Endividamento rural cresce e acende alerta no agronegócio

Farsul indica que alta dos juros e falhas na renegociação ampliam o problema

06.01.2026 | 17:03 (UTC -3)
Farsul

A saúde financeira do agronegócio brasileiro acendeu um sinal de alerta. Em Nota Técnica, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), utilizando dados do Banco Central, aponta que a "carteira estressada" do crédito rural (que soma atrasos, inadimplência e dívidas renegociadas) saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. O crescimento de 71% no período revela uma deterioração acelerada, concentrada principalmente nos últimos meses.

Atualmente, cerca de 15% de toda a carteira ativa de crédito rural no Brasil (estimada em R$ 812,7 bilhões) encontra-se sob algum tipo de estresse financeiro. Diferente de crises anteriores, o quadro atual no Brasil não é provocado por questões climáticas. A Farsul enfatiza que o país registrou uma safra recorde em 2025, o que reforça que o problema é econômico.

A entidade aponta o nível elevado da taxa de juros como o principal ofensor, mas faz uma ressalva importante: a culpa não é da autoridade monetária. "A raiz está no desequilíbrio fiscal, que pressiona a inflação e obriga a manutenção de juros altos", afirma o documento, reiterando o apoio às decisões do Copom no controle inflacionário.

A análise da execução da Medida Provisória nº 1.314/2025 e da Resolução CMN nº 5.247/2025 revela distorções que preocupam os produtores. Dos R$ 28,2 bilhões renegociados até dezembro de 2025, apenas 19% (R$ 5,4 bilhões) utilizaram recursos públicos com juros subsidiados. 81% (R$ 22,8 bilhões) foram renegociados com recursos livres, sujeitos a taxas de mercado.

Para a Farsul, renegociar dívidas a juros de mercado em um cenário de Selic elevada pode transformar a solução em um problema maior. Com carência e parcelamento, o saldo devedor tende a crescer, criando uma acumulação exponencial do passivo que pode levar a novos episódios de estresse no futuro.

Outro ponto crítico é a focalização dos valores. Enquanto o Tesouro Nacional direcionou boa parte de seus recursos ao Pronaf e Pronamp, os "demais produtores", que detêm o maior volume de endividamento em condições mais caras, acabaram recorrendo quase exclusivamente aos juros de mercado. Dos R$ 22,8 bilhões renegociados via recursos livres, 100% foram destinados a este grupo, evidenciando a falta de efetividade da política pública para o segmento.

O cenário para o curto prazo não é animador. A previsão é que a situação do crédito rural continue a piorar no primeiro semestre de 2026, com uma possível estabilização apenas após o mês de maio, dependendo da normalização fiscal e da ausência de novos choques econômicos.

Como saída para a crise, a Farsul defende a aprovação urgente do PL 5.122, atualmente em tramitação no Senado, visto como uma alternativa mais adequada para estruturar o endividamento do setor. A entidade também recomenda a redução da dependência de renegociações a juros de mercado. Além de acelerar soluções que ataquem o núcleo do problema fiscal brasileiro e recalibrar os mecanismos de apoio para que alcancem os produtores mais expostos aos juros livres.

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