias na altura dos cafeeiros no ano anterior (2008) e em 2010 com as leguminosas já no seu porte normal.

Plantas de Leucena após a poda ao lado dos cafeeiros em 2008.
Plantas de Leucena em seu porte normal ao lado dos cafeeiros em 2010.

Em 2009, após uma poda das aléias na altura dos cafeeiros no ano anterior, o nível de controle do bicho-mineiro (NC = 30% de folhas minadas) foi observado desde o mês de maio até final de setembro em todos os tratamentos, ocorrendo a redução de folhas minadas somente em outubro com o início das chuvas na região, quando ocorre o início de um novo enfolhamento nos cafeeiros. Não foi observada, portanto, diferença entre o efeito dos diversos tipos de quebra-ventos e o tratamento controle ou testemunha sem quebra-ventos (Fig. 1).

Figura 1 - Evolução da infestação de bicho-mineiro, expressa em porcentagem de folhas minadas nos cafeeiros sob influência das diferentes espécies de leguminosas utilizadas como quebra-ventos em 2009, após uma poda em 2008. Obs.: NC = Nível de controle (30 % de folhas minadas).

Em 2010, já com as leguminosas em porte normal, foi observado que os cafeeiros com influência da Acácia e Gliricídia, apresentaram menor infestação da praga até o mês de julho, igualando-se à testemunha, e aqueles sob a influência do Guandu e Leucena até o final do mês de setembro, período em que geralmente começam as chuvas, mostraram que não haveria necessidade da utilização de nenhuma outra medida de controle à praga além daquela naturalmente exercida pelos inimigos naturais e condições de microclima proporcionadas por essas duas leguminosas, Leucena e Guandu (Fig. 2).

Figura 2 - Evolução da infestação de bicho-mineiro, expressa em porcentagem de folhas minadas nos cafeeiros sob influência das diferentes espécies de leguminosas utilizadas como quebra-ventos em 2010, com porte normal. Obs.: NC = Nível de controle (30 % de folhas minadas).

As espécies de vespas predadoras (Hymenoptera: Vespidae) mais abundantes na área experimental foram Polybia scutellaris (44,7%), Brachygastra lecheguana (23,8%), Protonectarina sylverae (10,5%) (Fig. 8), Polybia ignobilis (7,9 %), Polybia sericea (2,6%) e Polybia sp. (10,5%).

Custo-benefício

Os resultados permitem concluir que quebra-ventos, como aqueles constituídos por Leucena e Guandu arbóreo são eficientes na prevenção da infestação do bicho-mineiro, seja por dificultar a entrada dos insetos nos cafezais, constituindo uma barreira física, quer pela conservação de inimigos naturais próximo aos cafeeiros, ou por proporcionarem condições de microclima desfavoráveis à praga no cafezal sob influência dos quebra-ventos. Além desses resultados, do ponto de vista da redução do ataque da praga, as plantas de múltiplo uso que servem de quebra-ventos podem ser utilizadas como lenha para secar o café em secadores mecânicos e de cobertura morta, neste último caso incorporando nutrientes aos cafeeiros, após a decisão de podá-los, tornando a cultura do café mais autossustentável.

Artigo publicado na edição 219 da Cultivar Grandes Culturas, mês agosto, ano 2017. 

Paulo Rebelles Reis, Epamig Sul de Minas/EcoCentro, Pesquisador do CNPq, Apoio Fapemig, CNPq e Consórcio, Pesquisa Café - CBP&D/Café

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