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A agricultura digital avança com sensores, drones e inteligência artificial, prometendo decisões mais assertivas. Porém, nem sempre essas tecnologias são de fato adotadas. Algumas, por exemplo, não respondem às necessidades mais urgentes dos produtores ou carecem de infraestrutura digital ainda não totalmente acessível. Pesquisadores da Embrapa e da Unicamp, ligados ao projeto do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), construíram uma metodologia que avalia as tecnologias digitais em desenvolvimento, buscando prever se elas têm condições reais de adoção bem-sucedida em um determinado contexto agrícola (doi.org/10.1016/j.atech.2026.102359).
“É uma ferramenta criada para apoiar a decisão, seja de produtores rurais, desenvolvedores de tecnologias para o campo ou investidores da área. Ao ter uma nota de viabilidade da tecnologia para aquele contexto, o produtor rural e extensionistas podem avaliar se ela será, de fato, útil para a propriedade. Essa nota também pode auxiliar no julgamento de investimentos, sejam privados ou do poder público, e no próprio processo de desenvolvimento dessas tecnologias em laboratório”, explica Luciana Romani, pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital e coordenadora de parcerias do centro Semear Digital.
A metodologia cruza os requisitos de uma tecnologia, seja um software ou um hardware, com as características da propriedade e seu contexto geográfico, a prontidão da infraestrutura digital existente, o perfil do produtor rural e suas habilidades para lidar com a tecnologia proposta e a viabilidade econômica. “A ideia foi justamente suprir essa necessidade de saber se dá certo aplicar aquela tecnologia digital num contexto agrícola específico”, reforça Thais Dibbern, docente da FCA/Unicamp e pesquisadora associada ao Semear Digital.
O trabalho foi construído em cinco etapas metodológicas. Primeiro, uma análise bibliométrica avaliou 814 publicações científicas sobre adoção de tecnologias digitais, das quais 20 estudos de caso foram aprofundados. Em seguida, os pesquisadores mapearam dez índices e indicadores já utilizados por instituições nacionais e internacionais, como o Índice de Digitalização da Agricultura do Banco Mundial e o Ambitec-Agro da Embrapa. Esse mapeamento serviu tanto para identificar variáveis relevantes para a metodologia criada quanto para demonstrar seu ineditismo. “Essa análise comparativa mostrou que, até o momento, não existia uma metodologia parecida com o que estávamos propondo”, afirma Thais Dibbern.
Entre os diferenciais em relação a outros índices, a ferramenta incorpora variáveis que costumam escapar das avaliações tradicionais, como relevo do terreno, geração de resíduos poluentes, aumento do consumo de água e até mesmo questões jurídicas. “A posse da terra, por exemplo, acaba influenciando o produtor a querer adotar uma tecnologia digital ou não. Não é apenas o custo, não é apenas a capacidade de entender como funciona, mas também a confiança que ele atribui a esse tipo de ferramenta”, detalha a pesquisadora.
Além desses índices e indicadores, os pesquisadores também analisaram a bibliografia sobre barreiras e fatores de adoção de tecnologias no campo. “Com base nas barreiras e nas variáveis dos indicadores estudados é que formulamos esse novo instrumento de avaliação das tecnologias digitais”, explica Dibbern. “Depois disso, começamos a etapa de validação com especialistas de diferentes áreas e, em seguida, a prova de conceito com duas tecnologias reais.”
O instrumento de avaliação foi submetido à validação de 22 especialistas das áreas de agronomia, engenharia, ciências da computação e estatística, que ajudaram a atribuir pesos e a construir a escala final de avaliação, que vai de 1 a 5. “Eles contribuíram muito nesse processo dos pesos. Foi a partir dessa troca que construímos as fórmulas e a nossa escala”, relata a pesquisadora.
A prova de conceito testou a metodologia em duas tecnologias contrastantes desenvolvidas dentro do ecossistema da Embrapa: o software Aquicultura Certa, voltado à gestão da piscicultura, e um hardware que, acoplado a uma sacola de colheita, conta automaticamente o número de frutas colhidas e identifica as árvores mais produtivas. Os resultados revelaram comportamentos distintos.
No caso do Aquicultura Certa, as notas divergiram entre os dois perfis analisados. Para os desenvolvedores da tecnologia, a viabilidade foi considerada moderada, com nota 3. Já para os potenciais adotantes (produtores que testavam o sistema), a nota subiu para 4. A diferença, segundo o artigo, não indica erro de medição, mas sim um diagnóstico útil: o desenvolvedor, ao considerar todo o universo de propriedades possíveis, incluindo aquelas com infraestrutura precária de conectividade, enxerga barreiras que o usuário real, já instalado em um local com eletricidade e internet, considera superadas. “Talvez o desenvolvedor não capte a transformação que a tecnologia causa nem o impacto na vida do produtor. Eles não imaginavam que geraria esse impacto todo no campo, e o resultado vem sendo muito positivo”, observa Thais Dibbern.
Já o hardware de contagem de frutas recebeu nota 4 em ambos os perfis — desenvolvedor e adotante. Por demandar poucos pré-requisitos de infraestrutura e funcionar com comunicação autônoma baseada em Bluetooth, a tecnologia gerou consenso sobre sua alta viabilidade. “Os resultados indicam que o modelo proposto, em ambos os perfis, é consistente e confiável”, concluem os pesquisadores.
Neste momento, a metodologia opera em uma planilha eletrônica, e a intenção é transformá-la em um aplicativo ou plataforma digital de acesso amplo. Para isso, uma segunda rodada de validação está planejada, pois, ao final do primeiro ciclo, a equipe percebeu que novas questões surgiram e precisam ser incorporadas e testadas, como facilidade de uso da tecnologia e impactos sobre bem-estar animal, por exemplo. “Precisamos fazer uma nova validação para que a escolha das tecnologias seja cada vez mais assertiva, para que não haja custos desnecessários e, até mesmo, para que o próprio desenvolvedor consiga ter uma percepção mais apurada do público-alvo que deseja atingir”, afirma Thais Dibbern.
Além da aplicação direta no campo, os pesquisadores enxergam potencial para que o instrumento influencie o desenvolvimento de tecnologias em startups e a formulação de políticas públicas. “No caso das startups, serve para uma mudança de rumo, ou pivotagem, se você aplicar essa avaliação logo no início do período de ideação da proposta”, explica Luciana Romani. “Isso é especialmente útil quando você ainda não conhece o público profundamente e está em fase de imaginar as possibilidades de aplicação da nova tecnologia”.
Já para as políticas públicas, a lógica é que, ao mapear de forma sistemática as barreiras de adoção, como infraestrutura de conectividade, necessidade de treinamento e suporte técnico, o poder público possa direcionar investimentos de forma mais precisa. “Traduzir esse processo de adoção da tecnologia em políticas públicas, principalmente vinculadas ao suporte do Estado, considerando essas barreiras, é o que mais me chama a atenção”, conclui Thais Dibbern.
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