Culturas de cobertura como aliadas no manejo de daninhas resistentes a herbicidas

Por Pedro Jacob Christoffoleti, da Esalq/USP

20.12.2023 | 14:13 (UTC -3)

Os herbicidas orgânicos foram descobertos a partir da década de quarenta, do século passado, e desde então tornaram-se a principal ferramenta de manejo de plantas daninhas na área de grãos. Durante todo este período houve uma evolução muito grande na área de descobertas destes produtos, bem como em suas práticas de aplicação e recomendação. No entanto, ainda há perdas significativas de produtividade nas culturas agrícolas decorrentes da interferência das plantas daninhas, mesmo com os atuais métodos de controle. Estima-se que, em média, as plantas daninhas geram ainda perdas da ordem de 34% em muitos sistemas de produção.

As razões destas perdas ainda elevadas, fato que para a manutenção de uma agricultura sustentável é inadmissível, estão fundamentadas em vários fatores, dentre eles destaca-se a seleção de plantas daninhas resistentes a herbicidas e a falta de integração do uso dos herbicidas com boas práticas agrícolas. Poucos são os sistemas de produção atuais que procuram integrar práticas agrícolas culturais com a recomendação do herbicida de forma complementar, aliando o manejo da planta daninha com melhoria dos ambientes de produção, gerando assim sustentabilidade ambiental e econômica dos sistemas.

Uma destas práticas é associar o controle químico de plantas daninhas com práticas de culturas de coberturas, visando de forma integrada o controle de plantas daninhas e benefícios agronômicos de tal prática. Existem vários exemplos práticos nos sistemas atuais de produção, onde comprovadamente planejar um sistema de produção envolvendo culturas de cobertura, e herbicidas recomendados no momento certo, representam alternativas para o controle de plantas daninhas de difícil controle pelos herbicidas, além de proporcionar ao sistema de produção benefícios agronômicos que refletem positivamente na produtividade final.

O destaque para esta prática é a utilização de culturas de cobertura do tipo gramíneas no período de pousio entre a segunda safra (“safrinha”) e a semeadura de verão (cultura principal do sistema). Há inúmeros casos de sucesso de produtores que estabelecem o capim-braquiária ou sorgo-sudanense ou milheto como cultura de cobertura e obtém maiores produtividades da soja implantada a seguir. As razões para este incremento de produtividade estão devidamente descritas na literatura, destacando a questão das melhorias nas propriedades físico-químicas do ambiente de produção, além da descompactação natural dos solos, dentre outras. No entanto, destaca-se também que esta prática ajuda no manejo de plantas daninhas.

Uma cultura de cobertura bem estabelecida impede a germinação/emergência do banco de sementes de plantas daninhas impedindo a incidência de luz diretamente ao solo, evitando assim o estabelecimento das plantas daninhas cuja quebra de dormência se dá pela luz solar. Outra explicação da menor incidência de plantas daninhas em uma área com cultura de cobertura está relacionada com a alelopatia que estas culturas podem impor sobre as plantas daninhas, além do fato de ocuparem os espaços que seriam das plantas daninhas caso a área fosse deixada em pousio.

É notório no campo que uma área com o bom estabelecimento de uma cultura de cobertura, que a presença de plantas daninhas resistentes ao glyphosate, como a buva e o capim-amargoso, praticamente fica zerada, facilitando assim o manejo com herbicidas na cultura de soja estabelecida a seguir. Também se observa que depois de dois a quatro anos de estabelecimento desta prática na área, o banco de sementes destas plantas daninhas é reduzido drasticamente. No entanto, o estabelecimento de um sistema de produção com culturas de cobertura exige conhecimento técnico do produtor, e principalmente, planejamento agrícola.

Assim, a prática de uso de culturas de cobertura nos sistemas agrícolas com gramíneas é com certeza uma forma integrada de manejar as plantas daninhas pautadas na sustentabilidade ambiental e econômica, ajudando assim o herbicida na difícil tarefa de manejo das plantas daninhas resistentes. O futuro da agricultura deve estar fundamentado em práticas que associam as tecnologias químicas de manejo dos fatores redutores de produtividade, porém estas devem ser planejadas dentro de um sistema agronômico complexo, e que visam altas produtividades com menos recursos externos e valorização de práticas agronômica que visam sustentabilidade, onde a cultura de cobertura é com certeza uma prática desejável.

*Por Pedro Jacob Christoffoleti (na foto), da Esalq/USP

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