Micorrizas arbusculares e o desenvolvimento das plantas

A antiga aliança entre fungos e plantas que segue inovando a agricultura

27.08.2026 | 17:01 (UTC -3)
Fernando Dini Andreote, Esalq/USP

PUBLIEDITORIAL

Quando observamos uma lavoura crescendo, normalmente pensamos na fertilidade do solo, na água disponível, no clima, na genética da planta e no manejo realizado pelo produtor. Mas existe uma parceria invisível, muito antiga e extremamente importante, que ajuda a explicar como as plantas conquistaram os ambientes terrestres e como ainda hoje conseguem crescer em diferentes condições de solo. Essa parceria é chamada de micorriza arbuscular.

As micorrizas arbusculares são associações entre raízes e fungos benéficos do solo. Esses fungos vivem em contato íntimo com as raízes e formam uma espécie de rede subterrânea, capaz de ampliar o volume de solo explorado pela planta. Essa associação é muito antiga. Há evidências de que essas relações já existiam há centenas de milhões de anos, quando as primeiras plantas começaram a ocupar os ambientes terrestres. Naquele momento da evolução, sair da água e viver em terra firme representava um enorme desafio. As plantas precisavam absorver água e nutrientes de um ambiente novo, muitas vezes pobre e instável. A presença desses fungos associados às raízes provavelmente foi decisiva para esse processo, funcionando como uma extensão do sistema radicular e favorecendo a adaptação das plantas ao solo.

Até hoje, essa parceria permanece presente em grande parte das espécies vegetais. Em muitas culturas agrícolas, os fungos micorrízicos arbusculares podem contribuir para o melhor desenvolvimento das plantas, principalmente pela maior eficiência na absorção de nutrientes, dentre os quais merece destaque o fósforo. Esse nutriente é essencial para o crescimento vegetal, pois participa de processos ligados à energia, ao enraizamento, ao desenvolvimento inicial e à produtividade. No entanto, no solo, o fósforo costuma ter baixa mobilidade. Isso significa que ele não se desloca facilmente até a raiz. É aí que as micorrizas fazem diferença.

Os fungos micorrízicos formam estruturas finíssimas, chamadas hifas, que se espalham pelo solo e alcançam regiões que a raiz sozinha teria dificuldade de explorar. Essas hifas funcionam como uma extensão da raiz, aumentando a capacidade da planta de buscar fósforo e outros nutrientes. Além do fósforo, as micorrizas também podem contribuir para a absorção de zinco, cobre, nitrogênio e outros elementos. Outro papel importante está relacionado à água. Ao aumentar a área de exploração do solo, a rede formada pelos fungos pode favorecer o acesso da planta à umidade disponível em pequenos poros e em regiões mais distantes da raiz. Isso não significa que as micorrizas resolvam sozinhas os problemas causados pela seca, mas elas podem ajudar a planta a lidar melhor com situações de limitação hídrica, especialmente quando associadas a um bom manejo do solo.

Em muitas culturas agrícolas, os fungos micorrízicos arbusculares podem contribuir para o melhor desenvolvimento das plantas, principalmente pela maior eficiência na absorção de nutrientes, dentre os quais merece destaque o fósforo
Em muitas culturas agrícolas, os fungos micorrízicos arbusculares podem contribuir para o melhor desenvolvimento das plantas, principalmente pela maior eficiência na absorção de nutrientes, dentre os quais merece destaque o fósforo

As micorrizas também podem influenciar a estrutura do solo. As hifas dos fungos contribuem para a agregação das partículas, ajudando na formação de pequenos grumos que melhoram a porosidade, a infiltração de água e a conservação da estrutura física do solo. Em sistemas agrícolas bem manejados, essa interação entre raízes, fungos e solo pode favorecer um ambiente mais vivo, mais equilibrado e mais eficiente para o crescimento das plantas.

Em troca dos benefícios recebidos, a planta fornece aos fungos parte dos compostos produzidos pela fotossíntese, facilitando o desenvolvimento do fungo, que deixa de competir com outros organismos do solo. Trata-se, portanto, de uma relação de cooperação: a planta alimenta o fungo, e o fungo ajuda a planta a acessar recursos fundamentais ao seu desenvolvimento.

Do ponto de vista prático, uma pergunta comum é: como saber se a micorriza está funcionando na lavoura? A análise das micorrizas pode ser feita em laboratório, principalmente por meio da observação da colonização das raízes. Nesse tipo de avaliação, as raízes são coletadas, preparadas, coradas e analisadas ao microscópio para verificar a presença das estruturas típicas dos fungos micorrízicos. Também é possível avaliar esporos no solo ou utilizar ferramentas moleculares para identificar grupos de fungos presentes. É importante destacar que a análise de micorrizas não é feita diretamente no campo, de forma visual ou imediata. Isso ocorre porque os fungos micorrízicos são microrganismos, de tamanho reduzido, e não formam estruturas visuais nos solos ou nas raízes onde estão presentes. Ainda, estes fungos especificamente, não são cultivados em meios de cultura comuns, o que impede o seu desenvolvimento em placas de cultivo ou em meios de cultura comuns. Por isso, sua avaliação exige coleta adequada, preparo da amostra e interpretação técnica.

Fernando fala da parceria entre raízes e fungos, chamada de micorriza arbuscular
Fernando fala da parceria entre raízes e fungos, chamada de micorriza arbuscular

Nos últimos anos, as micorrizas arbusculares deixaram de ser apenas um tema de pesquisa acadêmica e passaram a ocupar espaço na inovação agrícola. Hoje, esse processo biológico já está presente em tecnologias disponíveis ao produtor, especialmente na forma de inoculantes, desenvolvidos para favorecer a associação entre fungos micorrízicos e plantas. Essas tecnologias fazem parte de um movimento maior da agricultura moderna, que busca aumentar a eficiência do uso de nutrientes, melhorar a saúde do solo e reduzir perdas no sistema produtivo.

O futuro das micorrizas na agricultura está justamente na integração. Elas não substituem o conhecimento agronômico, a análise de solo, a adubação bem planejada ou o manejo correto da lavoura. Mas podem complementar essas práticas, aumentando a eficiência do sistema e aproximando a produção agrícola de processos naturais que sustentam as plantas há milhões de anos. Em outras palavras, as micorrizas arbusculares mostram que a inovação no campo nem sempre nasce de algo totalmente novo. Muitas vezes, ela surge quando a ciência aprende a compreender, manejar e aplicar melhor processos antigos da natureza. No caso das micorrizas, estamos falando de uma aliança ancestral entre fungos e plantas que ajudou a vegetação a conquistar a terra firme e que, agora, pode ajudar a agricultura a produzir de forma mais eficiente, biológica e sustentável.

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