Conflito no Oriente Médio muda eixo das commodities no 2º tri

Relatório trimestral da StoneX mostra inflexão nas expectativas, com energia no epicentro e efeitos em fertilizantes

14.04.2026 | 10:39 (UTC -3)
Valéria Campos

A escalada da guerra entre EUA-Israel e Irã não apenas adicionou mais uma camada de complexidade a mercados financeiros e de commodities que já operavam sob elevada imprevisibilidade, ela redefiniu o mapa de riscos para este trimestre. Este é o “pano de fundo” da 35ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, lançado nesta terça-feira (14/4): a volta do risco como variável central, com transbordamentos que conectam geopolítica, energia, logística, custos de produção e, por fim, preços de matérias-primas e alimentos.

De acordo com a StoneX, empresa global de serviços financeiros, a combinação entre tensões comerciais, escalada militar no Oriente Médio e ruídos macroeconômicos redesenhou os fundamentos de oferta e demanda e elevou a volatilidade em diferentes mercados. Desde abril de 2025, a economia global passou a conviver com uma política comercial mais incisiva e imprevisível dos Estados Unidos, que contribuiu para rearranjos nas relações internacionais e nas cadeias de suprimento, ampliando custos de produção e gerando impactos heterogêneos entre setores. Paralelamente, o conflito no Oriente Médio extrapolava as fronteiras de Gaza e se converteu, mais recentemente, em uma guerra aberta envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, com ataques devastadores ao Líbano e a outros alvos na região, incluindo instalações petrolíferas e siderúrgicas.

Nesse contexto, o fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde transitam cerca de 20% da oferta global de petróleo e de GNL e parte expressiva das exportações de fertilizantes do Golfo Pérsico, desencadeou choques severos sobre a oferta de energia, logística marítima e custos da produção agrícola ao redor do mundo. O cessar-fogo de duas semanas, anunciado em 8 de abril, trouxe algum alívio imediato, mas o relatório observa que o acordo permanece frágil, o que limita as expectativas por uma resolução rápida do conflito e das projeções sobre a reabertura efetiva do Estreito e a normalização da navegação.

“O segundo trimestre de 2026 começa com uma mudança estrutural de premissas: o choque geopolítico não afeta apenas o petróleo; ele se espalha por fretes, fertilizantes, custos industriais e, no limite, por preços de alimentos. Isso recoloca a gestão de risco no centro das decisões e exige leitura integrada dos complexos de commodities”, afirma Vitor Andrioli, gerente de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil.

Andrioli ressalta que esses choques se somam a um ambiente macroeconômico já marcado por incertezas relevantes. As preocupações com a independência do Federal Reserve, que ganham tração com a aproximação do encerramento do mandato de Jerome Powell em maio e a expectativa de um sucessor mais alinhado à Casa Branca, adicionam uma dimensão extra de risco aos mercados globais de câmbio e renda fixa. Para o Brasil, em ano eleitoral e com vulnerabilidades fiscais próprias, a leitura do relatório é de que esse conjunto de fatores pode a amplificar a volatilidade cambial e tornar ainda mais desafiadora a administração de riscos nas cadeias de commodities.

“Quando a incerteza se espalha por juros, câmbio e energia ao mesmo tempo, o efeito sobre margens e decisões de compra e venda é imediato. Para o Brasil, o cenário exige ainda mais disciplina em estratégia comercial, hedge e planejamento”, complementa Andrioli.

Um breve olhar sobre as commodities

No complexo de grãos, o início do plantio no Hemisfério Norte coloca o clima dos Estados Unidos no centro da formação de preços, mas agora sob a conjuntura de custos mais elevados. A alta de energia e fertilizantes oferece suporte às cotações, ao mesmo tempo em que pressiona as margens dos produtores. Já no mercado de fertilizantes, o que tradicionalmente seria uma janela de compras mais favorável no segundo trimestre passa a conviver com riscos relevantes de oferta e encarecimento logístico, diretamente influenciados pela instabilidade no Golfo.

Para as commodities energéticas, o componente geopolítico permanece como força dominante de curto prazo. As consequências da guerra sobre a capacidade produtiva e as rotas comerciais dificilmente serão dissipadas rapidamente, mantendo o mercado sensível a qualquer novo desdobramento. “Mesmo em cenários de trégua, os efeitos estruturais sobre logística e custos tendem a persistir, prolongando restrições de oferta”, destaca Andrioli.

Entre as soft commodities, Andrioli destaca que o algodão caminha para um rebalanceamento com redução da sobreoferta, enquanto o café pode enfrentar pressão adicional com a entrada da safra brasileira em ano de bienalidade positiva. No cacau, a recomposição da oferta global, especialmente na África Ocidental, sugere continuidade na trajetória de acomodação dos preços.

Nos metais, o início do ano trouxe sinais mistos. A restrição de oferta sustenta parte das cotações dos metais de base, mas o ambiente de política monetária mais apertada e a busca global por liquidez em dólar, intensificada pelo conflito, contribuíram para a recente correção em metais preciosos como ouro e prata.

Em relação ao câmbio, o real brasileiro tem demonstrado resiliência, apoiado pela posição exportadora líquida de petróleo do país. “Ainda assim, a moeda segue exposta à combinação entre diferencial de juros, dinâmica eleitoral doméstica e evolução do conflito no Oriente Médio, fatores que devem compor a conjuntura para o par real/dólar nos próximos meses”, finaliza Andrioli.

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