Publicação destaca papel da tecnologia de aplicação de pesticidas para uso seguro no campo
Orientações técnicas ajudam a aumentar a eficiência dos produtos e a reduzir riscos
Um predador usado no controle biológico de pragas mantém capacidade de predação mesmo quando exposto a inseticidas químicos seletivos. O resultado surge de experimento conduzido em laboratório no interior paulista. O estudo avaliou o comportamento do percevejo Xylocoris sordidus após contato direto e indireto com dois princípios ativos amplamente utilizados na agricultura. Os dados indicam que o inseto conserva potencial de controle nas primeiras 72 horas após a liberação, mesmo em ambientes tratados com pesticidas.
A pesquisa analisou a resposta funcional do predador quando alimentado com ovos da traça Corcyra cephalonica contaminados com clorantraniliprole e lufenuron. Os ensaios também mediram a toxicidade direta e indireta dessas moléculas sobre o inimigo natural. Os resultados mostram redução na taxa de consumo de presas na presença dos inseticidas, mas sem eliminação imediata da atividade predatória.
No trabalho, os insetos permaneceram sob temperatura controlada, umidade constante e fotoperíodo definido. Os pesquisadores utilizaram adultos de X. sordidus com até 24 horas de idade. Antes dos testes, os predadores ficaram em jejum por 24 horas. O procedimento buscou padronizar a motivação alimentar durante os bioensaios.
Os ovos de C. cephalonica, também com até 24 horas, serviram como presas. As densidades variaram de um a 64 ovos por placa. Cada tratamento contou com dez repetições por densidade. Os ensaios compararam três situações. Um grupo controle, sem inseticida. Um grupo com ovos tratados com clorantraniliprole. Um grupo com ovos tratados com lufenuron.
A avaliação da resposta funcional indicou padrão do tipo II em todos os tratamentos. Esse tipo de resposta caracteriza predadores que aumentam o consumo conforme cresce a densidade de presas, até atingir um platô. O comportamento surge com frequência em percevejos predadores. A análise estatística confirmou que, mesmo sob efeito dos inseticidas, o predador manteve esse padrão básico de predação.
No tratamento controle, a regressão logística apresentou estrutura mais complexa. Os termos intercepto, linear, quadrático e cúbico mostraram significância estatística elevada. Isso indica maior flexibilidade no comportamento predatório quando não há interferência química. Já nos tratamentos com inseticidas, o modelo reduziu-se aos componentes intercepto e linear. O dado sugere simplificação da interação predador-presa sob exposição química.
A taxa de ataque do predador variou entre os tratamentos. O menor valor ocorreu no tratamento com clorantraniliprole. Esse resultado aponta redução na eficiência de localização ou ataque às presas. Apesar disso, o mesmo tratamento apresentou o menor tempo de manipulação. Uma vez iniciado o consumo, o predador concluiu a alimentação em período mais curto.
No grupo controle, a taxa de ataque mostrou valor superior. O tempo de manipulação também se elevou. Isso indica maior investimento temporal na captura e no processamento das presas. No tratamento com lufenuron, os valores ficaram em posição intermediária. A combinação de taxa de ataque e tempo de manipulação resultou em estimativas distintas de consumo máximo ao longo de 24 horas.
O cálculo da razão entre tempo total de exposição e tempo de manipulação estimou o número máximo de presas consumidas. O valor mais alto ocorreu no tratamento com clorantraniliprole. Em seguida apareceu o tratamento com lufenuron. O controle apresentou o menor valor. O dado sugere que, apesar da menor taxa de ataque, o predador pode manter consumo relevante quando encontra a presa em ambientes com determinados resíduos químicos.
Além do comportamento predatório, o estudo analisou a toxicidade direta dos inseticidas. Os adultos de X. sordidus ficaram expostos ao resíduo seco das formulações, em doses máximas recomendadas. A mortalidade foi avaliada após uma hora e após 24 horas. Os resultados iniciais não indicaram efeito letal imediato.
Com o prolongamento da exposição, a mortalidade aumentou de forma progressiva. Ambos os princípios ativos levaram a 100% de mortalidade até o sexto dia. O efeito ocorreu de maneira tardia. O intervalo de até 72 horas apresentou sobrevivência elevada. Esse período coincide com a janela considerada crítica para a atuação do predador após a liberação em campo .
A toxicidade indireta também entrou na análise. Nesse caso, os predadores alimentaram-se de ovos contaminados. A avaliação mediu a longevidade dos adultos ao longo do tempo. Os resultados não apontaram redução na sobrevivência quando comparados ao controle. No tratamento com lufenuron, a longevidade superou a do grupo sem inseticida.
O dado indica que a ingestão de presas contaminadas não comprometeu o desempenho vital do predador. O efeito sugere baixa toxicidade subletal de lufenuron quando ingerido indiretamente. O resultado reforça a seletividade do produto em relação a inimigos naturais, ao menos nas condições testadas em laboratório.
O trabalho foi desenvolvido por Sarah C. da Silva, Ariane Assine, Vinicius F. Nascimento, Leticia B. Lacerda, Noemi M. L. de Oliveira, Lucas Bernardi, Dagmara G. Ramalho e Sergio A. De Bortoli.
Mais informações em doi.org/10.37486/1809-8460.ba21001
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