Mistura de solos reforça controle biológico de doenças do trigo

Transplante de solo supressivo limitou três fungos e melhorou atributos das plantas em ensaio com trigo na Índia

07.10.2026 | 09:25 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: Wenderson Araujo / CNA
Foto: Wenderson Araujo / CNA

A incorporação de 1% de solo orgânico com histórico de supressão de doenças ao solo convencional resultou em menor severidade de doenças e favoreceu o desenvolvimento do trigo em experimento conduzido na Índia. O tratamento apresentou desempenho próximo ao do solo 100% orgânico em vários parâmetros. Os pesquisadores avaliaram a resposta contra Fusarium oxysporum, Rhizoctonia solani e Sclerotium rolfsii, três fitopatógenos com ampla gama de hospedeiros.

O trabalho investigou o transplante de solo como estratégia para transferir características supressivas de uma área orgânica para um solo considerado conducivo às doenças. A área de origem estava sob manejo orgânico havia cerca de 22 anos. O experimento ocorreu entre novembro de 2023 e abril de 2024 no ICAR-IARI, em Nova Délhi. A equipe utilizou a cultivar de trigo HD 2967 e testou misturas com 1%, 5%, 10%, 15% e 20% de solo orgânico. Solo convencional sem adição e solo totalmente orgânico serviram como controles.

Mistura de solo

Os vasos receberam 12 quilogramas da mistura de solo. Cada tratamento contou com três vasos independentes e cinco plantas por vaso. Os pesquisadores mantiveram os recipientes ao ar livre, em condições naturais, e inocularam cada patógeno em uma área experimental distinta. Uma segunda inoculação, no florescimento, testou a durabilidade do efeito supressivo sob pressão contínua de doença.

A menor proporção testada, de 1%, apresentou resultados relevantes para o controle dos patógenos. Em ensaios de laboratório, os pesquisadores confrontaram micro-organismos cultivados a partir das amostras de solo com os fungos patogênicos em placas de cultura.

Contra Fusarium oxysporum, a fração fúngica do solo totalmente orgânico inibiu 76,84% do crescimento do patógeno. A mistura com 1% alcançou 71,25%, o segundo melhor resultado, embora a diferença em favor do solo orgânico tenha sido estatisticamente significativa. O padrão se repetiu nas avaliações com a fração bacteriana e nos testes com os outros dois fungos.

Dose e resposta

A resposta não aumentou de forma proporcional à dose de solo orgânico. As análises indicaram relações não lineares entre a quantidade adicionada e a supressão dos patógenos, sobretudo nas respostas da fração fúngica. Na fração bacteriana, a associação com a dose foi significativa, mas sem evidência de curvatura.

Em várias combinações, doses menores apresentaram maior atividade supressiva do que níveis intermediários. Os pesquisadores ressaltam, porém, um ponto importante: o experimento não permite definir 1% como dose mínima efetiva. O estudo avaliou apenas as proporções estabelecidas no desenho experimental.

Incidência e severidade de doenças

Os efeitos apareceram também na incidência e na severidade das doenças nas plantas. Em solo convencional inoculado com Fusarium oxysporum, a incidência chegou a 93,33% e a severidade, a 62,22%. Entre as misturas, a de 1% teve a menor severidade no florescimento (54,77%), embora a menor incidência nessa fase tenha ocorrido com 20% de solo orgânico (80%).

Na colheita, a dose de 1% registrou os menores valores entre as misturas nas duas variáveis: incidência de 75% e severidade de 50%. O mesmo tratamento teve a menor incidência e a menor severidade entre as misturas para Rhizoctonia solani, no florescimento, e para Sclerotium rolfsii. Os cientistas compararam esses índices apenas de forma descritiva, sem teste estatístico.

Atributos de crescimento

A mistura influenciou ainda atributos de crescimento. Sob infecção por Rhizoctonia solani, o tratamento com 1% de solo orgânico produziu 3,56 gramas de grãos, contra 2,41 gramas no solo convencional, diferença estatisticamente significativa. Sob infecção por Fusarium oxysporum, a maior massa seca de raízes também ocorreu na dose de 1%, com 1,62 grama, contra 0,69 grama no solo convencional infectado.

Nem todos os indicadores favoreceram a dose de 1%. O solo totalmente orgânico proporcionou o maior comprimento de espiga com os três patógenos e, conforme o patógeno, também maior massa de grãos ou de raízes. Sob Sclerotium rolfsii, por exemplo, o solo 100% orgânico produziu 6,57 gramas de grãos, contra 3,55 gramas na mistura com 1%. Os dados, portanto, apontam vantagem da baixa dose sobre as demais misturas em diversas respostas, mas não mostram superioridade uniforme em todos os parâmetros.

Maior inibição

A fase de florescimento concentrou a maior inibição dos patógenos nos ensaios de laboratório. Nesse período, os pesquisadores também detectaram maior atividade de indicadores ligados ao potencial antagonista do solo. O solo totalmente orgânico registrou os maiores níveis de produção de sideróforos e de atividade das enzimas lipase, protease, celulase e quitinase. Entre as misturas, a de 1% liderou. A exceção ocorreu sob infecção por Rhizoctonia solani: protease e quitinase não variaram entre os tratamentos, exceto nos de solo totalmente orgânico.

As correlações encontradas associaram parte da supressão dos patógenos às atividades enzimáticas e à disponibilidade de fósforo e potássio. Essa relação sugere participação da atividade microbiana no biocontrole, mas se trata de associação, não de prova de causa e efeito. Os pesquisadores também observaram que a infecção pelos patógenos coincidiu com maior atividade enzimática no solo, sem demonstrar que uma provocou a outra.

Componentes modificados

O transplante também modifica componentes além da microbiota. A mistura leva ao solo convencional matéria orgânica, nutrientes, metabólitos e componentes minerais presentes no solo de origem. Os cientistas atribuem os benefícios sobretudo ao aumento da atividade microbiana e enzimática, mas o estudo não mediu a abundância nem a composição das comunidades de micro-organismos.

Os pesquisadores consideram necessária a análise da estrutura das comunidades microbianas, por técnicas de sequenciamento, para esclarecer os processos envolvidos. Também recomendam ensaios em diferentes locais. Os resultados atuais derivam de solos provenientes de áreas específicas sob manejo orgânico e convencional, o que limita a extrapolação direta para outros ambientes agrícolas. Os cientistas reconhecem ainda que a posição dos vasos não foi definida por sorteio, procedimento usado para reduzir a influência de variações do ambiente nos resultados.

Mesmo com essas ressalvas, o trabalho indica potencial para o uso de pequenas quantidades de solo supressivo na modulação biológica de áreas suscetíveis a doenças. A estratégia poderá apoiar programas de manejo voltados à redução de fitopatógenos do solo, desde que estudos futuros confirmem a eficiência em outras condições de cultivo e determinem doses, duração do efeito e momento de aplicação (doi 10.1016/j.plantsci.2026.113491).

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