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Pragas no Centro-Oeste

10/11/2015

Safrinha é o cultivo de uma espécie vegetal fora da sua época normal, como acontece com o milho, implantado após a colheita da soja precoce. O cultivo de milho safrinha começou a ter expressão na década de 80, ocupando áreas onde as culturas de verão eram colhidas em janeiro e fevereiro. Com a redução da área cultivada com trigo na região Centro-Sul, especialmente nos estados do PR, SP e MS, durante a década de 90, o milho safrinha sedimentou-se como atividade agrícola economicamente importante.

Com a expansão do sistema plantio direto (SPD) na região dos Cerrados, aliado ao incentivo da criação intensiva de animais na região e à melhoria do preço do produto nas últimas safras, a cultura do milho (verão ou de safrinha) assumiu papel importante no planejamento da propriedade agrícola, seja como atividade econômica ou como alternativa para rotação de culturas, princípio básico preconizado pelo SPD. Coincidentemente, o complexo de pragas que ocorre no milho safrinha vem aumentando em diversidade e abundância, quando comparado à época normal de cultivo (verão), especialmente com relação àquelas que atacam a cultura durante sua fase inicial de desenvolvimento (até os 30-40 dias).

A seguir, será feita uma abordagem das principais pragas iniciais do milho safrinha que ocorrem na Região Oeste do Brasil, bem como algumas das alternativas disponíveis para manejá-las.

sp. (Coleoptera: Melolonthidae): As larvas desse besouro são de coloração branco-leitosa, medem cerca de 25 mm de comprimento, no seu máximo desenvolvimento e posicionam-se em forma de “U”, quando em repouso. Os adultos, que são de coloração marron-escuro brilhante, fazem revoada em outubro/novembro, ocasião em que são facilmente encontrados durante a noite em faróis de veículos ou lâmpadas elétricas, devido à forte atração do inseto pela luz. Após o acasalamento, efetuam a postura no solo do cultivo de verão, onde se desenvolvem os primeiros ínstares larvais. Por ocasião do plantio do milho safrinha, os corós que já estão mais desenvolvidos e, conseqüentemente, mais vorazes, podem reduzir acentuadamente o stand da cultura.

As larvas alimentam-se das raízes do milho, causando inicialmente um murchamento, seguido por amarelecimento e morte da planta. O dano é mais acentuado quando o ataque ocorre na fase inicial de desenvolvimento da cultura. O revolvimento do solo com implementos de discos tem proporcionado um controle médio de cerca de 50% das larvas do coró, todavia esta medida somente é recomendável em áreas de plantio convencional. O controle químico, através do tratamento de sementes ou pulverização do sulco de plantio por ocasião da semeadura, tem-se caracterizado como alternativa promissora, especialmente nos sistemas conservacionistas como é o caso do SPD.

: (Coleoptera: Chrysomelidae): À semelhança do coró, as larvas deste inseto alimentam-se das raízes do milho. São de coloração esbranquiçada, têm a região anterior do corpo mais afilada do que a posterior e apresentam, na placa anal, uma mancha escura. Em ataques precoces podem broquear o caulículo das plântulas, causando o secamento e morte das folhas centrais. Em plantas mais desenvolvidas, alimentam-se das raízes adventícias do milho. A perda dessas raízes reduz a capacidade da planta em absorver água e nutrientes, tornando-as menos produtivas, bem como ficam mais suscetíveis à doenças e ao tombamento, o que intensifica os prejuízos durante a colheita. As plantas caídas ficam com um aspecto recurvado, caracterizando o sintoma conhecido como “pescoço de ganso”.

O controle químico de larvas de vaquinha deve ser preventivo. O tratamento de sementes tem-se mostrado, de modo geral, ineficiente para proteger o sistema radicular do ataque do inseto. Todavia, alguns inseticidas, quando aplicados na forma granulada ou em pulverização no sulco de plantio do milho, são eficazes no controle das larvas-de-vaquinha.

e

(Hemiptera: Cydnidae): Essas duas espécies são semelhantes e caracterizam-se por apresentarem o corpo de coloração castanha e as pernas anteriores escavatórias. São insetos fáceis de serem identificados em áreas de plantio convencional, pois durante a operação de gradagem do solo, liberam um odor característico de percevejos “fede-fede”, manifestando-se em grandes reboleiras. Ninfas e adultos movimentam-se no perfil do solo em função da umidade; ficam dispostos mais na superfície em condições de alta umidade e aprofundam-se em condições de estiagem. Tanto adultos quanto ninfas sugam continuamente as raízes do milho, levando as plantas a um amarelecimento e subdesenvolvimento, o que pode ser confundido com deficiência mineral. Em condições de altas infestações, pode ocorrer a morte da planta.

Em trabalhos conduzidos na Embrapa Agropecuária Oeste, verificou-se que vários produtos utilizados via sementes ou no sulco de plantio (em pulverização ou na forma granulada) não proporcionaram controle satisfatório de A. brachiariae. A escassez de dados sobre a bioecologia desses insetos é, provavelmente, uma das razões que contribui para o insucesso das medidas de controle até então avaliadas.

(Lepidoptera: Pyralidae): O adulto (mariposa) faz a postura sobre o limbo foliar, bainha, colmo do milho ou em restos culturais presentes no solo. Daí eclodem as pequenas larvas que inicialmente raspam o tecido e depois migram para o colo das plantas, onde penetram e constróem uma galeria ascendente. No orifício de entrada da galeria, abaixo da superfície do solo, o inseto constrói um abrigo constituído de uma mistura de partículas de terra, teia, restos culturais e excrementos. Conforme a lagarta vai se desenvolvendo, a gema apical da plântula pode ser destruída. Como conseqüência dessa injúria, surge o sintoma denominado de “coração morto”, caracterizado pelo murchamento das folhas centrais, as quais se destacam facilmente quando puxadas. Nesses casos, pode ocorrer o perfilhamento, o que torna a planta improdutiva.

O controle da lagarta-elasmo pode ser realizado através do tratamento de sementes do milho com inseticidas. Inseticidas granulados sistêmicos também podem ser utilizados no sulco, por ocasião do plantio do milho, todavia essa prática é recomendada somente em áreas onde a probabilidade de ocorrência do inseto é alta. Em lavouras não tratadas preventivamente com inseticidas e que tenham a presença da praga, sugere-se efetuar uma pulverização em alto volume (> 300 litros/ha) dirigindo-se, o máximo possível, o jato de calda para a região do colo das plantas. Mesmo nessas condições, o máximo de controle obtido experimentalmente não tem sido superior a 40-60%. Chuvas bem distribuídas, durante a fase inicial de desenvolvimento da cultura, praticamente previnem a lavoura da infestação de elasmo. A irrigação, quando possível, pode também constituir um fator de controle. Em áreas de plantio direto, a incidência da praga tem sido menor do que em lavouras instaladas no sistema de plantio convencional.

e

(Heteroptera: Pentatomidae): Essas duas espécies de percevejos são relatadas como constituintes do complexo de pragas secundárias da soja em várias regiões do Brasil. Todavia, em 1993 foi relatada pela primeira vez a ocorrência de D. melacanthus causando danos em plântulas de milho no município de Rio Brilhante (MS). Desde então, as espécies D. melacanthus e D. furcatus, em ocorrência simultânea ou não, têm sido mencionadas em lavouras de milho na Região Centro-Sul do Brasil.

O inseto apresenta a parte dorsal marrom e a ventral verde, daí o nome barriga-verde. Os ovos de coloração verde-azulada são colocados sobre as folhas do milho ou até mesmo de plantas daninhas. Durante a alimentação, esses percevejos posicionam-se, normalmente, no sentido longitudinal da planta, com a cabeça orientada para a região do colo da mesma. Nos locais de alimentação são observadas pontuações escuras nas folhas novas do interior do cartucho. Se, no processo de alimentação, o meristema apical for danificado, as folhas centrais da plântula murcham e secam, manifestando o sintoma denominado “coração morto”, podendo também ocorrer o perfilhamento da planta. Quando o meristema apical não é danificado, as primeiras folhas que se desenrolam do cartucho apresentam estrias esbranquiçadas transversais, muitas vezes com perfurações de halo amarelado, provenientes das punções que o inseto fez quando se alimentou na base da planta ainda jovem. Algumas folhas do cartucho não conseguem se desenrolarem, as quais formam um aspecto de “encharutamento”.

Existem também evidências de que o inseto, ao se alimentar, injeta saliva para facilitar a penetração do estilete no tecido foliar e, conseqüentemente, extrair o alimento. O controle do percevejo pode ser realizado preventivamente, empregando-se inseticida via semente ou em pulverizações. Antes de efetuar o plantio do milho, recomenda-se fazer uma inspeção na área em que a soja foi colhida visando constatar a presença do percevejo, para avaliar a necessidade de se tratar as sementes, ou até mesmo efetuar uma pulverização da palhada onde o inseto se encontra. O maior cuidado com o percevejo deve ser durante a fase inicial de desenvolvimento da cultura, quando a planta é mais suscetível ao ataque. Trabalhos conduzidos na Embrapa Agropecuária Oeste têm evidenciado que, de modo geral, os inseticidas recomendados para o complexo de percevejos fitófagos da soja são normalmente eficientes no controle do percevejo barriga-verde, em milho.

(Lepidoptera: Noctuidae): A lagarta-do-cartucho é considerada a praga mais importante do milho no Brasil. O seu ataque pode ocorrer desde a fase de plântulas até o espigamento da cultura. O adulto (mariposa) faz a postura em massas, contendo cerca de 150 ovos. As lagartas recém-eclodidas alimentam-se primeiramente da própria casca do ovo e depois das partes tenras das folhas do milho, deixando apenas a parte membranosa do tecido foliar, proporcionando o sintoma conhecido como “folhas raspadas”.

Com o desenvolvimento, a lagarta começa a fazer orifícios cada vez maiores nas folhas, podendo causar severos danos nas plantas. Ocasionalmente, em condições de elevada densidade populacional, a lagarta pode perfurar o colo de plantas jovens, semelhante ao ataque da lagarta-rosca, e provocar a morte ou perfilhamento da planta. Esse comportamento é também constatado quando a lavoura de milho é instalada em semeadura direta sobre áreas de pastagens, milheto ou outra gramínea previamente dessecadas com herbicidas. Na ausência de alimento, as lagartas remanescentes na área podem destruir totalmente a lavoura de milho ou mesmo outra cultura que seja implantada na área.

No controle da lagarta-do-cartucho, deve-se considerar os fatores climáticos e biológicos que atuam no agroecossistema. Períodos chuvosos na fase inicial de desenvolvimento da cultura tendem a minimizar os problemas causados pelo inseto, seja pela derrubada de ovos da planta ou pelo afogamento de lagartas pequenas. Períodos relativamente prolongados de estiagem favorecem o estabelecimento de altos níveis populacionais da praga. Diversos inimigos naturais (predadores, parasitóides e patógenos) são relatados na literatura como importantes agentes que atuam no controle biológico de S. frugiperda. Trabalhos conduzidos na Embrapa Agropecuária Oeste evidenciaram que 64% das lagartas coletadas em milho, no município de Ponta Porã (MS), estavam parasitadas, sendo também encontrado um grande número de predadores no campo experimental. Esses resultados ratificam a importância dos inimigos naturais como agentes reguladores da população de S. frugiperda, bem como enfatiza a importância de se utilizar produtos de baixa toxicidade para esses agentes benéficos, quando houver necessidade da aplicação de inseticidas nas lavouras de milho.

O uso de produtos químicos não seletivos pode provocar desequilíbrio ecológico no agroecossistema, devido à eliminação dos inimigos naturais. Com a criação desse “deserto biológico” podem ocorrer fenômenos indesejáveis com ressurgência, surtos de pragas secundárias, bem como contribuir para o desenvolvimento de resistência da praga a inseticidas. O sucesso do controle da lagarta do cartucho do milho está diretamente relacionado com o método de aplicação utilizado. Inseticidas aplicados via sementes, ou na forma granulada no sulco de plantio, não têm apresentado bom controle do inseto. A aplicação de inseticidas via líquida (pulverizações com trator) deve ser feita utilizando-se bicos tipo leque, um volume de calda mínimo de 200L/ha e, sempre que possível, dirigir o jato para o cartucho da planta. Existe também a possibilidade de fazer a aplicação de inseticida via água de irrigação (pivô central).

Outras pragas, como os cupins, largarta-rosca, larva-arame, formigas, tripes, cigarrinhas, gafanhotos e caracóis, podem ocorrer na fase de estabelecimento do milho safrinha e serem enquadradas como pragas iniciais.

Todavia, são de importância secundária, pois surgem esporadicamente nas lavouras. Um inseto que tem preocupado os produtores nos últimos anos é a cigarrinha-do-milho, Daubulus maidis.

A importância da cigarrinha não é pela injúria que ela causa na planta, mas sim por atuar como vetor de fitopatógenos (molicutes) que causam a doença denominada de “enfezamento” do milho, cuja incidência tem aumentado sensivelmente nos últimos anos, em lavouras de milho safrinha.

Embrapa Agropecuária Oeste

UFMS

Revista Cultivar

 

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