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Controlar plantas daninhas sem prejudicar a cultura que divide com elas espaço, água e nutrientes é uma das equações centrais do manejo agrícola. O desafio ganha dimensão diante da expansão das áreas cultivadas no país. Para a safra 2026/2027, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 85,3 milhões de hectares destinados à produção de grãos no Brasil, crescimento de 1,8 milhão de hectares em relação ao ciclo anterior. A canola também vem ampliando espaço: somente no Rio Grande do Sul, a área destinada à cultura cresceu 52,5% em 2026, passando de 209,9 mil para 320,1 mil hectares.
Nesse cenário, a eficiência de um herbicida não depende apenas de sua capacidade de eliminar plantas daninhas, o produto precisa fazer isso sem provocar danos significativos à cultura agrícola. Essa propriedade é conhecida como seletividade e está por trás, por exemplo, do desenvolvimento de híbridos capazes de tolerar determinados princípios ativos enquanto as espécies indesejadas são controladas.
A chegada da nanotecnologia às formulações agrícolas acrescentou uma nova pergunta a essa equação. Encapsular moléculas herbicidas em estruturas nanométricas pode alterar sua liberação, disponibilidade e interação com as plantas, mas, ao mudar a maneira como o produto atua, a nanoencapsulação poderia também fazer com que uma cultura desenvolvida para tolerar determinado herbicida perdesse essa proteção?
Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), parceiros do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), traz novas evidências para responder a essa questão. Em plantas de canola tolerantes às triazinas, a atrazina nanoencapsulada em zeína apresentou maior seletividade que a formulação convencional, provocando menor impacto inicial sobre o fotossistema II e sem reduzir a massa seca das plantas.
O trabalho “Seletividade de triazinas convencionais e nanoformulada em canola”, do doutorando em Agronomia da UEL José Flavio Firmani, foi apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro da Ciência das Plantas Daninhas, realizado em agosto de 2026, em Foz do Iguaçu (PR). A pesquisa, desenvolvida em parceria com o professor Giliardi Dalazen, foi reconhecida como “Destaque Apresentação Pôster” na área de manejo de plantas daninhas em culturas oleaginosas e proteicas.
Para avaliar se a nanoencapsulação poderia interferir na seletividade, os pesquisadores compararam dois híbridos de canola: um sensível e outro tolerante às triazinas. As plantas foram submetidas à aplicação de atrazina convencional, atrazina nanoencapsulada em zeína e terbutilazina. O desenho experimental permitiu testar uma questão essencial para uma futura aplicação da tecnologia. Se a nanoformulação modifica a forma como a atrazina interage com as plantas, era necessário verificar se o mecanismo que protege o híbrido tolerante continuaria funcionando.
Os resultados mostraram uma diferença clara entre os dois materiais. O híbrido sensível sofreu danos severos e não suportou os tratamentos. O tolerante, por sua vez, respondeu melhor às aplicações dos herbicidas, demonstrando que a tolerância às triazinas foi preservada também diante da formulação nanoencapsulada. A comparação entre as duas formas de atrazina trouxe outro resultado relevante. No híbrido tolerante, a versão nanoencapsulada apresentou menor impacto inicial sobre o fotossistema II, estrutura diretamente envolvida nas reações da fotossíntese e alvo da ação das triazinas. Além disso, não houve redução da massa seca das plantas tolerantes.
Na prática, a seletividade estabelece uma espécie de margem de segurança para o manejo: o herbicida precisa atingir a planta daninha em intensidade suficiente para controlá-la sem provocar prejuízos inaceitáveis à cultura. É nesse ponto que o resultado da nanoencapsulação se torna relevante. Nas condições avaliadas, colocar a atrazina em uma estrutura de zeína não tornou o híbrido tolerante mais vulnerável ao princípio ativo. Pelo contrário, a formulação nanoencapsulada apresentou maior seletividade que a atrazina convencional.
A descoberta ajuda a responder uma questão necessária para o avanço de nanoherbicidas: melhorar a forma de entrega de um princípio ativo não pode ocorrer às custas da segurança da própria cultura. Os resultados indicam que sistemas nanoestruturados podem ser desenvolvidos preservando essa diferença entre a planta que deve ser controlada e aquela que precisa permanecer produtiva. Isso não significa que qualquer herbicida se tornará mais seletivo ao ser nanoencapsulado. A resposta depende da molécula, da nanoformulação, da cultura e dos mecanismos envolvidos na tolerância. O trabalho demonstra, especificamente, como a atrazina encapsulada em zeína se comportou nos híbridos de canola avaliados.
José Flavio Firmani investiga a atrazina nanoencapsulada desde o mestrado, também em parceria com pesquisadores ligados ao INCT NanoAgro. Os trabalhos anteriores foram direcionados ao manejo de plantas daninhas na cultura do milho e investigaram o potencial da nanotecnologia para aumentar a eficiência do herbicida. A pesquisa com canola acrescenta outra dimensão ao problema. Além de perguntar quanto herbicida é necessário para controlar uma planta daninha, passa a investigar como uma nova formulação afeta a cultura que recebe essa aplicação.
Essa diferença é relevante para o desenvolvimento de novos produtos porque a nanotecnologia pode permitir mudanças no desempenho de moléculas que já fazem parte do manejo agrícola. A inovação, nesse caso, não depende necessariamente da descoberta de um novo princípio ativo, mas da construção de sistemas capazes de modificar como ele é disponibilizado e interage com as plantas.
O reconhecimento recebido no XXXIV Congresso Brasileiro da Ciência das Plantas Daninhas também destaca pesquisas desenvolvidas por parceiros da rede do INCT NanoAgro em diferentes etapas da formação científica. Ao investigar simultaneamente eficiência e seletividade, os estudos avançam sobre uma questão necessária para levar nanoformulações do laboratório ao campo: fazer com que a tecnologia seja mais eficiente contra o alvo sem aumentar o dano à cultura que se pretende proteger.
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