Umidade elevada altera defesa vegetal contra bactérias

Estudo revela papel do ABA e do gene CYP707A3 na competição por água foliar

02.04.2026 | 02:52 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Sintomas da doença em folhas de <i>Arabidopsis thaliana</i> infectadas com a bactéria patogênica <i>Pseudomonas syringae</i> pv. <i>tomato</i> (Pst). Após a infecção, as plantas foram mantidas por três dias sob umidade moderada (esquerda) ou alta umidade (direita), apresentando doença mais severa sob alta umidade - Foto Shigetaka Yasuda
Sintomas da doença em folhas de Arabidopsis thaliana infectadas com a bactéria patogênica Pseudomonas syringae pv. tomato (Pst). Após a infecção, as plantas foram mantidas por três dias sob umidade moderada (esquerda) ou alta umidade (direita), apresentando doença mais severa sob alta umidade - Foto Shigetaka Yasuda

A umidade elevada modula a interação entre plantas e patógenos bacterianos ao alterar o balanço hormonal e a disponibilidade de água nas folhas. Estudo recente demonstra redução do ácido abscísico (ABA) mediada pelo gene CYP707A3 como fator central na limitação da infecção bacteriana.

Pesquisadores observaram aumento da expressão de CYP707A3 em folhas sob alta umidade. Esse processo induz degradação de ABA. A redução do hormônio promove abertura estomática. A abertura limita a formação de lesões com acúmulo de água no apoplasto, condição essencial para multiplicação de bactérias.

O trabalho utilizou Arabidopsis thaliana como modelo. Plantas expostas à alta umidade apresentaram queda rápida nos níveis de ABA em até duas horas. Mutantes sem CYP707A3 mantiveram níveis elevados do hormônio. Esses materiais exibiram maior incidência de “water-soaking” e maior crescimento bacteriano.

Abertura estomática

A abertura estomática atua como mecanismo chave. Linhagens com abertura constitutiva reduziram drasticamente o acúmulo de água e a proliferação bacteriana, mesmo na ausência de CYP707A3. O resultado indica ligação direta entre regulação estomática e resistência à infecção.

O estudo também identificou sinalização dependente de cálcio como etapa inicial do processo. A alta umidade elevou rapidamente o Ca2+ citosólico nas células foliares. Canais iônicos CNGC2 e CNGC4, com participação de CNGC9, mediaram essa resposta. O aumento de Ca2+ ativou o fator de transcrição CAMTA3, responsável por induzir CYP707A3.

Reprogramação gênica

A análise transcriptômica revelou ampla reprogramação gênica sob alta umidade. Mais de 2 mil genes apresentaram alteração de expressão. Motivos de ligação de CAMTA surgiram enriquecidos em genes induzidos precocemente. O resultado reforça o papel central desse regulador na resposta ao ambiente úmido.

Patógenos bacterianos, no entanto, interferem nesse mecanismo. A bactéria Pseudomonas syringae pv tomato DC3000 utiliza efetores do sistema de secreção tipo III para suprimir a indução de CYP707A3. Entre eles, AvrPtoB exerce papel relevante. O efetor bloqueia a redução de ABA e favorece o acúmulo de água no tecido foliar.

Além disso, o patógeno estimula a biossíntese de ABA por meio da indução de genes como NCED3. O efeito combinado mantém níveis elevados do hormônio, promove fechamento estomático funcional e intensifica o ambiente favorável à infecção.

Resultados indicam competição direta entre planta e bactéria pelo controle da água foliar. A planta ativa vias que reduzem ABA e dificultam o acúmulo hídrico. O patógeno induz rotas opostas para aumentar a disponibilidade de água no apoplasto.

Mais informações em doi.org/10.1038/s41467-025-67469-y

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