USDA eleva projeção de produção e exportação de trigo da Argentina

País deve colher 23 milhões de toneladas e exportar 17 milhões na safra 2026/27

26.10.2026 | 14:57 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações do USDA

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) elevou a estimativa de produção de trigo da Argentina para a safra 2026/27, de 21,6 milhões para 23 milhões de toneladas. A revisão considera as condições favoráveis de umidade ao longo da maior parte do ciclo de desenvolvimento da cultura e a expectativa de rendimentos acima da média histórica.

O volume projetado representa um aumento de 1,4 milhão de toneladas em relação à estimativa anterior do órgão, divulgada em meados de julho. Apesar da perspectiva positiva, a produção ainda poderá ser afetada por fatores climáticos, como a ocorrência de geadas tardias e a previsão de chuvas acima da média durante a colheita.

Segundo o relatório do USDA, as condições das lavouras nas principais regiões produtoras do centro da Argentina são, em geral, boas a excelentes. As chuvas abundantes registradas no início de outubro contribuíram para o desenvolvimento das plantas em uma fase decisiva para a definição do potencial produtivo.

A estimativa considera uma área colhida de 6,5 milhões de hectares, 100 mil hectares abaixo da projeção anterior. O excesso de umidade do solo impediu o plantio de toda a área inicialmente planejada em algumas regiões, especialmente no sudeste da província de Buenos Aires.

No norte do país, por outro lado, a disponibilidade de água favoreceu a expansão do plantio em determinadas áreas. A colheita começou em meados de outubro nas províncias do norte, onde os primeiros relatos indicam produtividades acima do normal. Em alguns casos, as estimativas iniciais apontam rendimentos que podem chegar ao dobro do esperado inicialmente.

Clima ainda representa um risco

Apesar das perspectivas favoráveis, o USDA destaca que a produtividade final dependerá das condições climáticas nas próximas semanas. Geadas registradas em meados de setembro podem ter causado danos, especialmente na faixa oeste da região tritícola e no norte da província de Buenos Aires. A baixa incidência de radiação solar durante boa parte do ciclo também pode ter limitado o desenvolvimento das plantas.

Outro fator de preocupação é a possibilidade de um episódio particularmente intenso de El Niño. As previsões indicam chuvas acima da média em novembro e dezembro, período que coincide com a intensificação da colheita nas principais regiões produtoras.

A colheita geralmente começa em meados de novembro na região central da Argentina e termina entre o fim de dezembro e o início de janeiro no sul da província de Buenos Aires. Caso as precipitações dificultem as operações ou prejudiquem a produtividade e a qualidade dos grãos, o USDA poderá revisar novamente suas estimativas.

O excesso de umidade também pode favorecer doenças no fim do ciclo e comprometer a qualidade do trigo, atualmente considerada promissora.

Exportações devem alcançar 17 milhões de toneladas

Com a expectativa de maior produção e consumo interno relativamente estável, o USDA projeta que as exportações argentinas de trigo alcancem 17 milhões de toneladas na safra 2026/27, incluindo a farinha de trigo convertida em equivalente-grão.

O volume representa um aumento de 1,5 milhão de toneladas em relação à projeção anterior e poderá configurar o segundo maior resultado da série histórica. A demanda internacional aquecida, em meio às dificuldades de abastecimento na região do Mar Negro provocadas pela guerra na Ucrânia, deve favorecer a comercialização do cereal argentino.

O Brasil aparece entre os mercados com potencial para ampliar as compras. Segundo informações de agentes do setor citadas pelo USDA, o país poderá precisar importar aproximadamente 8 milhões de toneladas de trigo em 2026/27 para atender à demanda interna.

A necessidade de importação brasileira está associada à expectativa de produção nacional menor do que a anteriormente prevista, em razão das chuvas intensas. Também há preocupações com a qualidade do cereal colhido nos dois principais estados produtores do Sul.

No Paraná, onde a colheita está praticamente concluída, relatos indicam que uma parcela significativa da produção apresenta qualidade destinada à alimentação animal. No Rio Grande do Sul, a avaliação ainda é incerta, pois os trabalhos de campo estão em estágio inicial, mas o excesso de chuvas também pode ter prejudicado o cereal.

Nesse cenário, a qualidade da nova safra argentina será um fator determinante para o potencial de exportação ao mercado brasileiro, que tradicionalmente demanda trigo com características adequadas à moagem.

O USDA também aponta países do Sudeste Asiático, como Indonésia, Vietnã e Bangladesh, além de mercados africanos, como Argélia, Marrocos e Angola, entre os principais destinos esperados para o trigo argentino.

Embarques da safra atual podem bater recorde

Para a safra 2025/26, o USDA revisou para cima a projeção de exportações argentinas, de 18,5 milhões para 19,3 milhões de toneladas, incluindo a farinha convertida em equivalente-grão. Se confirmada, a estimativa representará um recorde e ficará cerca de 20% acima do maior volume anterior, registrado na safra 2021/22.

O desempenho ocorre apesar da qualidade relativamente baixa de parte da produção do ciclo atual, associada a rendimentos excepcionalmente elevados e a teores de proteína inferiores ao normal. De acordo com o relatório, uma parcela expressiva do trigo exportado apresentou qualidade destinada à alimentação animal, levando importadores a misturá-lo com cereal de qualidade superior de outras origens.

Os embarques argentinos também demonstraram competitividade no mercado internacional entre julho e setembro de 2026, quando voltaram a crescer após o período de redução sazonal. Normalmente, as exportações atingem os maiores volumes entre dezembro e março, antes de perderem força com a entrada da colheita de verão e a maior disputa por capacidade logística e portuária.

Para a safra 2026/27, o USDA projeta embarques de aproximadamente 3 milhões de toneladas em dezembro, 4 milhões em janeiro, 2,5 milhões em fevereiro e 1,5 milhão em março. Nos meses seguintes, os volumes mensais devem ficar entre 600 mil e 700 mil toneladas, com o Brasil entre os principais destinos.

Estoques finais devem diminuir

O relatório estima os estoques finais argentinos de trigo em 2,2 milhões de toneladas na safra 2026/27, abaixo da projeção anterior. A redução reflete a expectativa de maior demanda externa e de exportações mais elevadas.

Os preços recebidos pelos produtores também apresentam avanço. O trigo a ser colhido em dezembro de 2026 é negociado a aproximadamente US$ 230 por tonelada, ante US$ 185 por tonelada no mesmo período do ano anterior. Segundo o USDA, a demanda externa tem sustentado as cotações mesmo diante de preocupações com a qualidade do cereal.

Apesar dos preços mais favoráveis e da expectativa de produtividade acima da média, as margens dos produtores continuam apertadas.

O USDA informou que continuará acompanhando as condições da colheita e a evolução do clima para avaliar a necessidade de novos ajustes nas projeções de produção e exportação argentinas.

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