Mosca-da-cereja: entrave da fruticultura brasileira

Detectada recentemente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina a mosca-da-cereja (Drosophila suzukii) é mais um entrave a afetar a fruticultura brasileira

10.05.2016 | 20:59 (UTC -3)

Mundialmente, as moscas-das-frutas são as principais pragas da fruticultura. A maioria das espécies que compõem esse grupo pertence à família Tephritidae, porém, em 2013 detectou-se no Brasil, uma espécie pertencente à família Drosophilidae, que causa danos semelhantes em frutos de tegumento frágil. Trata-se de Drosophila suzukii (Matsumura, 1931), conhecida também como mosca-da-cereja na Ásia ou mosca-da-asa-manchada nos Estados Unidos. Esta espécie vem ocasionando danos severos em pequenos frutos em várias partes do mundo. Semelhante ao dano causado pelos tefritídeos, essa mosca é capaz de realizar postura no interior de frutos, diferindo dos demais drosofilídeos, que comumente estão associados a frutos anteriormente danificados ou em estágio de decomposição.

O primeiro registro de D. suzukii foi realizado por Matsumura em 1931 no Japão, onde acredita-se ser o seu local de origem. Desde 2008 vem ocasionando uma série de danos em países europeus e da América do Norte, dispersando-se rapidamente por todo território. Recentemente foi encontrada na América do Sul, onde foi registrada em municípios do Rio Grande do Sul, como Erechim, Vila Maria, Osório e Capão do Leão, e em cidades do litoral catarinense, Nova Veneza e Botuverá (Deprá et al, 2014). Acredita-se que a rápida dispersão dessa praga tenha sido ocasionada por difusão passiva dos frutos, através da importação e exportação de frutos contaminados com ovos. Essa forma de dispersão é um dos meios mais comuns de transporte de pragas entre diferentes regiões, uma vez que apesar da contaminação do produto, não há sinais visíveis da presença de ovos.

Os danos diretos ocasionados por essa praga são causados em consequência da oviposição dentro dos frutos (Figura 1) e posteriormente alimentação das larvas. Além disso, o orifício de postura também serve como porta de entrada para patógenos. A oviposição em frutos intactos só é possível pois as fêmeas de D. suzukii apresentam um ovipositor duplamente serreado e estreito, com uma série de dentes esclerotizados (Figuras 2C, 2D), sendo essa uma característica distintiva da maioria dos demais drosofilídeos. A identificação dos machos pode ser feita a partir de manchas escuras no ápice das asas e uma linha de pentes no primeiro e segundo segmento tarsal do primeiro par de pernas (Figuras 2A, 2B).

Figura 1 - Fêmea de D. suzukii inserindo o ovipositor no fruto

Figura 2 - Adultos de D. suzukii. A) Machos, com detalhe das manchas escuras no ápice das asas; B) Detalhe da fileira de pentes no primeiro e segundo segmento tarsal do primeiro par de pernas; C) Fêmea; D) Detalhe do ovipositor duplamente serreado. (Foto: Juliana Cordeiro e Marco Silva Gottschalk)

Esse inseto vem sendo considerado uma das principais pragas de frutos de casca sensível em diversos países, uma vez que ataca uma variada diversidade de frutos. Os frutos atacados por D. suzukii apresentam tegumento fino, o que possibilita a inserção do ovipositor da fêmea. Existem registros de danos significativos em ameixeira (Prunus sp.), amoreira (Rubus sp.), caquizeiro (Diospyrus kaki), cerejeira (Prunus sp.), damasqueiro (Prunus armeniaca), framboeseira (Rubus idaeus), mirtileiro (Vaccinium myrtillus), morangueiro (Fragaria sp.) e pessegueiro (Prunus persica), podendo ocorrer ainda em menores proporções em figueira (Ficus sp.), kiwizeiro (Actinidia sp.) e videira (Vitis sp.). Esses insetos já foram encontrados atacando frutos de casca mais resistentes como laranjeira (Citrus sp.) e macieria (Malus sp). No Brasil, existem registros da ocorrência em goiabeira (Psidium guajava) e jameloeiro (Syzygium jambolanum). A importância de estudos voltados à bioecologia e ao manejo desses insetos é de suma importância, dado a significância econômica desses frutos para países sul-americanos, em especial regiões de clima temperado. Dentre os potenciais hospedeiros de D. suzukii no Brasil destacam-se videira (81.355ha), macieira (38.205ha), pessegueiro e ameixeira (19.043ha), caquizeiro (8.638ha), morangueiro, amoreira, framboeseira e mirtileiro (3.560ha) e figueira (2.886ha) (Anuário de Fruticultura, 2014).

Com relação ao comportamento de oviposição e preferência foi evidenciado maior percentual de posturas em frutos em estágio avançado de amadurecimento, quando comparados a frutos verdes ou em princípio de amadurecimento. Esse fato pode estar relacionado com a dificuldade de completar seu ciclo em frutos excessivamente ácidos, sendo a preferência por frutos mais doces e maduros. Levando-se em consideração a preferência de oviposição em diferentes tipos de frutos, D. suzukii tem preferência por cerejas, quando comparadas a pêssego e ameixa, sendo os níveis de infestação de 73%, 20% e 7%, respectivamente (Lee et al, 2011).

Os ovos apresentam coloração esbranquiçada e medem aproximadamente 0,62mm x 0,18mm de comprimento, e com o passar do tempo vão adquirindo aspecto translúcido, possibilitando a visualização da larva antes da emergência. Os ovos apresentam dois filamentos na porção terminal de uma das extremidades, sendo esta estrutura utilizada para a respiração. As larvas recém-emergidas são de coloração leitosa e transparente. Em geral, apresentam três instares larvais, sendo que as larvas de último instar medem, em média 3,94mm x 0,88mm. As pupas possuem coloração inicial amarelo acinzentado e consistência macia, posteriormente endurecem e adquirem coloração marrom. Estas apresentam dois prolongamentos em uma das faces terminais, provenientes dos filamentos respiratórios das larvas. Os estágios imaturos de Drosophila são todos semelhantes, dessa forma, a identificação específica depende da emergência do inseto adulto ou de técnicas de biologia molecular (Hauser, 2011; Walsh et al, 2011). A mosca adulta é de pequeno porte, entre 2mm e 3mm de tamanho, possui olhos vermelhos, o tórax é de coloração amarelo a marrom pálido, com faixas pretas longitudinais ao longo do abdome.

A maior parte das espécies de drosofilídeos apresenta alto potencial biótico, o que ocorre com D. suzukii. As fêmeas alcançam a maturidade sexual em um ou dois dias quando em condições favoráveis de temperatura e umidade, sendo o tempo máximo registrado de 13 dias. Começam a depositar ovos a partir do segundo dia após emergência e podem colocar até três ovos por fruto. Cada fêmea, em média, deposita de sete a 16 ovos por dia, sendo capaz de ovipositar até 600 ovos durante todo seu ciclo de vida (em média 400 ovos). A oviposição máxima registrada para essa espécie foi de 160 ovos em apenas um dia, em cereja. Os ovos eclodem em um intervalo de duas a 72 horas após a oviposição, e as larvas chegam ao último instar em um período de três a 13 dias. O período de pupa ocorre geralmente dentro do fruto, podendo eventualmente ocorrer no solo, e leva em torno de três a 15 dias. A temperatura é um fator extremamente importante para se mensurar o tempo do ciclo de D. suzukii, sendo que o tempo mínimo registrado foi de oito dias, entre a oviposição à emergência do adulto, e a média de tempo estimado é de oito a 18 dias. A longevidade dos adultos varia entre 21 e 66 dias.

A mosca-da-cereja pode suportar grandes variações de temperatura, porém, é mais adaptada a temperaturas amenas, variando em torno de 20ºC a 25°C, preferencialmente com altos índices de umidade. Esse cenário climático é facilmente encontrado em regiões de Clima Temperado no Brasil e em outros locais da América do Sul. Altas temperaturas podem ser um fator limitante para esse inseto, sendo que sua biologia passa a ser afetada a temperaturas superiores a 32°C. A temperaturas inferiores a 5°C pode ocorrer um fenômeno conhecido como diapausa, onde os insetos cessam seu desenvolvimento, retomando sua atividade assim que as condições voltem a ser favoráveis.

Perdas econômicas

Estimar custos de perdas causadas em função do ataque de D. suzukii é uma tarefa árdua, em função da dificuldade de mensurar perdas diretas e indiretas ocasionados pela presença da praga. As perdas diretas estão ligadas à queda na produtividade e qualidade dos frutos, enquanto as perdas indiretas estão associadas ao aumento no custo de produção, com incremento de mão de obra, equipamento e produtos para controle químico e monitoramento. Na Europa foram registradas perdas de 80% na produção de pequenos frutos, principalmente em áreas onde a ocorrência da mosca foi inicialmente negligenciada. Estudos preliminares realizados nos Estados Unidos indicam que as perdas anuais em cinco culturas (amoreira, cerejeira, framboeseiro, mirtileiro e morangueiro) chegaram a mais de 500 milhões de dólares, em apenas três estados (Califórnia, Oregon e Washington). As perdas podem ser ainda maiores em áreas onde há predomínio de monocultura, como em uma propriedadede 400ha, na região do nordeste da Itália, grande produtora de pequenos frutos, onde as perdas chegaram em 500 mil euros em 2010, e aproximadamente três milhões de euros na safra seguinte (Walsh et al, 2011; Anfora, 2012).

Monitoramento e controle

Vários sistemas de monitoramento e controle vêm sendo desenvolvidos em países onde a presença dessa praga já está consolidada. Porém, a maior parte desses sistemas ainda não está bem definida. O monitoramento vem sendo realizado, basicamente, através de armadilhas contendo iscas atrativas, distribuídas ao longo dos pomares. Recomenda-se a utilização de três armadilhas por hectare, posicionadas em locais arejados e sombreados. As cores que apresentam maior atratividade para drosofilídeos são vermelho e preto, sendo preferível a utilização de armadilhas com essas colorações. Os tipos de armadilhas mais utilizados para o monitoramento da praga são McPhail. Podem ser empregados copos ou até mesmo garrafas PET adaptadas, com furos laterais que permitam a entrada do inseto.

Várias substâncias atrativas, como melaço, vinagre de vários tipos, vinho de arroz e cereja, açúcar, óleos essenciais de gerânio e citronela, compostos sintéticos foram testadas para monitoramento de D. suzukii, sendo que a isca que apresentou melhor atratividade foi a solução de vinagre de maçã e vinho tinto, na proporção de 40:60, respectivamente (Landolt et al, 2011). É importante a adição de um surfactante (detergente) para diminuir a tensão superficial do líquido, impedindo assim a fuga dos insetos.

Nos países onde essa praga já está causando danos econômicos, o método de controle mais utilizado é o químico. Organofosforados, piretroides, spinosade, clorantraniliprole e um produto experimental (TA2674) apresentaram bons resultados no combate, sendo que spinosade causou mortalidade de 100% dos indivíduos (Cuthbertsonet al, 2014). Neonicotinoides e organofosforados sistêmicos apresentam ação ovicida e capacidade de controlar larvas dentro dos frutos. Recomenda-se a realização de, pelo menos, duas pulverizações antes da colheita, alternando grupos químicos, para evitar o surgimento de linhagens resistentes. Existem poucos estudos quanto a produtos alternativos, como os utilizados em agricultura orgânica. Da mesma forma, deve-se respeitar o período de carência desses inseticidas, uma vez que a maioria dessas culturas apresenta múltiplas colheitas e alta pericibilidade.

Aliado ao controle químico, o controle cultural é imprescindível para o sucesso do manejo. Entende-se por controle cultural a retirada de plantas hospedeiras que estejam próximas à área de cultivo. Essa tarefa é dificultada devido à alta polifagia apresentada por D. suzukii e pela falta de conhecimento sobre possíveis e/ou potenciais hospedeiros. Também recomenda-se a retirada de frutos caídos e danificados do pomar, pois estes também podem servir de hospedeiros alternativos para o seu desenvolvimento.

Pesquisas apontam o controle biológico como uma futura medida associativa aos demais métodos de controle. Algumas vespinhas parasitoides (Hymenoptera) já foram encontradas associadas a D. suzukii, porém, sem apresentar resultados muito animadores. Acredita-se que o baixo parasitismo possa estar associado ao comportamento peculiar desse drosofilídeo, uma vez que os ovos e as larvas de D. suzukii ficam protegidos dentro dos frutos, em relação aos que ovipositam e completam seu desenvolvimento em frutos danificados e expostos. Outra linha de pesquisa que vem sendo desenvolvida é a utilização de microrganismos entomopatogênicos (fungos e nematoides) para o controle dessa praga. Os resultados preliminares dessas pesquisas demonstraram que esses organismos promovem uma diminuição na população de D. suzukii, porém, seu uso isolado não é capaz de promover um controle efetivo.

Considerações finais

A simples ocorrência dessa praga no Rio Grande do Sul e demais regiões de clima temperado, aliada à ampla oferta de alimento e condições climáticas favoráveis, é fator que preocupa produtores e pesquisadores. Existem várias perguntas sobre a bioecologia de

que precisam ser respondidas, para que se possa implementar novas técnicas de monitoramento e controles, viabilizando o manejo integrado dessa praga. Procurando responder algumas dessas questões, está sendo desenvolvida a tese de doutorado da primeira autora deste artigo no Programa de Pós-graduação em Fitossanidade da UFPel, que conta com a participação efetiva de pesquisadores do Departamento de Ecologia, Zoologia e Genética do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas.

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