Mirmecocoria ganha relevância diante de mudanças ambientais

Estudo aponta riscos da urbanização, do clima e de formigas invasoras para a dispersão de sementes por formigas

29.06.2026 | 16:56 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Seongwon Yun - DOI doi.org/10.3390/insects17070677
Foto: Seongwon Yun - DOI doi.org/10.3390/insects17070677

A dispersão de sementes por formigas pode ganhar importância nas estratégias de conservação de plantas ameaçadas, raras e endêmicas em regiões temperadas da Ásia Oriental. Revisão científica aponta vulnerabilidades desse processo diante da urbanização, das mudanças climáticas e da invasão biológica por formigas exóticas (DOI doi.org/10.3390/insects17070677).

A mirmecocoria consiste na dispersão de sementes mediada por formigas. O processo depende, em muitos casos, do elaiossomo, uma estrutura rica em compostos nutritivos presa à semente. As formigas coletam o diásporo, transportam o material até o ninho ou áreas próximas, consomem o elaiossomo e descartam a semente. Esse descarte pode favorecer a germinação, reduzir a predação e afastar a plântula da planta-mãe.

Três hipóteses

Os pesquisadores revisaram três hipóteses principais para explicar a vantagem ecológica da mirmecocoria. A primeira envolve a dispersão direcionada. Nesse caso, as formigas levam sementes para locais com melhores condições de germinação, como solos modificados pela atividade dos ninhos. A segunda envolve a dispersão por distância, pois o transporte reduz a competição entre planta-mãe e descendentes. A terceira envolve a fuga de predadores, pois as formigas retiram sementes antes do consumo por besouros, roedores ou aves.

A revisão aponta ampla distribuição do fenômeno. A mirmecocoria ocorre em todos os principais biomas, exceto na Antártica. Estimativas citadas no artigo indicam mais de 11 mil espécies de plantas mirmecocóricas no mundo, distribuídas em 334 gêneros e 77 famílias. A estratégia aparece com frequência em formações secas da Austrália e no fynbos sul-africano, além de florestas temperadas do Hemisfério Norte.

Na Coreia do Sul, os pesquisadores identificaram 130 espécies mirmecocóricas, em 32 gêneros, 21 famílias e 14 ordens. Violaceae apresentou o maior número de espécies, com 50. Papaveraceae apareceu em seguida, com 36. A lista inclui espécies ameaçadas, raras e endêmicas, principalmente dos gêneros Viola e Corydalis.

Grupos de formigas

O trabalho também revisou os grupos de formigas envolvidos. Os pesquisadores identificaram gêneros mirmecocóricos em seis subfamílias: Myrmicinae, Formicinae, Dolichoderinae, Ponerinae, Ectatomminae e Aneuretinae. Myrmicinae, Dolichoderinae e Formicinae concentraram o maior número de gêneros associados ao transporte de sementes.

As formigas não apresentam adaptações morfológicas exclusivas para a mirmecocoria. Mesmo assim, diferem na qualidade como dispersoras. Espécies maiores e com comportamento forrageador eficiente tendem a transportar sementes por distâncias maiores. Espécies menores podem remover apenas o elaiossomo ou deslocar sementes por curtas distâncias.

A urbanização surge como uma ameaça relevante. A fragmentação de habitats, a perda de áreas verdes, as mudanças no solo e o efeito de ilha de calor podem alterar a comunidade de formigas. Essas alterações podem romper interações entre plantas nativas e dispersoras nativas. Em alguns casos, porém, formigas dominantes em ambientes urbanos podem manter ou até ampliar a dispersão de certas sementes.

Invasões biológicas

As invasões biológicas representam outro risco. Formigas exóticas podem substituir dispersoras nativas, aumentar a predação de sementes ou favorecer plantas invasoras. A revisão cita casos em regiões como Austrália e América do Norte, onde espécies invasoras dispersam sementes de plantas exóticas e contribuem para processos de invasão secundária.

As mudanças climáticas também podem afetar o processo. O aquecimento pode alterar a distribuição e a atividade das formigas. Em regiões temperadas, algumas espécies podem expandir sua área de ocorrência. Em regiões tropicais, temperaturas extremas podem reduzir a sobrevivência de formigas sensíveis ao calor. O estudo destaca ainda o risco de descompasso fenológico entre a produção de sementes pelas plantas e o período de atividade das formigas.

Compartilhar

Newsletter Cultivar

Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura

acessar grupo whatsapp