Samambaia transforma folhas mortas em raízes para absorver nutrientes

Pesquisa identifica mecanismo de reaproveitamento de tecidos foliares em espécie adaptada a solos pobres em nutrientes

01.11.2026 | 09:15 (UTC -3)
Revista Cultivar
Desenvolvimento de raízes na ráquis da samambaia arborescente Cyathea rojasiana. (A) Samambaias juvenis desenvolvem folhas vivas orientadas para cima, visando a captação de luz. (B) Após a senescência da folha, a ráquis inclina-se para baixo, de modo que sua extremidade toque a superfície do solo. Em indivíduos maduros, o cáudice central da samambaia é circundado por uma “saia” de folhas mortas. (C) Feixes vasculares presentes no interior da ráquis da folha diferenciam-se, na extremidade distal da folha senescente, em raízes que proliferam no solo. Ilustração de Camila Pizano. - doi 10.1002/ecy.4248
Desenvolvimento de raízes na ráquis da samambaia arborescente Cyathea rojasiana. (A) Samambaias juvenis desenvolvem folhas vivas orientadas para cima, visando a captação de luz. (B) Após a senescência da folha, a ráquis inclina-se para baixo, de modo que sua extremidade toque a superfície do solo. Em indivíduos maduros, o cáudice central da samambaia é circundado por uma “saia” de folhas mortas. (C) Feixes vasculares presentes no interior da ráquis da folha diferenciam-se, na extremidade distal da folha senescente, em raízes que proliferam no solo. Ilustração de Camila Pizano. - doi 10.1002/ecy.4248

Pesquisadores identificaram um mecanismo de absorção de nutrientes em Cyathea rojasiana, espécie de samambaia arborescente endêmica do Panamá. A planta transforma estruturas vasculares de folhas mortas em raízes funcionais. O processo permite ampliar a exploração do solo e captar nutrientes.

A descoberta ocorreu na Reserva Florestal de Fortuna, no oeste do Panamá. No local, a população estudada ocupa solos com disponibilidade extremamente baixa de nitrogênio e fósforo. Nessas condições, folhas envelhecidas se inclinam até tocar o solo. Durante a decomposição, a lâmina foliar e os tecidos internos da ráquis apodrecem. Resta um cilindro oco, formado por uma bainha externa resistente, que envolve feixes vasculares intactos. Essas estruturas originam raízes capazes de penetrar no solo.

A equipe liderada por James W. Dalling, da Universidade de Illinois, identificou o fenômeno por acaso em 2019, durante uma coleta de raízes de Podocarpus. Os cientistas observaram folhas mortas fixadas ao solo por raízes desenvolvidas a partir da ráquis, estrutura central de sustentação da folha.

Para verificar a capacidade de absorção, os pesquisadores fizeram um experimento em fevereiro de 2022 com três plantas adultas. Eles aplicaram uma solução de cloreto de amônio marcada com nitrogênio-15 em recipientes contendo raízes originadas das folhas mortas.

Após um mês, análises das folhas novas revelaram aumento significativo nos valores de δ¹⁵N, indicador do enriquecimento em nitrogênio-15. O resultado é compatível com a absorção e a transferência de nitrogênio pelas estruturas reaproveitadas.

Segundo os pesquisadores, o mecanismo parece ser uma forma pouco custosa de ampliar a área em que a planta busca nutrientes. Como reaproveita tecidos vasculares já existentes, a samambaia expande a exploração do solo sem desenvolver estruturas inteiramente novas. Isso pode ser vantajoso em ambientes de baixa fertilidade.

O fenômeno ainda não havia sido documentado em samambaias arborescentes. Os cientistas não visitaram as outras populações conhecidas da espécie, no leste do Panamá, e não sabem se o comportamento também ocorre nelas. Os mecanismos responsáveis pela transformação dos tecidos e pela inversão do fluxo de água permanecem desconhecidos (doi 10.1002/ecy.4248).

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