Artigos

Suplementação vitamínica em vacas leiteiras de alta produção

10/11/2015

1. Introdução

Os sistemas de produção leiteira enfrentam, atualmente, diversos problemas relacionados principalmente aos parâmetros de qualidade e à reprodução. Alternativas para suprir a demanda energética são fundamentais para uma boa produção, a qual deve atender as necessidades de energia, conter níveis adequados de proteínas, vitaminas e minerais. Qualquer desequilíbrio na dieta pode levar a diminuição no desempenho produtivo e reprodutivo, gerando prejuízo econômico.

As vitaminas estão presentes nos alimentos em pequenas quantidades, sendo essenciais na nutrição de vacas leiteiras, pois participam de diferentes processos na manutenção da saúde, crescimento e reprodução. Como qualquer nutriente, elas devem estar presentes na dieta em quantidade correta, prevenindo hipovitaminose, causada pela carência dessas substâncias, ou hipervitaminoses, oriundas de um excesso das mesmas. A suplementação vitamínica na ração, na forma mineral, garante uma melhor resposta ao potencial leiteiro, e auxilia na manutenção do estado clínico, prevenindo doenças como a mastite e outras enfermidades comuns no período.

Dietas formuladas com vitaminas devem ser utilizadas, segundo a necessidade animal, que varia conforme a espécie e categoria. Deve-se levar em consideração que os volumosos nem sempre atendem às necessidades nutricionais, especialmente os estocados (silagem e feno), que perdem a concentração nutritiva com o tempo. Os ruminantes são diferentes dos demais animais por possuírem a capacidade de sintetizar muitas vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis pelo rúmen.

Desse modo, é importante saber as funções especificas das vitaminas, seus benefícios e deficiências, para entender como e quando elas devem ser suplementadas.

2. Vitaminas Lipossolúveis

2.1 Vitamina A

É um nutriente fundamental para a integridade da mucosa dos animais e de seu aparelho reprodutivo, participa da transformação dos hormônios reprodutivos e desempenha papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso e imunológico. Sua carência desenvolve problemas em vários sistemas; na pele, os pêlos ficam ásperos; nos olhos, pode ocorrer cegueira noturna e degeneração da retina; no sistema nervoso há descordenação de movimentos, convulsões e degeneração nervosa; no aparelho respiratório aumentam a sensibilidade às infecções das vias respiratórias; no aparelho digestivo cresce sensibilidade às infecções das mucosas; no sistema reprodutivo há atrofia dos ovários com baixa na taxa de ovulação e de fecundação, além de problemas de ciclo estral e retenção de placenta. A intoxicação pela vitamina A não representa um problema em condições práticas, pois ela não ocorre em plantas e sim os seus precursores.

2.2 Vitamina E

Encontrada em sementes oleaginosas, relacionada a diversas funções no organismo, a vitamina E tem importante papel antioxidante, retardando o envelhecimento e prevenindo uma degeneração precoce. A sua suplementação associada ao Selênio tem apresentado bons índices de redução de mastite e infecções da glândula intramamária. Possui ação específica na absorção da vitamina A e na sua estocagem no fígado, por isso a deficiência de ambas é concomitante e pode gerar uma série de problemas, principalmente em animais jovens, onde a doença do músculo branco (calcificação anormal dos músculos) é um sinal clássico, além da distrofia muscular nutricional, que ataca os músculos esqueléticos e cardíacos. A deficiência pode ser oriunda de uma ingestão inadequada e da baixa disponibilidade da vitamina nos alimentos, devido a condições inadequadas no processamento dos mesmos. A vitamina E não apresenta toxidez devido a sua baixa absorção.

2.3 Vitamina D

Age no metabolismo do cálcio e do fósforo, proporcionando uma melhor absorção desses minerais pela mucosa intestinal, tendo importante influência na mineralização óssea e mobilização destes minerais dos ossos. Sua deficiência no organismo compromete o sistema ósseo, deformando-o, e aumenta o risco de ocorrência da febre do leite. A deficiência pode ter ocorrido devido a uma ingestão inadequada ou pouca exposição à luz solar, necessária para a conversão dos percussores da vitamina D. A ingestão de teores elevados de vitamina D, por longos períodos, pode causar redução na ingestão de alimentos, e assim na taxa de crescimento e produção.

2.4 Vitamina K

A principal função desempenhada pela vitamina K é na síntese de proteínas no rúmen e no papel anti-hemorrágico. Sua deficiência é de difícil ocorrência, pois é sintetizada dentro do trato digestivo pelas bactérias do ruminais, porém quando acontece, desencadeia um aumento no tempo da coagulação sanguínea.

3. Vitaminas Hidrossolúveis

3.1 Vitaminas do complexo B:

São sintetizadas pela flora ruminal, por este fato a deficiência ocorre geralmente em terneiros por não apresentarem o rúmen desenvolvido. Também pode ocorre que altas doses de antibióticos levem a deficiência, pois debilita os microorganismos ruminais, comprometendo a composição adequada da microflora ruminal.

Suas funções estão ligadas ao sistema nervoso, desempenhada pela Tiamina-B1 (farelo de trigo e alfafa) e Colina. A Niacina-B3 atua na formação das células do sangue. A Riboflavina-B2 age na desintoxicação do fígado, em casos de excesso na ingestão de uréia. O Ácido Pantotênico-B5 atua na formação do sistema imunológico do organismo animal, e na formação da vitamina A, a partir dos carotenos. A Piridoxina-B6, atua na formação de proteínas a partir de aminoácidos. A Biotina-B7 e o Ácido fólico-B9 atuam no crescimento e fortalecimento celular.

3.2 Vitamina C:

Também conhecida como ácido ascórbico, a vitamina C atua como antioxidante, prevenindo o envelhecimento e a degeneração das células do organismo e auxiliando na absorção de gorduras. A deficiência desta vitamina é característica do homem, sendo pouco relatada em ruminantes.

4. Exigências vitamínicas em vacas de leite

Todos os animais têm necessidades de vitaminas, porém a suplementação para ruminantes é diferenciada devido a seu trato digestivo. A produção de vitaminas do complexo B e vitamina K ocorrem durante a degradação e fermentação de nutrientes presentes na microbiota ruminal, entretanto em vacas de alta produção, devido à capacidade produtiva que acelera as reações do organismo durante a lactação, pode-se ter uma maior susceptibilidade à deficiência vitamínica.

A vitamina D é sintetizada através dos raios solares na pele, e a vitamina C apartir de açucares. Assim, medidas simples mantêm as necessidades de vitamina B, C, D e K como a exposição dos animais por algumas horas à luz solar e uma dieta equilibrada, que promove a síntese de vitaminas no rúmen.

Por estas razões a suplementação exógena de vitaminas em ruminantes consiste basicamente em Vitamina A e E. Em determinadas circunstâncias, deficiências de vitaminas D e tiamina podem ocorrer em animais criados estabulados, devido respectivamente a ausência de luz solar e ao fornecimento de teores elevados de ração, que provocam a queda do pH e a diminuição dos microorganismos do rúmen. Em vacas de alta produção a suplementação de niacina é necessária, pois os microorganismos ruminais não suprem as necessidades fisiológicas.

Há dificuldade para definir as exigências das vitaminas, pois elas mudam conforme a categoria (vaca seca e vacas no periparto). No período pré-parto a concentração de vitamina A reduz em 38% e de α- tocoferol (provitamina E) chega a diminuir 47%, esta queda brusca coincide com o período de queda no consumo de matéria seca e com a síntese de colostro, o qual é altamente rico em vitaminas lipossolúveis. Esta variação compromete o sistema imunológico da vaca e resulta no aumento de doenças infecciosas.

O NRC (programa de formulação de dietas) considera que a vitamina A deve ser suplementada em 110 UI/kg, mesmo estando presente nos alimentos fornecidos aos animais. Em vacas em lactação, alimentadas com forrageiras conservadas a quantidade exigida de vitamina E é de 0,8 UI/Kg (NRC 2001).

O produtor deve prestar atenção na hora da escolha do mineral enriquecido com vitaminas para seu rebanho leiteiro nas seguintes características exigidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA):

• Os suplementos devem indicar por quilograma do produto as suas quantidades – em UI (unidades internacionais) para as vitaminas A, D e E, para a vitamina B-12 em microgramas e em miligramas para as demais vitaminas.

• Os suplementos devem ter o teor mínimo na mistura final conforme demonstrado na Tabela 1:

5. Dicas para evitar perda de vitaminas dos alimentos

A concentração de vitaminas nas forrageiras é altamente variável, dependendo basicamente de fatores como a origem da forrageira; condição climática e estágio de maturidade da planta. Entretanto alguns cuidados na hora da conservação e nas condições de estocagem podem garantir uma menor variação de vitaminas entre a colheita e até ser fornecida aos animais.

Os teores de β-carotenos (provitamina A) e α-tocoferol (provitamina E), encontrados em gramíneas e leguminosas, são elevados no estágio inicial e reduzidos na maturidade da planta, sendo indicado o corte na fase inicial. A cor verde da planta é bom índice do seu conteúdo de caroteno. Após o corte da planta devesse evitar a exposição aos raios solares em excesso, pois elevam a destruição de vitamina D e dos β-carotenos e α-tocoferol. Neste caso deve-se optar pela secagem no celeiro por reduzir o efeito destrutivo.

A presença de umidade pode agravar a perda de β-carotenos no processo de secagem. Quando as forragens são expostas a chuva e depois secas ao sol, aumenta as perdas de vitaminas em relação às forragens secas apenas ao sol. No caso da vitaminas B e β-carotenos (provitamina A) as perdas são completas.

O teor de vitaminas após o processo de fenação é amplamente reduzido em relação às forragens frescas, passadas 28 semanas de estocagem o teor de β-caroteno no feno é próximo de zero. Os fatores que podem estar envolvidos nestas perdas são a umidade, temperatura alta no silo e presença de luz. A ensilagem de gramíneas e leguminosas apresenta menor perda de β-carotenos e α-tocoferol em relação à fenação. Porém quando se utiliza aditivos e ácidos orgânicos a perda de vitaminas é maior.

6. Considerações gerais

Uma dieta que supra as exigências vitamínicas deve ser uma preocupação tanto para o pequeno como para o grande produtor, pois pequenos desequilíbrios nas exigências nutricionais podem gerar prejuízos, através da redução na produção leiteira e em situações mais graves doenças carenciais que podem até levar à perda do animal. Neste, recomenda-se a utilização de complexos vitamínicos, injetáveis ou orais, para uma rápida recuperação do animal. Deve-se tomar cuidado pois, ao contrário do que afirma a bula, hiperdosagens podem sim causar danos, levando mesmo a uma intoxicação. Para um correto estabelecimento do suplemento e da dosagem a ser aplicada no animal, o médico veterinário deve ser consultado e dar suporte durante a terapia de suplementação.

O produtor pode garantir um melhor fornecimento de vitaminas para seus animais através de cuidados na conservação e escolha da forrageira que está sendo utilizada em sua propriedade leiteira. Todavia a forma mais utilizada de fornecimento de vitaminas, devido sua praticidade, é através de suplementos, que devem atender as exigências do MAPA.

Guilherme Nunes Bolzan– Graduando em Medicina Veterinária

Paula Montagner – Graduanda em Medicina Veterinária

Augusto Schneider – Doutorando em Biotecnologia

Rubens Alves Pereira – Mestrando em Biotecnologia

Ivan Bianchi – Doutor em Biotecnologia Agrícola

Marcio Nunes Corrêa – Doutor em Biotecnologia

Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Pecuária

Confira esse artigo, com tabela, no link abaixo:

7. Referências Bibliográficas

NICODEMO M, L. Minerais adequados (on line). Disponível em:

Consulta em 24 de agosto 2009.

ROCHA M, V, F. Instrução normativa nº 152, de 11 de outubro de 2004 (on line). Disponível em

Consulta em 23 de agosto de 2009.

ORTOLANI E, L. Nutrição e saúde em vacas leiteiras” IN XXXV SEMANA CAPIXABA DO MÉDICO VETERINÁRIO E III ENCONTRO REGIONAL DE SAÚDE PÚBLICA EM MEDICINA VETERINÁRIA - SETEMBRO DE 2008 - GUARAPARI, E.S. (on line). Disponível em

Consulta em 23 de agosto de 2009.

Santos J, E, P e SANTOS F, A, P. Novas Estratégias no Manejo e Alimentação de Vacas Pré-Parto. Disponível em

. Consulta em 18 de agosto de 2009.

GONZÁLEZ F. H. D.; SILVA S. C.; Introdução a bioquímica clínica veterinária, 2° edição; Porto Alegre: Editora da UFGRS, 2006.

ZEOULA M, L.; GEROM L, J, V.. Vitaminas. In: BERCHIELLI T. T.; PIRES, A. V.; OLIVEIRA, S. G; Nutrição de Ruminantes, Jaboticabal/ FUNEP –São Paulo, 2006 .

PASCHOAL J. J.; ZANETTI M. A.; Efeito da suplementação de vitamina A sobre a incidência de mastite em vacas da raça Holandesa. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.56, n.2, p.267-269, 2004 .

FUCK J. E.; MORAES G. V.; SANTOS G. T.. FATORES NUTRICIONAIS NA REPRODUÇÃO DAS VACAS LEITEIRAS II - VITAMINAS E MINERAIS. Disponível em

. Consulta em 18 de agosto de 2009.

GASPAR R. M.; COSTA R. S., Nutrição Mineral de Gado de Leite. Disponível em

Consulta em 18 de agosto de 2009.

Revista Cultivar

 

Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura

Grupo Cultivar de Publicações LTDA

 

Rua Sete de Setembro, 160

Centro, Pelotas | CEP 96015-300

+55 53 3028.2000 | 3028.2070

contato@grupocultivar.com