Otimização do uso de fertilizantes: desafios e soluções

Por Walder Antonio Gomes de Albuquerque Nunes e Adriana Marlene Moreno Pires, da Embrapa Agropecuária Oeste

02.04.2025 | 17:08 (UTC -3)

Diversos fatores influenciam a produtividade das culturas, podendo ser classificados como bióticos, relacionados aos seres vivos ligados ao processo produtivo, além de fatores abióticos, dentre os quais destacam-se o clima, a física e a fertilidade do solo. Dentre esses últimos, a fertilidade do solo é o mais facilmente manejável, sendo inegável a relevância do uso de fertilizantes, corretivos e condicionadores de solo para proporcionar um melhor ambiente produtivo.

No entanto, o Brasil importa aproximadamente 85% dos cerca de 41 milhões de toneladas de fertilizantes que consome anualmente. Entre os macronutrientes essenciais, importamos 90% dos nitrogenados (Rússia, China e Oriente Médio), 75% do fosfatados (China, Marrocos e Rússia) e 90% dos potássicos (Belarus, Canadá e Rússia). Registre-se que, afortunadamente, nossa principal commoditie agrícola, a soja, não depende de fertilizante nitrogenado, resultado obtido por intensas pesquisas na fixação biológica de nitrogênio (FBN).

Essa dependência externa, uma questão de segurança e soberania nacional, é extremamente desconfortável para um player de nossa importância na agricultura mundial, principalmente porque uma parte expressiva desses fertilizantes provém de regiões politicamente instáveis, o que facilita a ação de especuladores e tem ocasionado elevações bruscas em seus preços.

Entre os fertilizantes consumidos em maiores quantidades, o fósforo (P) e o potássio (K) dependem exclusivamente de reservas minerais, mas o nitrogênio (N) pode ser obtido a partir do gás natural ou de processo que fixa o N atmosférico, este último com grande consumo de energia elétrica.

Importante destacar que essa situação incômoda não ocorre em relação ao calcário (corretivo de acidez) e do gesso agrícola (condicionador do solo), nos quais somos autossuficientes.

As ações para reverter parcialmente essa dependência externa na obtenção dos fertilizantes, visando reduzi-la para 50% até 2050, incluem a prospecção de jazidas, o estímulo ao aumento da produção interna e o equacionamento de questões ambientais e logísticas, detalhadas no Plano Nacional de Fertilizantes, elaborado por um Grupo de Trabalho Interministerial, que foi recentemente revisto em suas metas. Ainda próximo dessa linha de ação, podemos citar o uso, como fertilizantes, de resíduos minerais ou orgânicos oriundos de cadeias industriais ou agroindustriais, o que proporciona adicionalmente uma oportunidade tangível de reduzir a geração de gases de efeito estufa e de reciclar nutrientes que, de outra forma, seriam destinados a aterros sanitários.

Uma outra abordagem para equacionar esse problema é através da redução das quantidades requeridas de fertilizantes, decorrente do aumento da eficiência de uso desse insumo, sem comprometimento das produtividades. Constata-se que depois do advento dos fertilizantes minerais, a forma de fertilizar as culturas ficou praticamente inalterada durante décadas: fontes solúveis de N, P e K ainda são aplicadas ao solo, frequentemente com reduzida taxa de aproveitamento pelas culturas. Para exemplificar, estima-se que apenas 50% dos nutrientes aplicados sejam efetivamente utilizados pelas plantas, havendo perdas por fixação ao solo (P), lixiviação (N e K) e volatilização (N).

Eficiência de uso dos fertilizantes

O aumento da eficiência de uso dos fertilizantes requer diferentes estratégias, sendo que a mais utilizada é sincronizar a liberação dos nutrientes com o desenvolvimento das culturas, de forma a deixá-los disponíveis à medida que avança o ciclo das plantas, que atinge demanda máxima na fase de enchimento de grãos. O exemplo mais notório envolve o nitrogênio, em que são utilizadas técnicas de encapsulamento físico dos grânulos dos fertilizantes e/ou uso de substâncias retardantes químicos ou bioquímicos, o que é amplamente utilizado com a ureia, fonte de N mais comum no mercado.

A fonte natural de P mais utilizada é a rocha fosfática (fosfato de cálcio), que deve ser submetida a tratamento ácido para aumentar sua solubilidade no solo. No entanto, formas muito solúveis, como o MAP (monoamônio fosfato), quando aplicadas em solos argilosos tropicais, estão sujeitas a fixação do P nos óxidos, ficando rapidamente indisponíveis para as plantas. Decorre desse processo que, embora nossos solos agrícolas já apresentem elevados níveis de fósforo devido ao longo histórico de fertilizações, parte expressiva desse elemento não permanece acessível às plantas. Para resolver esse problema, recentemente foram desenvolvidos produtos biológicos que conseguem disponibilizar parte desse fósforo, diminuindo a necessidade de adicionar fertilizantes.

As abordagens acima citadas foram obtidas após anos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) pela Embrapa, universidades e outras instituições públicas de pesquisa e da iniciativa privada e não prescindem de soluções que envolvam o uso de plantas mais eficientes, bioestimulantes e aprimoramentos nos sistemas de produção. Apenas para exemplificar, o uso de plantas de cobertura pode reduzir alguns desses processos de perda de nutrientes ao proporcionar uma ciclagem entres as camadas mais profundas e a superfície do solo, sinalizando que estratégias combinadas podem ser mais eficientes para o aumento da eficiência das fertilizações.

Dessa forma, entende-se que para manter o histórico de sucesso de nossa agricultura, com aumentos consistentes de produtividade, são necessários avanços constantes nas tecnologias de fertilidade do solo e manejo de plantas, proporcionando maior eficiência, menores custos e menores impactos ambientais.

*Por Walder Antonio Gomes de Albuquerque Nunes e Adriana Marlene Moreno Pires, da Embrapa Agropecuária Oeste

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