Fungo Corynespora cassiicola causa mancha-alvo em ipês no Brasil

Estudo confirma patógeno em Handroanthus serratifolius e Tabebuia rosea

03.06.2026 | 15:09 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
doi.org/10.1111/jph.70329
doi.org/10.1111/jph.70329

Pesquisadores confirmaram Corynespora cassiicola como agente causal da mancha-alvo em mudas de Handroanthus serratifolius e Tabebuia rosea no Brasil. O registro envolve plantas em viveiro florestal de São Lourenço da Mata, em Pernambuco. O trabalho representa o primeiro relato mundial confirmado por filogenia molecular para esses dois hospedeiros.

As folhas com sintomas foram coletadas em março de 2023. As mudas apresentavam manchas necróticas marrom-escuras com centros acinzentados. Os sintomas tinham padrão típico de mancha-alvo. O viveiro mantinha cerca de 500 mudas de cada espécie. A incidência da doença alcançava 80 por cento.

Handroanthus serratifolius, conhecido como ipê-amarelo, e Tabebuia rosea, conhecido como ipê-rosa, têm importância ecológica e econômica no Brasil. As espécies ocorrem em arborização urbana e vegetação nativa. Apesar da rusticidade, podem sofrer doenças em áreas urbanas, ecossistemas naturais e viveiros.

Três folíolos

Os cientistas coletaram três folíolos de cada espécie hospedeira. Fragmentos sintomáticos passaram por assepsia superficial em etanol a 70 por cento por 1 minuto, hipoclorito de sódio a 1 por cento por 1 minuto, lavagem em água destilada esterilizada e secagem em capela de fluxo laminar. Depois, os fragmentos seguiram para meio batata-dextrose-ágar com 0,5 grama por litro de sulfato de estreptomicina.

As placas permaneceram a 28 graus Celsius, com fotoperíodo de 12 horas. Após 21 dias, os pesquisadores obtiveram seis isolados monospóricos. As colônias apresentaram coloração marrom-escura, textura aveludada, margens bem definidas e micélio aéreo abundante.

Caracterização morfológica

A caracterização morfológica indicou hifas septadas e marrom-claras. Os conidióforos apareceram macronemáticos, mononemáticos, solitários, retos a levemente curvos, lisos e afilados. As células conidiogênicas apresentaram padrão monofialídico. Os conídios surgiram solitários ou em cadeias, retos a levemente curvos, obclavados, marrom-claros e com quatro a dez pseudoseptos. As medidas variaram de 63,5 a 234,7 micrômetros por 7,2 a 9,6 micrômetros.

Com base nessas características, os isolados receberam identificação inicial como Corynespora spp. Os caracteres observados coincidiram com descrições de Corynespora cassiicola, sobretudo pela morfologia dos conídios, septação, pigmentação e estrutura dos conidióforos.

Dois isolados seguiram para análise molecular. O CFC 1784 veio de Handroanthus serratifolius. O CFC 1785 veio de Tabebuia rosea. Os pesquisadores extraíram DNA total e amplificaram regiões ITS, TEF-1α, TUB2 e LSU. As sequências foram depositadas no GenBank.

As buscas por BLAST mostraram alta similaridade com isolados de Corynespora cassiicola. As sequências ITS apresentaram 100 por cento de similaridade. As sequências TEF-1α também apresentaram 100 por cento. As sequências TUB2 alcançaram 99,77 por cento. As sequências LSU alcançaram 99,55 por cento.

Análise filogenética

A análise filogenética de máxima verossimilhança usou sequências combinadas dos quatro marcadores. A árvore agrupou os isolados CFC 1784 e CFC 1785 com Corynespora cassiicola CBS100822. O clado recebeu suporte de 93,9 por cento. Os isolados foram depositados na Coleção de Fungos Fitopatogênicos do Cariri, da Universidade Federal do Cariri, em Crato, no Ceará.

Os testes de patogenicidade envolveram plantas sadias de Handroanthus serratifolius e Tabebuia rosea, com 1 ano de idade, cultivadas em vasos plásticos. As plantas receberam pulverização com 10 mililitros de suspensão conidial, na concentração de 2 × 10⁴ conídios por mililitro. As plantas controle receberam água esterilizada.

Cada isolado e o tratamento controle tiveram dez plantas por espécie. As plantas ficaram cobertas com sacos plásticos para simular câmara úmida, com cerca de 85 por cento de umidade relativa, durante sete dias. Depois, permaneceram em casa de vegetação, sob temperatura de 24 graus Celsius a 30 graus Celsius.

Dois meses após a inoculação, as folhas inoculadas exibiram sintomas semelhantes aos observados no viveiro. As plantas de controle permaneceram assintomáticas. Os patógenos foram reisolados e mantiveram a mesma morfologia dos isolados inoculados. Assim, os testes cumpriram os postulados de Koch.

Os pesquisadores informam relato anterior de Corynespora cassiicola associado à mancha foliar em Handroanthus serratifolius e Tabebuia rosea no Brasil, publicado em 1980. A identificação daquele registro teve base apenas em características morfológicas. O novo estudo acrescenta confirmação por filogenia molecular multilocus.

Realizaram o estudo os cientistas Ingryd Luzia de Farias Andrade, André Nunes de Oliveira, Ana Gabriele Gurgel Amaral, Kamila Câmara Correia, Rosana Blawid, Humberson Rocha Silva, Marcos Paz Saraiva Câmara e Sami Jorge Michereff.

Outras informações em doi.org/10.1111/jph.70329

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Por que isso importa?

A descoberta de que o fungo Corynespora cassiicola - causador da mancha-alvo na soja - infecta ipê-amarelo e ipê-rosa é importante para sojicultores. A mancha-alvo causa perdas de até 40% na produtividade da soja no Brasil (DOI: 10.1111/ppa.12925).

As espécies nativas, comuns em viveiros e áreas rurais, podem atuar como reservatórios perenes do patógeno, contribuindo para a manutenção do inóculo entre safras.

Esta é a primeira confirmação molecular da doença nesses hospedeiros no mundo. O achado amplia o conhecimento sobre o amplo espectro de hospedeiros de Corynespora cassiicola e sua epidemiologia, apoiando estratégias de manejo integrado mais completas, como o monitoramento de plantas ornamentais próximas às lavouras e a rotação de culturas.

A descoberta não altera as práticas imediatas de controle, mas fortalece a base científica para proteger a soja de forma mais eficaz.

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