O desafio das lagartas no milho brasileiro

Por Rubens Augusto de Miranda, Vinícius Pereira Guimarães e outros

08.09.2026 | 14:46 (UTC -3)
Foto: Guilherme Viana
Foto: Guilherme Viana

O milho (Zea mays) consolidou-se como a maior cultura agrícola global e um dos pilares da segurança alimentar e da balança comercial brasileira. Contudo, a sustentabilidade do sistema produtivo nacional enfrenta desafios fitossanitários crescentes, decorrentes da pressão de seleção e do surgimento de resistência populacional de Spodoptera frugiperda (lagarta-do-cartucho) às biotecnologias vigentes.

A necessidade de aplicações suplementares de inseticidas eleva os custos de produção, reduz as margens operacionais e impõe novos desafios socioambientais. Diante desse cenário, a incorporação de novos eventos transgênicos, com proteínas de modos de ação inéditos e complementares, juntamente com outras soluções tecnológicas, como o Manejo Integrado de Pragas (MIP), representa uma alternativa relevante para ampliar e diversificar as estratégias disponíveis ao sistema produtivo.

Com produção anual superior a 1 bilhão de toneladas no mundo, o milho é a principal gramínea agrícola da humanidade. O Brasil desempenha papel central nesse ecossistema, figurando como o terceiro maior produtor mundial e responsável por aproximadamente 10% da oferta global do cereal.

Em âmbito nacional, a produção vem superando consistentemente a marca de 100 milhões de toneladas por safra e alcançando um Valor Bruto da Produção (VBP) superior a R$ 100 bilhões, montante superado apenas pela cultura da soja. O avanço da produção nas últimas cinco décadas reflete a transformação tecnológica do setor. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira evoluiu de 19,3 milhões de toneladas em 1976/1977 para uma projeção de cerca de 142 milhões de toneladas na safra 2025/2026. Nesse intervalo, a área cultivada cresceu 92%, enquanto a produtividade média avançou 284%.

Esse salto produtivo esteve associado a uma reconfiguração geográfica e agronômica sem precedentes. O cultivo migrou do modelo tradicional de verão, nas regiões Sul e Sudeste, para o sistema de segunda safra no Cerrado, em sucessão à colheita da soja. Embora tenha viabilizado o uso intensivo da terra e o ganho de escala, a transição para regiões de clima tropical e a manutenção de cobertura vegetal mais abundante e contínua impuseram desafios fitossanitários relevantes ao manejo de pragas.

O desafio no manejo da lagarta-do-cartucho

O controle de pragas e doenças sempre apresentou desafios técnicos que impulsionaram o desenvolvimento de novas tecnologias. Esse cenário é bem ilustrado pelos esforços no controle da principal praga do milho, a Spodoptera frugiperda.

A lagarta-do-cartucho afeta o milho desde as fases iniciais até a maturidade reprodutiva, com impactos importantes nos diferentes estádios vegetativos. Na fase larval, a praga se aloja no interior do cartucho — região foliar jovem em formação —, o que a protege parcialmente de inimigos naturais e de defensivos de contato. Infestações graves e não controladas podem acarretar reduções superiores a 40% no rendimento de grãos, além de danos às espigas e à área foliar fotossinteticamente ativa.

A Spodoptera frugiperda é uma espécie polífaga que ataca diversas culturas agrícolas. Além do milho, pode infestar soja, algodão, trigo, sorgo, pastagens e muitas outras plantas. A disponibilidade contínua de plantas hospedeiras pode funcionar como uma “ponte verde”, favorecendo a sobrevivência e a multiplicação do inseto.

A expansão da produção de milho no Cerrado aumentou a oferta de biomassa em uma região de clima favorável à proliferação da praga. Além dos impactos locais, o inseto possui elevada capacidade migratória e se dispersou para outras regiões do mundo.

Disseminação global e riscos climáticos

Identificada originalmente nas Américas, a espécie foi registrada no continente africano em 2016, e na Ásia, incluindo Índia e China, em 2018. Ainda se discute como a Spodoptera frugiperda chegou ao continente africano, sendo o transporte acidental associado ao comércio e à mobilidade internacional uma das hipóteses consideradas.

Após a introdução em novos ambientes, os impactos podem se intensificar. Estudos científicos apontam que as mudanças climáticas tendem a alterar e, em determinadas regiões, ampliar a pressão geográfica da praga em escala global.

A emergência do milho Bt

A aplicação de defensivos químicos consolidou-se como uma das principais formas de controle de pragas a partir da Revolução Verde. Embora essenciais em diferentes estratégias de manejo, intervenções químicas sucessivas apresentam desafios relacionados à eficiência de controle, à seleção de resistência, aos custos operacionais, à exposição ocupacional e aos impactos ambientais, reforçando a importância de estratégias integradas de manejo.

Uma alternativa para ampliar as opções de controle foi o desenvolvimento do milho geneticamente modificado com a inserção de genes que codificam proteínas específicas ao inseto-alvo. No caso da Spodoptera frugiperda e de outros lepidópteros, foram incorporados genes derivados da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt).

A aprovação comercial dos primeiros eventos contendo genes Bt no Brasil ocorreu na safra 2008/2009. A adesão à tecnologia foi intensa, atingindo 70% da área plantada com milho já na safra 2011/2012.

Os eventos transgênicos proporcionaram expressivo avanço no controle da praga, reduzindo sensivelmente a necessidade de pulverizações químicas foliares nos primeiros anos. Para retardar a seleção natural de insetos adaptados e favorecer o manejo de resistência, foram desenvolvidos eventos piramidados ou empilhados, reunindo diferentes proteínas no mesmo germoplasma.

A evolução da resistência e os desafios de manejo

A combinação entre elevada adoção das tecnologias, desafios associados à implementação consistente das estratégias de refúgio e a disponibilidade contínua de plantas hospedeiras intensificou a pressão de seleção sobre as populações da praga. Trata-se de um processo de seleção biológica amplamente documentado na literatura agronômica.

A partir de 2014, bases internacionais, como o Arthropod Pesticide Resistance Database (APRD), e pesquisas locais passaram a registrar redução na sensibilidade da Spodoptera frugiperda a determinadas proteínas expressas na planta. Atualmente, pacotes tecnológicos comercializados no País apresentam perdas gradativas de eficácia de campo, demandando intervenções complementares para a manutenção do potencial produtivo.

Foto: João Marcos Rosa
Foto: João Marcos Rosa

Horizontes tecnológicos e diversificação das estratégias de manejo

A sustentabilidade do controle da Spodoptera frugiperda depende da renovação e da diversificação contínuas das ferramentas de manejo. No âmbito da transgenia, uma das frentes de pesquisa é a introdução de eventos que expressem proteínas com modos de ação distintos dos anteriormente utilizados.

O Brasil já conta com novos eventos analisados e aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que podem ampliar as alternativas para estratégias de rotação tecnológica. Entre eles está o evento EH913, desenvolvido em parceria público-privada entre a Helix Sementes e Biotecnologia Ltda. e a Embrapa.

O evento codifica a proteína Cry1Da, com mecanismo de ação distinto de proteínas Cry anteriormente utilizadas. Aprovado pela CTNBio em 2022, constitui um resultado de pesquisa com potencial de contribuição ao manejo de pragas, encontrando-se em expansão no segmento de milho forrageiro, e aguardando, para determinados usos e mercados, os respectivos requisitos regulatórios internacionais.

Outros eventos desenvolvidos por empresas do setor de biotecnologia também foram aprovados no País e podem contribuir para a diversificação de modos de ação e para estratégias de manejo de resistência. A diversificação tecnológica, entretanto, deve ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de manejo, não substituindo práticas como refúgio estruturado, monitoramento, controle biológico e rotação de modos de ação.

Para lavouras voltadas à exportação, a utilização comercial de determinadas tecnologias pode depender de requisitos regulatórios dos mercados importadores. Nesse contexto, estudos técnico-econômicos sobre segregação, rastreabilidade e organização logística podem contribuir para avaliar alternativas, considerando os requisitos regulatórios e comerciais aplicáveis nos diferentes mercados.

Nos últimos anos, também surgiram novas trajetórias tecnológicas para o controle de pragas e doenças. Entre elas, destaca-se a edição genômica, que reúne técnicas de biologia molecular capazes de promover alterações específicas no DNA. Ferramentas como CRISPR-Cas apresentam perspectivas de aplicação em plantas, bioinsumos e outras abordagens de manejo, embora diversas aplicações ainda necessitem de amadurecimento científico, tecnológico e regulatório antes de sua adoção em grande escala.

Foto: João Marcos Rosa
Foto: João Marcos Rosa

Custos econômicos e ambientais do manejo da lagarta-do-cartucho

Dados consolidados pelo Rally da Safra (Agroconsult), na safra 2025/2026, ilustram a dimensão dos impactos econômicos e ambientais associados ao aumento de pulverizações complementares nas lavouras. Por se tratarem de estimativas de elevado impacto comunicacional, a interpretação deles deve considerar o universo amostrado, a metodologia de cálculo e os limites de extrapolação da fonte.

  • Aplicações complementares: na primeira safra, o número médio de aplicações de inseticidas para controle de lagartas passou de 3,9 (2022/2023) para 5,2 (2025/2026). Na segunda safra, evoluiu de 2,0 para 3,4 pulverizações. Apesar do número elevado de aplicações, lagartas foram identificadas em 29% das lavouras avaliadas, porcentagem acima da encontrada nas expedições anteriores.
  • Custo com lagarticidas: o levantamento estima gasto de R$ 3,265 bilhões com controle químico na área considerada pelo Rally da Safra, com amostra correspondente a aproximadamente 88% da área nacional. Esse valor deve ser interpretado conforme a metodologia e o universo do levantamento.
  • Perdas de produtividade: a estimativa de danos diretos em espigas indicou perda física mínima de 737 mil toneladas de grãos, equivalente a aproximadamente R$ 600 milhões. A estimativa se refere às perdas observadas no momento de maturidade fisiológica e não incorpora a perda fotossintética (impactando o desenvolvimento da planta) devida aos ataques precoces de lagartas.
  • Volume de defensivos: o levantamento apresenta estimativa de 57.207 toneladas de produtos formulados utilizados no controle de lagartas. Apesar dos dados não estarem discriminados, estudos anteriores apontam que uma participação na faixa de 40% a 50% desse volume corresponderia a ingredientes ativos. A comparação e a extrapolação desse indicador requerem atenção à metodologia, à área considerada e às classes de produtos incluídas.
  • Pegada de carbono: o aumento no número de passagens de pulverizadores implica consumo adicional de combustível fóssil e pode elevar as emissões operacionais de gases de efeito estufa (GEE).

Esses indicadores estão em linha com diversas reportagens publicadas em mídias do agro e reforçam a importância de ampliar as opções de manejo de lagartas, especialmente da Spodoptera frugiperda. Resultados iniciais associados a novas tecnologias, já aprovadas pela CTNBio, indicam uma redução potencial muito significativa de custos e uso de inseticidas, apontando para ganhos expressivos de eficiência econômica e ambiental. 

Há duas décadas, os organismos geneticamente modificados (OGMs) tiveram um impacto imediato na redução do uso de inseticidas nas lavouras de milho no País. A partir desse histórico, é factível projetar que os novos eventos, com novas proteínas, tenham um impacto similar e até mesmo mais duradouro, pelo aprendizado adquirido no manejo de resistência.  

Prioridades técnico-científicas para o manejo sustentável

O manejo sustentável da Spodoptera frugiperda no Brasil requer abordagem integrada, capaz de preservar a eficácia das tecnologias disponíveis e contribuir para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. O aumento das intervenções químicas complementares observado em diferentes sistemas de produção reforça a importância da diversificação das ferramentas de controle e do fortalecimento das práticas de manejo de pragas.

Ações prioritárias

  • Cooperação técnico-regulatória internacional: fortalecer a geração e o intercâmbio de informações técnico-científicas que possam subsidiar processos regulatórios nos mercados importadores, respeitando os requisitos de biossegurança e os procedimentos estabelecidos em cada país.
  • Diversificação das alternativas tecnológicas: ampliar a geração de conhecimento sobre novas tecnologias e modos de ação que possam contribuir para estratégias de manejo de resistência e fortalecer a adoção de abordagens integradas, como o Manejo Integrado de Pragas (MIP), observados os requisitos regulatórios, agronômicos, comerciais e de biossegurança aplicáveis.
  • Avaliação de alternativas logísticas e de rastreabilidade: desenvolver estudos técnico-econômicos sobre segregação, rastreabilidade e organização logística, considerando requisitos regulatórios dos diferentes mercados, levando em consideração que a pauta de exportação do milho é bastante pulverizada.
  • Fortalecimento das boas práticas agronômicas e do manejo de resistência: fortalecer ações de pesquisa, transferência de tecnologia e educação voltadas a refúgio estruturado, monitoramento de pragas, rotação de modos de ação e integração entre controle biológico, químico e biotecnológico.

Nenhuma tecnologia, isoladamente, será suficiente para assegurar a sustentabilidade do manejo no longo prazo. A incorporação responsável das novas tecnologias disponíveis, associada ao MIP e às boas práticas agronômicas, pode contribuir para ampliar a eficiência do controle, reduzir intervenções desnecessárias, preservar a produtividade e fortalecer a sustentabilidade e a competitividade da produção brasileira de milho.

*Por Rubens Augusto de Miranda, Vinícius Pereira Guimarães, Simone Martins Mendes e Frederico José Evangelista Botelho, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo

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