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Manejo de mancha-alvo na cultura da soja

17/06/2022

A busca por cultivares com maior teto produtivo, ciclo mais curto e resistência à ferrugem asiática e a fitonematoides tem resultado no aumento da severidade de doenças como a mancha-alvo. Aplicar fungicidas adequados e no momento certo, fazer bom uso da tecnologia de aplicação para cobrir as folhas do baixeiro e usar sementes tratadas de boa qualidade estão entre as armas para enfrentar esta enfermidade, que tem se transformado em problema crescente nas lavouras.

A ocorrência de doenças tem sido um dos principais fatores limitantes ao aumento da produtividade da soja no Brasil. A extensa área cultivada, que já se aproxima de 34 milhões de hectares, o clima quente e úmido e a ausência de rotação de culturas na maior parte das lavouras são alguns dos aspectos que explicam essa agressividade de enfermidades em soja no país.

A mancha alvo tem apresentado importância crescente em diversas áreas de produção, especialmente nos estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Maranhão e Piauí. Nessas áreas, perdas consideráveis têm sido observadas nas lavouras de soja, especialmente quando utilizadas cultivares suscetíveis, onde há relatos de redução de até 50% na produtividade da soja em função da ocorrência da mancha alvo.

A busca por cultivares com maior teto produtivo, ciclo mais curto e resistência a outros problemas fitossanitários de grande importância, como a ferrugem asiática e os fitonematóides, tem resultado no aumento da severidade de doenças como a mancha alvo. Esse fato possivelmente está relacionado a escassez de fontes de resistência e a estreita base genética das cultivares utilizadas na atualidade.

A mancha alvo é causada pelo fungo Corynespora cassiicola, que além da soja pode causar doenças em mais de 70 gêneros de plantas, muitos de importância econômica, tais como algodão e tomate. Esse fungo pode ser transmitido através das sementes e também tem a capacidade de sobreviver em restos de cultura, mantendo-se na palhada da soja e em outros resíduos por mais de dois anos. Essas são as principais fontes de inóculo da mancha alvo.

Primeiros sintomas da mancha-alvo em folíolo de soja

O ambiente ideal para a ocorrência da doença é caracterizado por temperaturas entre 18ºC e 21°C, período de molhamento mínimo de 24 horas e umidade relativa superior a 80%. Sob estas condições o fungo penetra nas plantas e dentro de 7 dias a 10 dias normalmente se observam os primeiros sintomas visíveis. Estas condições são obtidas com maior frequência após o fechamento das entre linhas e o consequente sombreamento do baixeiro das plantas.

Os sintomas podem ser observados em todas as partes da planta de soja, incluindo raízes, hastes, pecíolos, folhas, vagens e sementes. Entretanto, o sintoma mais característico e de maior importância ocorre nas folhas, especialmente nos terços inferior e mediano. As lesões são arredondadas e, como o próprio nome da doença sugere, se assemelham a um alvo, geralmente de cor pardo avermelhada. As lesões são inicialmente pequenas, porém podem se expandir e atingir até 2 cm de diâmetro.

O controle da mancha alvo pode ser obtido pelo uso de cultivares resistentes, rotação com culturas não hospedeiras, tratamento das sementes de soja com fungicidas e aplicação em parte aérea. Como não há cultivares com resistência completa adaptadas a todas as regiões e o sistema de cultivo é realizado com plantio de soja todos os anos, o controle da doença tem sido baseado na aplicação de fungicidas em parte aérea.

Folhas de soja severamente atacadas pela mancha-alvo

Existem atualmente 43 fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da mancha alvo na cultura da soja, pertencentes aos grupos triazol, estrobilurina, carboxamida, benzimidazol, ditiocarbamato, carboxanilida, dimetilditiocarbamato e fenilpiridinilamina. Entretanto, normalmente os produtores tem optado pela aplicação de fungicidas com misturas formuladas de triazol + estrobilurina, carboxamida + estrobilurina e carboxamida + estrobilurina + triazol.

Mesmo com a abundância de fungicidas registrados, muitos dos quais com alta eficiência, é comum a ocorrência de falhas no controle da mancha alvo em lavouras comerciais de soja. Isso ocorre devido a erros na escolha dos fungicidas, momento de aplicação, dose, intervalos entre aplicações muito longos e com tecnologia de aplicação que não permite a cobertura adequada das folhas do baixeiro com fungicida.

Dentro desse contexto, um dos aspectos que mais tem prejudicado a eficiência de fungicidas para o controle da mancha alvo tem sido o atraso na primeira aplicação. Como o fungo pode ser transmitido via sementes e sobrevive na palhada, normalmente a infecção ocorre precocemente, ainda no estádio vegetativo. Quando se dá o fechamento das entre linhas e as condições ambientais se mostram mais favoráveis, a doença se torna severa e provoca grandes níveis de desfolha.

Isso pode ser observado no gráfico 1, onde se percebe que a eficiência do mesmo fungicida pode cair drasticamente quando a aplicação é realizada após os primeiros sintomas, comparado com a aplicação preventiva. Neste exemplo, os primeiros sintomas da mancha alvo foram detectados no estádio R1 (florescimento) da soja. Isso ocorre principalmente pelo modo de ação dos fungicidas disponíveis, que em sua maioria são preventivos, alguns curativos e praticamente nenhum com efeito erradicante.

Figura 1. Eficiência de controle da mancha alvo pela aplicação do mesmo fungicida em diferentes estádios fenológicos da soja. A maior eficiência foi obtida pela aplicação do fungicida em V8 > R1, onde a aplicação foi realizada antes do aparecimento da doença. Fonte: Instituto Phytus, Planaltina/DF, 2016.

A tecnologia de aplicação empregada e sua capacidade de cobrir com fungicida as folhas do baixeiro das plantas de soja são fundamentais para o sucesso no controle da doença. Portanto, mesmo que aplicação do fungicida ocorra antes do início da doença esta pode ser ineficiente caso não se consiga cobrir a planta como um todo, especialmente porque a doença começa nos terços mediano e inferior das plantas.

Outro aspecto que não pode ser deixado de lado é a correta utilização dos defensivos para evitar ou atrasar o processo de seleção de isolados do fungo resistentes a fungicidas. No Brasil, já foi relatada a perda de sensibilidade de alguns isolados do fungo causador da mancha alvo a fungicidas do grupo dos benzimidazóis. Problemas de resistência a carboxamidas também foram identificados em cucurbitáceas no Japão, mostrando que há risco de seleção de isolados resistentes também a esse grupo.

Essas informações devem servir como um alerta, especialmente para regiões onde se faz o plantio de soja seguido por algodão. Nessas condições são realizadas até 4 aplicações de um mesmo fungicida para controlar a mancha alvo (2 aplicações em soja e 2 em algodão). Com o passar dos anos e considerando que o inóculo de mancha alvo mais importante sobrevive na palhada, pode haver a seleção de isolados insensíveis ou resistentes a fungicidas triazóis e carboxamidas, por exemplo.

Sintomas da mancha-alvo em folíolo de soja após 25 dias

Nesse sentido, a rotação de grupos químicos com mecanismos de ação diferentes é importante para preservar as moléculas fungicidas disponíveis. A associação de fungicidas com mecanismo de ação sítio-específicos, tais como triazóis, estrobilurinas e carboxamidas a fungicidas multi-sítio também pode ser realizada para retardar o processo de seleção de isolados do fungo resistente ou insensíveis. Essa associação também pode melhorar a eficiência de alguns fungicidas.

A ocorrência cada vez mais frequente e severa da mancha alvo é uma ameaça às lavouras de soja no Brasil e mais um obstáculo a ser superado na busca por maiores produtividades. Nesse sentido, utilizar as técnicas de controle disponíveis de forma conjunta é indispensável para a obtenção de níveis satisfatórios de controle e manutenção da rentabilidade da soja.

Utilizar sementes de boa qualidade, realizar um bom tratamento de sementes com fungicidas e proteger a parte aérea da planta com fungicidas foliares são práticas muito eficientes para o controle da mancha alvo. Adicionalmente, a associação dessas práticas com a rotação de culturas, utilização de cultivares com algum nível de resistência e cobertura do solo com palha pode maximizar o controle e os ganhos produtivos para soja.

Artigo publicado na edição 223 da Cultivar Grandes Culturas, mês dezembro 2017/janeiro 2018. 

Nédio Rodrigo Tormen, Universidade de Brasília, Instituto Phytus; Luiz Eduardo Bassay Blum, Universidade de Brasília; Ricardo Silveiro Balardin, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

Revista Cultivar

 

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