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Os bioinsumos ampliaram sua participação no manejo da soja brasileira e já oferecem alternativas aos defensivos químicos em determinadas aplicações. Pesquisa conduzida pelo professor Gabriel da Silva Medina, da Universidade de Brasília (UnB), identificou possibilidades de substituição de nematicidas e fungicidas, principalmente em tratamentos preventivos e situações de baixa pressão de doenças. Para o controle de insetos, os produtos biológicos predominam como ferramentas complementares aos defensivos convencionais.
O estudo analisou o portfólio comercial de inoculantes, biofungicidas, bioinseticidas e bionematicidas disponíveis no Brasil. A investigação também avaliou o posicionamento agronômico dessas tecnologias e estimou sua adoção em oito regiões produtoras de soja.
Os resultados indicam diferenças entre categorias de produtos e sistemas produtivos. Os inoculantes apresentam a adoção mais consolidada. Os bionematicidas ganharam espaço como alternativas aos nematicidas sintéticos. Biofungicidas passam a ser posicionados como substitutos de aplicações químicas em determinadas fases da cultura.
A pesquisa utilizou informações de bulas, recomendações técnicas, entrevistas com representantes de empresas e revisão de estudos científicos. As estimativas de adoção partiram de consultas a representantes comerciais. Portanto, os percentuais representam avaliações desses profissionais, não medições estatísticas da adoção nacional.
Santa Catarina apresentou a maior média de adoção entre as oito categorias avaliadas, com 58,8%. O Distrito Federal alcançou 54,7%. Na sequência apareceram Piauí, com 43%, Bahia, com 42,5%, São Paulo, com 37,5%, e Triângulo Mineiro, com 31,3%.
Rio Grande do Sul e Pará registraram as menores médias, com 21,8% e 21,4%, respectivamente.
Os inoculantes lideraram a utilização em todas as regiões, embora tenham dividido a liderança com os solubilizadores de nutrientes em Santa Catarina. As estimativas variaram de 60% dos produtores no Rio Grande do Sul a 99% no Piauí. Bahia, Triângulo Mineiro, Pará e Distrito Federal alcançaram índices de 90%.
Os bionematicidas apresentaram adoção estimada de 70% na Bahia, 60% no Piauí e em São Paulo e 50% em Santa Catarina e no Distrito Federal. No Pará, os representantes consultados não identificaram utilização dessa categoria.
Santa Catarina também apresentou índices elevados para solubilizadores de nutrientes, com 80%, e bioinseticidas à base de Bacillus thuringiensis, com 70%.
No Distrito Federal, a adoção estimada de inseticidas à base de fungos alcançou 80%. Os produtos com Bacillus thuringiensis chegaram a 70%.
A pesquisa identificou mudanças no posicionamento comercial dos biofungicidas foliares a partir de 2025. Algumas empresas passaram a recomendar produtos biológicos como substitutos de fungicidas químicos multissítios nas aplicações iniciais do desenvolvimento vegetativo da soja.
Uma das estratégias comerciais analisadas prevê aplicação exclusivamente biológica no estádio V3. No estádio V5, recomenda a combinação de biofungicida com fungicida químico sítio-específico. A partir de R1, o programa passa a utilizar fungicidas químicos multissítios e sítio-específicos.
O posicionamento representa uma possibilidade de redução de aplicações químicas. Entretanto, sua viabilidade depende da pressão de doenças, da eficácia do produto e das condições de manejo.
Os biofungicidas foliares disponíveis no mercado brasileiro utilizam principalmente bactérias do gênero Bacillus. Seus mecanismos incluem antibiose, formação de biofilmes e indução de resistência nas plantas.
Muitas formulações contêm metabólitos como surfactina, iturina e fengicina. Essas substâncias atuam sobre membranas celulares de fungos fitopatogênicos.
Os registros comerciais abrangem doenças como mancha-parda, crestamento foliar de cercospora, antracnose e ferrugem-asiática, causada por Phakopsora pachyrhizi.
Para doenças de solo, predominam produtos formulados com fungos do gênero Trichoderma. Esses microrganismos atuam por parasitismo, competição e antibiose.
No manejo do mofo-branco, causado por Sclerotinia sclerotiorum, espécies de Trichoderma podem parasitar escleródios e reduzir a sobrevivência do patógeno no solo. A pesquisa cita avaliação independente da Embrapa, realizada em 2025, na qual determinados biofungicidas alcançaram até 80% de eficácia no controle da doença.
O levantamento identificou produtos biológicos registrados para os principais nematoides associados às culturas agrícolas brasileiras.
Entre os alvos da soja aparecem Meloidogyne javanica, Meloidogyne incognita, Heterodera glycines, Pratylenchus brachyurus e Rotylenchulus reniformis.
As formulações utilizam principalmente bactérias dos gêneros Bacillus, Pseudomonas e Priestia, além de fungos dos gêneros Trichoderma, Paecilomyces e Pochonia.
As bactérias podem formar biofilmes nas raízes e interferir na localização das plantas hospedeiras pelos nematoides. Os fungos atuam principalmente pelo parasitismo de ovos e juvenis.
O estudo destaca a importância de aplicar os produtos de forma preventiva ou no início da infestação, preferencialmente no sulco de semeadura, no tratamento de sementes ou via solo. Para o manejo de nematoides, aponta a necessidade de um conjunto de métodos. O controle químico pode ser combinado ao biológico, conforme a infestação, as condições de solo e clima, a espécie de nematoide e as culturas em sucessão.
Nenhum produto individual possui registro para controlar todas as espécies de importância econômica. O pesquisador também ressalta que o número de alvos registrados não indica superioridade técnica, apenas o espectro de controle aprovado em bula.
No manejo de lagartas, a pesquisa identificou produtos à base de baculovírus e Bacillus thuringiensis.
Os baculovírus apresentam especificidade para determinadas espécies. Após a ingestão, infectam as lagartas e provocam sua morte, geralmente entre três e sete dias.
Já Bacillus thuringiensis produz proteínas tóxicas ativadas no intestino das lagartas. Sua eficácia depende da ingestão do produto, da cobertura foliar e do momento da aplicação.
Para insetos sugadores, o levantamento destaca produtos formulados com Beauveria bassiana, além de outros fungos entomopatogênicos e bactérias.
A combinação de tecnologias biológicas e químicas oferece mecanismos distintos de ação e pode contribuir para o manejo da resistência. Entretanto, a utilização conjunta exige avaliação prévia de compatibilidade entre formulações, adjuvantes e defensivos.
O estudo também destaca a consolidação da fixação biológica de nitrogênio com Bradyrhizobium na soja. Para solubilização de fósforo e promoção de crescimento, identifica alternativas com Bacillus megaterium, Bacillus subtilis, Pseudomonas fluorescens e Azospirillum brasilense (doi 10.18488/cras.v13i2.5193).
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