Solo afeta desenvolvimento de Spodoptera frugiperda

Estudo revela que solos mais férteis aumentam o crescimento da praga e reduzem sua sensibilidade a inseticida

23.01.2026 | 10:14 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: Frank Peairs, Colorado State University
Foto: Frank Peairs, Colorado State University

O tipo de solo usado para cultivo do milho interfere de forma direta no desenvolvimento da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) e na eficácia do controle químico. A conclusão vem de um estudo científico que analisou a relação entre solo, planta hospedeira, nutrição e resposta do inseto a inseticidas. Os resultados indicam que solos mais férteis favorecem o crescimento da planta, aumentam o peso das lagartas e reduzem a suscetibilidade ao inseticida lambda-cialotrina.

A pesquisa avaliou milho cultivado em três tipos de solo. Latossolo vermelho, solo cinamônico e solo preto. Esses solos apresentam diferenças marcantes de fertilidade, pH e teor de matéria orgânica. O experimento mediu o crescimento das plantas, a composição nutricional das folhas e o desempenho biológico das lagartas alimentadas com esse material vegetal.

O milho cultivado em solo preto e em solo cinamônico apresentou maior altura, maior diâmetro de colmo e maior acúmulo de biomassa. As folhas dessas plantas concentraram mais açúcares solúveis, proteínas e aminoácidos livres. O latossolo vermelho, de menor fertilidade, resultou em plantas menores e com menor teor nutricional.

Essas diferenças refletiram diretamente no inseto-praga. Lagartas alimentadas com milho oriundo de solo preto e solo cinamônico atingiram maior peso corporal a partir do quarto ínstar. O desenvolvimento larval ocorreu em menos tempo, embora a longevidade dos adultos tenha sido maior. As taxas de sobrevivência larval e total também aumentaram nesses dois solos quando comparadas ao latossolo vermelho.

Índices nutricionais

O estudo analisou ainda índices nutricionais das lagartas. Os insetos que se alimentaram de milho cultivado em solos mais férteis apresentaram maior taxa de crescimento e melhor eficiência na conversão do alimento ingerido em biomassa. O consumo relativo foi menor, o que indica maior qualidade nutricional da dieta. No latossolo vermelho, as lagartas consumiram mais alimento, mas converteram menos em ganho de peso.

Controle químico

No controle químico, os resultados chamam atenção. A suscetibilidade da lagarta ao inseticida lambda-cialotrina variou conforme o solo de origem do milho. Lagartas alimentadas com milho de latossolo vermelho apresentaram menor concentração letal média. Já aquelas provenientes de milho cultivado em solo preto e solo cinamônico exigiram doses entre 1,6 e 2 vezes maiores do inseticida para atingir o mesmo nível de mortalidade.

A análise estatística apontou correlação positiva entre o peso das lagartas e a concentração letal do inseticida. Quanto maior o peso corporal, maior a tolerância ao produto. Modelagens estruturais confirmaram que o solo não afeta diretamente a eficácia do inseticida. O efeito ocorre de forma indireta, mediado pelo crescimento da planta, pelo valor nutricional das folhas e pelo aumento do peso do inseto.

Enzimas de desintoxicação

O trabalho também avaliou enzimas de desintoxicação. Lagartas alimentadas com milho de latossolo vermelho apresentaram maior atividade de carboxilesterases, glutationa S-transferases e citocromos P450. Apesar disso, essas lagartas mostraram menor tolerância ao inseticida. A explicação proposta aponta que o menor peso corporal reduz o efeito de diluição do produto no organismo do inseto.

A pesquisa identificou ainda dois aminoácidos-chave nesse processo. Leucina e valina. A leucina mostrou correlação positiva com o peso das lagartas e com a tolerância ao inseticida. A valina apresentou efeito oposto. Ensaios com suplementação desses aminoácidos confirmaram que a leucina aumenta a sobrevivência após a exposição ao inseticida, enquanto a valina reduz.

Os autores destacam que o manejo da lagarta-do-cartucho pode ser mais complexo em áreas com solos férteis, como solos pretos e cinamônico. Nessas condições, o milho cresce melhor, mas o inseto-praga também se desenvolve mais e responde menos ao controle químico.

Outras informações em doi.org/10.1016/j.pestbp.2026.106952

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