Pulgão amplia resistência a inseticidas

Revisão científica detalha bases bioquímicas e genéticas da resistência em Myzus persicae

05.03.2026 | 08:29 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: Russ Ottens, University of Georgia
Foto: Russ Ottens, University of Georgia

O pulgão-verde, Myzus persicae, acumula resistência a mais de 80 ingredientes ativos e desafia o controle químico em diversas culturas agrícolas. A constatação integra revisão que sistematiza os principais mecanismos bioquímicos e genéticos associados ao fenômeno.

A espécie coloniza mais de 500 hospedeiros e transmite mais de 100 vírus de plantas. Entre eles, Potato virus Y e Potato leafroll virus. A combinação entre dano direto por sucção e disseminação viral amplia perdas econômicas em diferentes sistemas produtivos.

Eixos centrais de resistência

A pesquisa descreve dois eixos centrais de resistência. O primeiro envolve detoxificação metabólica. O segundo decorre de alterações no sítio-alvo dos inseticidas. Em muitos casos, ambos atuam de forma simultânea dentro do mesmo clone.

No campo metabólico, enzimas como citocromos P450, carboxilesterases, glutationa S-transferases e UDP-glicosiltransferases ampliam a capacidade de neutralizar moléculas inseticidas. A amplificação gênica de esterases E4 e FE4 representa um dos exemplos mais documentados. Alguns clones apresentam até 80 cópias em tandem desses genes. As enzimas passam a funcionar como reservatórios bioquímicos, sequestrando organofosforados e carbamatos antes que atinjam o sistema nervoso.

Alterações no sítio-alvo reforçam o quadro. A mutação S431F no gene ace2 reduz a sensibilidade da acetilcolinesterase a organofosforados e carbamatos. Mutações no canal de sódio dependente de voltagem, como L1014F (kdr) e M918T/L (super-kdr), limitam a ação de piretroides. No caso dos neonicotinoides, a substituição R81T na subunidade beta1 do receptor nicotínico diminui a afinidade pelo inseticida.

A resistência a neonicotinoides também envolve superexpressão do citocromo CYP6CY3. O gene pode aparecer em dezenas de cópias. Estudos citados na revisão mostram que a combinação entre amplificação de CYP6CY3 e mutação R81T resulta em níveis elevados de resistência, superiores aos observados quando cada mecanismo atua isoladamente.

Inseticidas mais recentes também enfrentam pressão seletiva. Para sulfoxaflor, populações resistentes exibem superexpressão de CYP380C40 e UGT344P2. No caso de cetoenóis como spirotetramat, a mutação A2226V no gene da acetil-CoA carboxilase reduz a ligação do inseticida ao alvo. A revisão relata populações com resistência superior a 100 vezes em comparação a linhagens suscetíveis.

Mecanismos múltiplos

O estudo ressalta que mecanismos múltiplos tendem a se acumular em linhagens clonais. Esse acúmulo gera genótipos com resistência cruzada a diferentes grupos químicos. O monitoramento baseado em marcador único perde eficiência diante dessa complexidade.

Além das mutações estruturais, o trabalho descreve camadas regulatórias. A amplificação gênica de esterases e de CYP6CY3 sofre modulação por processos epigenéticos, como metilação de DNA. Em ausência de pressão de seleção, linhagens podem reduzir expressão e recuperar parte da suscetibilidade. Sob nova exposição, a expressão retorna a níveis elevados.

Custos adaptativos

A resistência impõe custos adaptativos. Clones com alta produção de esterases apresentam menor taxa reprodutiva, menor sobrevivência em inverno rigoroso e resposta reduzida a feromônio de alarme. Mutações kdr associam-se a maior tempo de geração e alterações comportamentais. Esses custos influenciam a dinâmica populacional ao longo das safras.

A revisão indica que estratégias de manejo exigem integração de ferramentas. Métodos moleculares, como PCR-RFLP, qPCR e dCAPS-PCR, permitem detectar mutações como S431F, L1014F, M918T, R81T e A2226V. Para resistência metabólica, quantificação de cópias gênicas e ensaios bioquímicos funcionam como indicadores complementares.

Os autores defendem abordagem combinando rotação de modos de ação, uso criterioso de inseticidas com diferentes alvos e incorporação de controle biológico e cultivares resistentes. A lógica central parte do princípio de reduzir pressão seletiva contínua sobre os mesmos mecanismos moleculares.

Mais informações em doi.org/10.1016/j.pestbp.2026.107049

Compartilhar

Newsletter Cultivar

Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura

acessar grupo whatsapp