Infestação de moscas-das-frutas ameaça pomares no DF

Pesquisa da Embrapa identifica novas pragas agressivas

07.05.2026 | 17:43 (UTC -3)
Deva Heberlê

O Distrito Federal vive um paradoxo fitossanitário que pode frear uma das mais promissoras e atuais fronteiras da fruticultura brasileira. Se, por um lado, a vigilância rigorosa confirma que o DF é uma "área livre" de temidas pragas quarentenárias, como a mosca-da-carambola, por outro, os pomares locais enfrentam uma explosão populacional de espécies nativas e a chegada de uma nova invasora agressiva, a Drosophila suzukii.

O cenário é crítico para culturas sensíveis e de alto valor agregado, como o mirtilo, que corre o risco de se tornar economicamente inviável na região antes mesmo de consolidar sua recente expansão no Cerrado brasileiro.

O alerta é resultado de um projeto de pesquisa e de monitoramento iniciado em 2023 pelos pesquisadores Elisângela Fidelis e Marcelo Lopes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em parceria estratégica com a Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal (Seagri), com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).

Os dados levantados por Fidelis e Lopes revelam que a infestação atual é seis vezes superior ao limite tolerável para o mercado comercial, criando uma barreira invisível para a exportação e prejuízos para o produtor.

  • A infestação de moscas-da-frutas no Distrito Federal atinge níveis acima do tolerado para uma produção de qualidade satisfatória
  • A chegada da praga Drosophila suzukii ao Cerrado ameaça cultivos de pele fina, como o mirtilo, por perfurar frutos ainda sadios.
  • O DF é área livre de pragas quarentenárias internacionais, mas há riscos de introdução devido ao transporte urbano.
  • A superpopulação de insetos impediria a exportação das frutas locais para países como Estados Unidos, China e Japão.
  • Especialistas defendem que a realização de práticas de manejo e educação sanitária são as únicas formas de romper o ciclo de elevação da população de moscas-das-frutas.

A ciência utiliza uma métrica rigorosa para medir o perigo nos pomares: o índice Mosca/Armadilha/Dia (MAD). Trata-se de um indicativo técnico que determina o momento exato em que o produtor precisa intervir. Para que uma produção seja considerada segura, lucrativa e de alta qualidade, o índice deve permanecer abaixo de 0,5 moscas capturadas por dia em cada armadilha.

Entretanto, o levantamento da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia em cultivos de goiaba do Distrito Federal encontrou números alarmantes chegando a 2,5 e 3,0 moscas capturadas por dia em cada armadilha. "A diversidade de espécies não aumentou drasticamente desde a década de 1990, mas a quantidade de indivíduos cresceu muito", afirma Marcelo Lopes.

Esse excedente populacional gera um ciclo vicioso de destruição. As fêmeas depositam os ovos dentro dos frutos, as larvas crescem consumindo a polpa e provocam a queda prematura da produção. "Se o produtor deixa a fruta no chão, ele está mantendo um berçário para a praga. O fruto cai, a larva sai dele, entra no solo para virar pupa e depois emerge como uma nova mosca pronta para atacar o restante da plantação", detalha Lopes.

Barreiras internacionais e a "área livre”

Além do prejuízo direto na colheita, a superpopulação de moscas é o principal entrave à produção local chegar a mercados fora do DF, inclusive para produtores de maior porte que pretendem chegar a compradores de fora do Brasil. Isso porque países da União Europeia, Estados Unidos, China e Japão impõem restrições severas à importação de frutas oriundas de áreas com alta infestação. O temor desses países é que os frutos levem larvas "escondidas" que, ao chegarem ao destino, possam infestar seus próprios territórios.

Apesar desse desafio interno, a pesquisadora Elisângela Fidelis aponta um dado que é um positivo e estratégico para o país: o Distrito Federal permanece livre de pragas quarentenárias, como a mosca-da-carambola (Bactrocera carambolae) e a mosca-oriental (Bactrocera dorsalis). Atualmente, a mosca-da-carambola está restrita a estados do Norte, como Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, sob um rígido programa de erradicação do Ministério da Agricultura (Mapa).

"O trânsito de pessoas e mercadorias em áreas urbanas é o maior risco para a introdução dessas pragas no Distrito Federal", alerta Elisângela. Ela explica que o transporte informal de frutas em bagagens de viajantes é a principal via de dispersão. Uma única fruta infestada trazida de uma viagem pode destruir o status sanitário de toda uma região produtora em poucos dias.

A grande novidade negativa para a fruticultura do Cerrado é a detecção da Drosophila suzukii. Diferente das moscas-das-frutas comuns, que geralmente atacam frutos já feridos, podres ou caídos, esta espécie possui uma característica devastadora: ela consegue perfurar a casca de frutas intactas e de pele fina enquanto elas ainda estão no pé.

Para o mirtilo, que exige padrão visual impecável para o mercado premium, essa praga representa um risco. "Diferente das outras moscas que conhecemos, a suzukii consegue perfurar a casca de frutos perfeitamente sadios", explica o pesquisador Marcelo Lopes. Segundo ele, a entrada dessa espécie exige uma mudança drástica de postura. "Se quisermos aumentar a produção e introduzir novas espécies de fruteiras como o mirtilo, o monitoramento e o manejo são vitais, ou a produção não será economicamente viável", alerta Marcelo Lopes.

A preocupação de Marcelo Lopes é compartilhada com Elisangela Fidelis. Ambos observam que o mirtilo e o morango são apostas de diversificação para o pequeno e médio produtor do Distrito Federal e entorno. Eles enfatizam que, sem um controle rigoroso, o valor comercial dessas frutas pode ser reduzido a zero, já que a presença de uma única larva inviabiliza a venda para grandes redes e mercados externos.

Para manter o monitoramento em dia e garantir a detecção precoce de qualquer invasora, os pesquisadores instalaram armadilhas em pontos estratégicos de circulação, como as Centrais de Abastecimento (Ceasa), feiras permanentes e propriedades rurais. Estas armadilhas (como a da foto ao lado mostrada por Marcelo Lopes) contêm paraferomônios como o metil-eugenol, substância que atrai os machos das espécies para uma base colante, permitindo que os cientistas identifiquem rapidamente o que está circulando no ambiente.

"O objetivo é transformar o conhecimento científico gerado nos laboratórios da Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal da Embrapa em práticas cotidianas para o agricultor", afirma Marcelo Lopes (foto ao lado). Isso inclui a capacitação intensiva de técnicos da extensão rural e de fiscais agropecuários do DF.

A entomologista Elisângela Fidelis observa que a tecnologia sozinha não resolve o problema. Como as larvas crescem protegidas dentro do fruto, o uso isolado de defensivos químicos muitas vezes é ineficaz. A solução real passa pela educação sanitária e pela criação de uma "rede de proteção" que integre o campo e a cidade.

Elisangela Fidelis e Marcelo Lopes são enfáticos: a consolidação dos dados levantados no projeto de monitoramento das moscas-das-frutas é como um alerta às autoridades, produtores e à própria sociedade. Segundo os pesquisadores, é possível reduzir os índices de infestação para que o polo de fruticultura do Distrito Federal não seja apenas produtivo, mas também competitivo em nível global.

A viabilidade de culturas rentáveis, como o mirtilo, depende hoje dessa conscientização coletiva, observa Marcelo Lopes. O sucesso dos pomares não termina na colheita, mas começa no manejo do pomar e na responsabilidade de cada agricultor e cidadão em não transportar frutos de uma região para outra. Proteger o patrimônio agrícola do País, como defendem Lopes e Fidelis, é uma tarefa que exige pesquisas e disciplina rigorosa no campo.

Com a aplicação correta das técnicas de manejo e a vigilância constante, o Distrito Federal tem o potencial de superar a crise das moscas-das-frutas e se tornar uma referência na produção de frutas finas para o Brasil e para o mundo.

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