Incertezas geopolíticas mantêm viés altista para o petróleo

Projeções da StoneX indicam que a evolução do conflito no Oriente Médio seguirá determinando o equilíbrio global

15.04.2026 | 16:04 (UTC -3)
Valéria Campos

O mercado global de petróleo deve continuar operando sob elevada volatilidade ao longo dos próximos meses, em meio às incertezas em torno do bloqueio do Estreito de Hormuz e à ausência de uma solução diplomática definitiva entre Estados Unidos e Irã. As projeções constam da 35ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, lançado na terça-feira (14), que aponta para a manutenção de riscos relevantes no balanço global de oferta e demanda da commodity. 

Desde o início do conflito, o bloqueio do Estreito de Hormuz provocou a maior disrupção de oferta da história recente do petróleo, interrompendo o fluxo de cerca de 12 milhões de barris por dia (mbpd), aproximadamente 12% da produção global, provenientes do Golfo Pérsico. Como reflexo direto, o contrato mais ativo do Brent passou a sustentar preços acima de USD 100 por barril, em patamares semelhantes aos observados em 2022, após o início da guerra no Leste Europeu.

“Mesmo considerando rotas alternativas e a liberação de reservas estratégicas, o mercado continuará convivendo com um déficit relevante nos próximos meses”, avalia Bruno Cordeiro, especialista de Inteligência de Mercado. “A atual capacidade logística não é suficiente para substituir o papel do Estreito de Hormuz, o que mantém uma parcela importante da oferta global fora do mercado.”

De acordo com a StoneX, empresa global de serviços financeiros, embora vias como o Canal de Suez e o Estreito de Bab el-Mandeb sigam operantes, a infraestrutura disponível permite o redirecionamento de apenas uma fração do petróleo originalmente escoado pelo Golfo Pérsico. Até a terceira semana de março, cerca de 5 mbpd estavam sendo transportados por rotas alternativas, majoritariamente via oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos até o Mar Vermelho, além de aproximadamente 1,2 mbpd que continuaram a atravessar o estreito, em grande parte exportações iranianas – que ficaram suspensas após o início do bloqueio norte-americano aplicado em meados de abril.

A liberação de 426 milhões de barris das reservas estratégicas anunciada pela Agência Internacional de Energia (IEA), sendo 301 milhões de barris de petróleo e 125 milhões de barris de derivados, deve ajudar a mitigar parte do choque de oferta no curto prazo. Ainda assim, segundo os cálculos da StoneX, mesmo com uma adição próxima de 3 mbpd via SPR, o mercado pode seguir com até 9 mbpd indisponíveis, o equivalente a cerca de 8% da oferta global.

“Esse desequilíbrio tende a se traduzir em uma redução mais acelerada dos estoques comerciais ao longo dos próximos trimestres, principalmente se o bloqueio do estreito se prolongar”, afirma Cordeiro. “É esse fator que sustenta a expectativa de preços estruturalmente mais elevados no curto e médio prazo". complementa. 

Oferta e demanda

A Ásia deve seguir como a região mais vulnerável ao cenário de restrições de oferta. Em 2025, aproximadamente 12,9 mbpd atravessaram o Estreito de Hormuz rumo aos mercados asiáticos, com a China respondendo por 35% desse volume e a Índia por 16%. Juntos, os países do Golfo Pérsico foram responsáveis por cerca de 40% das importações totais de petróleo dessas duas economias, que também concentram os maiores centros globais de refino.

No curto prazo, a decisão da China de banir as exportações de diesel e gasolina adiciona pressão ao balanço regional de combustíveis, afetando países asiáticos dependentes das vendas chinesas. O Japão, por sua vez, deve ampliar a busca por fornecedores alternativos, como os Estados Unidos, movimento que tende a impactar também o balanço norte-americano de oferta e demanda.

Nos EUA, apesar de um quadro mais confortável de produção, a StoneX avalia que o avanço das exportações de petróleo e derivados tende a limitar o crescimento dos estoques nas próximas semanas. O aumento da demanda externa levou, inclusive, as exportações norte-americanas a operarem próximas da capacidade máxima, refletindo o novo papel do país como fornecedor estratégico em um cenário de escassez global.

Segundo o relatório, outro fator relevante para os próximos meses é o reposicionamento do petróleo russo no mercado internacional. Após enfrentar dificuldades para encontrar compradores, a Rússia voltou a ganhar espaço com a maior procura por barris sancionados, especialmente por parte da Ásia. Apesar disso, ataques a portos estratégicos no fim de março reduziram temporariamente a capacidade de exportação do país, reforçando os riscos de curto prazo para o abastecimento global.

“As projeções da StoneX indicam que, mesmo com um cessar-fogo temporário, a falta de uma resolução definitiva entre EUA e Irã mantém um viés altista para os preços do petróleo”, conclui Bruno Cordeiro. “Um acordo duradouro e a reabertura plena do Estreito de Hormuz poderiam reverter esse movimento, levando a uma trajetória de queda mais acelerada nos preços. Até que isso ocorra, a volatilidade seguirá elevada e os riscos de oferta continuarão no centro das atenções do mercado”, finaliza, Cordeiro.

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