Brasil caminha para maior importação de trigo da história

Painel de abertura do Moatrigo debate, em Curitiba, dados, leitura de safra e perspectivas para o próximo ciclo

01.04.2026 | 16:02 (UTC -3)
Cristina Luchini

A redução da área plantada de trigo no Brasil deve levar o país a uma importação recorde, próxima de 8 milhões de toneladas no ciclo 2026/27, tornando o mercado externo a principal fonte de abastecimento. Mesmo com o equilíbrio global entre oferta e demanda garantido, o abastecimento brasileiro seguirá dependente da fluidez do comércio internacional, o que deixa a indústria moageira mais exposta ao cenário externo em preços, disponibilidade e qualidade de seus principais fornecedores. 

Diante desse quadro, lideranças dos moinhos do Paraná estarão reunidas no dia 13 de abril, na Fiep, em Curitiba, no Moatrigo, evento promovido anualmente pelo Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR). O Paraná concentra a maior indústria moageira de trigo do país, respondendo por 30% da produção nacional de farinha. 

A programação será aberta com o Painel do Trigo Nacional, que reúne Daniel Kümmel, presidente da Abitrigo, Elcio Bento, analista de Mercado de Trigo da Safras & Mercado, e Eduardo Bulgarelli, diretor de Trading e Originação da Bunge para a América do Sul. O encontro traz uma leitura integrada das safras 2025/26 e 2026/27, conectando a oferta global, o comportamento das principais origens exportadoras e os fatores que moldam a formação de preços no Brasil. 

Oferta global e fluidez do comércio internacional

Embora o balanço global indique estoques elevados, a análise de Elcio Bento mostra uma forte concentração desses volumes em poucos países exportadores, enquanto diversas regiões importadoras permanecem estruturalmente deficitárias. Dessa forma, o equilíbrio do mercado depende menos do volume total disponível e mais da fluidez do comércio internacional. 

No curto prazo, o quadro é tensionado pela entressafra nos principais exportadores do hemisfério norte, como Estados Unidos, Europa e Rússia. Nesse período, a oferta física imediata se torna mais restrita, elevando a dependência dos estoques e aumentando a sensibilidade do mercado a fatores como clima, geopolítica e movimentação de fundos. Como consequência, os preços internacionais permanecem firmes, mesmo diante de um balanço global teoricamente confortável. 

Impactos diretos para o BrasilPara o Brasil, essa dinâmica reforça a centralidade do mercado externo na formação de preços, uma vez que as paridades de importação são determinantes para o abastecimento interno. Nesse contexto, o trigo argentino se destaca como a origem mais competitiva pela proximidade logística e inserção no Mercosul. “Contudo, apesar do expressivo volume produzido na safra recente, a qualidade do trigo argentino foi comprometida, o que limita seu aproveitamento e impõe desafios adicionais ao abastecimento brasileiro”, afirma Bento. 

Nas projeções para o abastecimento nacional, o analista aponta um 2025/26 com produção próxima de 8 milhões de toneladas frente a uma demanda de 14,8 milhões — e um 2026/27 ainda mais restrito. A estimativa de queda de 10,1% na produção nacional, para cerca de 7,2 milhões de toneladas, é reflexo da redução de área plantada e de margens mais pressionadas para os produtores. 

No Paraná, a produção deve recuar de 2,8 para 2,5 milhões de toneladas, acompanhada por redução semelhante no Rio Grande do Sul, o que diminui a oferta interna disponível para os principais polos moageiros. Com isso, o país deve importar quase 8 milhões de toneladas, o maior volume já registrado. 

Eduardo Bulgarelli, diretor de Trading e Originação da Bunge para a América do Sul, apresentará no Moatrigo uma leitura das principais origens exportadoras — Rússia, Estados Unidos e Argentina. No caso da Argentina, serão explorados também aspectos qualitativos da safra e seus impactos na indústria moageira, especialmente na composição de blends e na necessidade de diversificação de origens. 

A discussão também destacará os principais vetores que influenciam o custo da farinha no país, incluindo geopolítica, energia, custos de produção e desafios logísticos ao longo da cadeia. 

O Painel do Trigo Nacional integra a programação do Moatrigo 2026, workshop promovido pelo Sinditrigo-PR que reúne gestores, especialistas e fornecedores para discutir eficiência industrial, qualidade, tecnologia, inovação e tendências da cadeia moageira. Em 2025, o evento registrou vagas esgotadas e reuniu mais de 400 participantes.

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