Lagartas terrestres exibem diferentes formas de nado

Estudo identifica respostas à água em 32 espécies de Lepidoptera e propõe classificação de movimentos

04.10.2026 | 16:38 (UTC -3)
Revista Cultivar
doi 10.1093/jisesa/ieag100
doi 10.1093/jisesa/ieag100

Lagartas terrestres de diferentes grupos de Lepidoptera conseguem executar movimentos coordenados sobre a água, inclusive formas de nado capazes de produzir deslocamento. Pesquisadores analisaram 83 lagartas, pertencentes a 32 espécies e 16 famílias, e registraram 117 eventos comportamentais após o contato dos insetos com a água. O trabalho identificou quatro padrões de movimento direcional e cinco respostas sem deslocamento direcionado.

Cientistas reuniram observações de campo, registros produzidos por colaboradores e vídeos disponíveis em fontes públicas. Do total avaliado, 60 lagartas vieram de observações diretas e 23 de registros obtidos por colaboração pública. Nas observações próprias, os pesquisadores colocaram as lagartas sobre água doce e as acompanharam por 10 a 60 segundos. A equipe classificou todas as respostas por consenso.

Movimento direcional

A análise detalhada registrou movimento direcional em cinco famílias: Crambidae, Erebidae, Lasiocampidae, Noctuidae e Pterophoridae. Os pesquisadores definiram movimento direcional como o avanço do inseto na interface entre ar e água. Erebidae e Lasiocampidae apresentaram a maior variedade de formas de deslocamento.

A equipe classificou quatro formas de deslocamento. No padrão denominado side-flick, a lagarta flexiona lateralmente a região mediana do corpo e se projeta para o lado sobre a superfície. No tail-flick, o inseto dobra segmentos posteriores do abdome e golpeia a água. O movimento gera propulsão e pode formar uma pequena onda.

O terceiro padrão recebeu o nome de S-wave. Nesse comportamento, a lagarta produz ondulações laterais do corpo e avança pela superfície. Esse movimento apareceu com maior frequência entre as formas direcionais e ocorreu principalmente em Erebidae. Os pesquisadores registraram o padrão em espécies como Lymantria dispar e Spilosoma virginica. A locomoção difere do rastejamento usado pelas lagartas em substrato terrestre.

O quarto tipo, chamado W-wave, envolve ondulações do corpo em direção perpendicular à superfície da água. O movimento também produz avanço. Esse padrão foi pouco frequente, com quatro registros, em representantes de Erebidae e Crambidae.

Sem direção definida

As respostas sem direção definida apareceram em quase todas as famílias avaliadas. Onze famílias não apresentaram nenhuma forma de deslocamento direcional. A classificação incluiu cinco padrões: tentativa de caminhar sobre a água, enrolamento do corpo em formato circular, imobilidade com o corpo estendido, movimentação irregular e permanência em posição quase vertical com parte do corpo submersa.

A última postura ocorreu apenas entre Sphingidae nas observações do estudo. Nela, a lagarta mantém a parte anterior acima da superfície e deixa a região posterior submersa. Os pesquisadores registraram quatro ocorrências. Segundo a hipótese dos autores, em águas rasas o corpo robusto dessas lagartas permitiria tocar o fundo e se impulsionar contra o sedimento. A equipe aponta a necessidade de filmagens em alta velocidade, sob condições controladas, para esclarecer a biomecânica desse comportamento.

Lagartas que afundam

Algumas lagartas também afundaram após o contato com a água. Nesses casos, a equipe observou respostas como formação de bolhas nos espiráculos e presença de uma camada de ar ao redor do corpo. Estruturas externas, principalmente pelos e cerdas, podem contribuir para flutuação e retenção de ar. O estudo cita evidências anteriores nas quais lagartas com cobertura pilosa permaneceram na superfície, enquanto indivíduos após remoção dos pelos afundaram.

A retenção de ar também pode favorecer a formação de plastrão durante a submersão. Esse mecanismo mantém uma camada gasosa em contato com o corpo e permite que o inseto continue respirando debaixo d'água. Os pesquisadores observaram formação semelhante de plastrão em alguns indivíduos submersos, como larvas de Hesperiidae. Eles apontam densidade, formato e microestrutura das cerdas como características relevantes para estudos sobre flutuação, estabilidade do plastrão e locomoção na superfície.

Transições entre comportamentos

As observações também mostraram transições entre comportamentos. Muitas lagartas permaneceram imóveis logo após o contato com a água. Em um dos casos, uma lagarta de Noctuidae primeiro se enrolou em formato circular, depois estendeu o corpo e passou a se agitar de forma irregular. Já lagartas associadas a plantas aquáticas ou de ambientes ripários aproximaram-se ativamente da margem e realizaram deslocamento direcional. Os pesquisadores consideram essas respostas possíveis mecanismos de escape após contato acidental com água. O deslocamento também pode favorecer movimentação entre plantas hospedeiras ou através de ambientes inundados e fragmentados.

O levantamento amplia os registros sobre interação de lagartas terrestres com ambientes aquáticos. Menos de um por cento das espécies de Lepidoptera possui larvas exclusivamente aquáticas, segundo informações reunidas no estudo. Mesmo assim, espécies terrestres podem encontrar água em margens de lagos, rios, poças temporárias ou vegetação suspensa sobre cursos d'água.

Os pesquisadores destacam limitações na amostragem. A coleta ocorreu de forma oportunista e favoreceu lagartas grandes, em estádios larvais avançados e de grupos mais visíveis. A equipe recomenda experimentos padronizados, filmagem em alta velocidade e amostragem mais ampla entre estádios de desenvolvimento, tamanhos corporais, habitats e linhagens evolutivas. Esses estudos poderão esclarecer os mecanismos biomecânicos e neurais envolvidos no deslocamento sobre a água e avaliar em que medida essas respostas surgiram de forma independente durante a evolução dos Lepidoptera (doi 10.1093/jisesa/ieag100).

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