Predador induz formação de asas e dispersão em pulgão

Alta densidade de Harmonia axyridis elevou a produção de formas aladas de Myzus persicae em laboratório

24.07.2026 | 15:12 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Whitney Cranshaw / Colorado State University - Bugwood
Foto: Whitney Cranshaw / Colorado State University - Bugwood

A presença da joaninha Harmonia axyridis em densidades elevadas estimulou a produção de formas aladas do pulgão Myzus persicae e aumentou sua dispersão. O efeito ocorreu mesmo sem contato direto entre predador e presa. Os resultados indicam uma resposta adaptativa ao risco de predação e apontam um possível desafio para programas de controle biológico. A formação de asas pode favorecer a saída dos insetos da área tratada e a colonização de cultivos vizinhos (https://doi.org/10.1002/ps.71141).

O estudo avaliou os efeitos não consumptivos da predação sobre a morfologia, o movimento e a sobrevivência de Myzus persicae. Os pesquisadores testaram quatro densidades de Harmonia axyridis: zero, um, cinco e dez adultos. Os predadores permaneceram em um recipiente suspenso, a dois centímetros das plantas infestadas. Essa estrutura permitiu a exposição dos pulgões a sinais associados às joaninhas, mas impediu a predação direta.

Os ensaios começaram com cinquenta ninfas ou cinquenta adultos sem asas. A equipe acompanhou a produção de pulgões alados durante quatorze dias. No experimento iniciado com adultos, cinco e dez joaninhas aumentaram a quantidade de descendentes alados. A presença de apenas uma joaninha não produziu diferença em relação ao controle. No experimento iniciado com ninfas, o aumento significativo ocorreu apenas sob a maior densidade, com dez predadores.

Intensidade dos sinais

Os dados indicam uma resposta dependente da intensidade dos sinais emitidos pelo predador. O padrão não seguiu uma progressão linear simples. Em adultos, cinco predadores já ativaram a resposta. Em ninfas, o efeito apareceu somente com dez. Os cientistas associam essa diferença ao estágio de desenvolvimento dos pulgões e à programação materna envolvida na formação de descendentes alados.

Indução de asas

A indução de asas em Myzus persicae ocorre entre gerações. As fêmeas expostas ao risco produzem descendentes com maior capacidade de dispersão. No ensaio iniciado com ninfas, os indivíduos alados contabilizados pertenciam à geração seguinte. Esse resultado reforça a hipótese de uma resposta transgeracional ao risco de predação.

A equipe também avaliou o deslocamento dos dois tipos morfológicos. Os pulgões sem asas não apresentaram mudança significativa no movimento entre plantas após o aumento da densidade de joaninhas. Os alados ampliaram a dispersão sob maior risco. O tratamento com dez predadores registrou mais movimento em comparação ao controle. A resposta aproveitou a capacidade de voo desses indivíduos.

Maior predação

Em outro ensaio, um adulto de Harmonia axyridis recebeu cem pulgões adultos durante vinte e quatro horas. Os testes incluíram joaninhas machos e fêmeas. Ambos consumiram mais pulgões sem asas do que alados. As formas aladas apresentaram maior sobrevivência. O trabalho não identificou o mecanismo responsável pela diferença. A vantagem pode envolver voo, menor detectabilidade, posição ocupada na planta, tempo de manipulação, qualidade nutricional, palatabilidade ou preferência do predador.

Os resultados mostram uma combinação de plasticidade morfológica e mudança comportamental. Sob risco elevado, Myzus persicae direciona recursos para indivíduos capazes de abandonar o ambiente. Essa estratégia reduz a vulnerabilidade local, mas pode cobrar um custo reprodutivo. A formação de asas demanda recursos e tende a reduzir o investimento na reprodução imediata.

Manejo de pragas

O fenômeno pode afetar o manejo integrado de pragas. As joaninhas reduzem a população local ao consumir pulgões, sobretudo as formas sem asas. Ao mesmo tempo, concentrações elevadas de sinais de predação podem estimular a formação de indivíduos alados. Esses insetos podem alcançar outras plantas e ampliar a área infestada. A capacidade de dispersão também ganha importância devido ao papel de Myzus persicae na transmissão de vírus de plantas.

Os pesquisadores alertam para os limites da extrapolação. Os experimentos ocorreram em gaiolas e impediram o contato direto durante a fase de indução. No campo, altas densidades de predadores também aumentariam a mortalidade dos pulgões. Parte da população poderia morrer antes da formação da geração alada. Por esse motivo, o estudo não recomenda reduzir o uso de inimigos naturais. Os dados sustentam a busca por populações estáveis e equilibradas de predadores.

O trabalho sugere a existência de uma faixa de densidade capaz de manter a pressão de consumo sem provocar uma produção intensa de formas aladas. Essa hipótese ainda exige validação em condições de campo. O manejo de habitat, a rotação de culturas, o uso de cultivares resistentes e outras práticas culturais podem complementar o controle biológico e reduzir o risco de dispersão induzida.

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