Estudo sugere limites dos bioinseticidas no controle de pulgões

Pesquisa aponta eficácia dos produtos por contato direto, mas identifica riscos a parasitoides e predadores e baixa atividade residual

15.10.2026 | 14:36 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: David Cappaert - Bugwood
Foto: David Cappaert - Bugwood

Bioinseticidas formulados com ácidos graxos e polímeros de silicone reduziram populações de pulgões em ensaios de laboratório com canola (Brassica napus). Os mesmos tratamentos provocaram mortalidade de inimigos naturais após contato direto. A exposição a resíduos secos apresentou efeitos limitados. Os resultados indicam potencial de uso desses produtos no manejo integrado de pragas, mas exigem aplicações direcionadas e proteção dos organismos benéficos.

A pesquisa foi conduzida na Harper Adams University, no Reino Unido (doi 10.1002/ps.70518). O trabalho avaliou Myzus persicae e Brevicoryne brassicae, pulgões associados a perdas na canola e à transmissão do vírus do amarelecimento do nabo. Os cientistas também investigaram os efeitos sobre o parasitoide Diaeretiella rapae e larvas do predador Chrysoperla carnea.

Três formulações

Os ensaios incluíram três formulações comerciais de ação física: FLiPPER, à base de ácidos graxos; ProTAC SF, com polímeros de silicone; e Fizimite, formulado com surfactantes, incluindo lauril éter sulfato de sódio. As concentrações seguiram as recomendações dos fabricantes: 1,6%, 0,125% e 0,1%, respectivamente. O inseticida sulfoxaflor, na concentração de 0,1%, serviu como referência de controle químico. Os pesquisadores também utilizaram água e organismos sem tratamento como controles negativos.

Os ácidos graxos podem comprometer a integridade da cutícula e favorecer a desidratação dos insetos. Segundo a descrição do fabricante, os polímeros de silicone formam uma rede capaz de restringir movimentos e alimentação. Os surfactantes reduzem a tensão superficial e podem afetar componentes da cutícula. A pesquisa não verificou diretamente esses mecanismos de ação.

Formas de exposição

A equipe comparou três formas de exposição: pulverização sobre insetos e folhas; pulverização direta dos insetos, seguida de transferência para folhas sem tratamento; e contato com folhas pulverizadas após a secagem dos resíduos durante 45 minutos. Os pulgões passaram por avaliações de sobrevivência até 72 horas. Para os inimigos naturais, a mortalidade foi acompanhada durante 24 horas. A emergência de parasitoides a partir de pulgões mumificados recebeu avaliação após 14 dias.

Na pulverização conjunta de insetos e folhas, ácidos graxos e polímeros de silicone provocaram 100% de mortalidade de Brevicoryne brassicae em até 300 minutos. Para Myzus persicae, a mortalidade ficou entre 73% e 83% após 72 horas. O tratamento com surfactantes alcançou 47% em Brevicoryne brassicae e 10% em Myzus persicae. O sulfoxaflor superou 95% de mortalidade nas duas espécies em até 150 minutos.

Quando a pulverização atingiu apenas os insetos, ácidos graxos e polímeros de silicone causaram, cada um, 90% de mortalidade em Brevicoryne brassicae após 72 horas. Em Myzus persicae, os índices corresponderam a 63% e 53%. A formulação com surfactantes registrou 56% em Brevicoryne brassicae e 20% em Myzus persicae. A diferença entre as espécies sugere influência de características próprias dos pulgões sobre a eficácia dos produtos de contato.

Inimigos naturais

Os riscos aos inimigos naturais apareceram nos tratamentos diretos. Na aplicação sobre parasitoides adultos e folhas, ácidos graxos e polímeros de silicone causaram 100% de mortalidade de Diaeretiella rapae em 24 horas, mesmo resultado obtido com o sulfoxaflor. A formulação com surfactantes atingiu 70%. No ensaio com pulverização apenas sobre o parasitoide, os polímeros de silicone eliminaram todos os indivíduos em 30 minutos; os ácidos graxos alcançaram o mesmo resultado em 150 minutos.

As larvas de Chrysoperla carnea apresentaram respostas distintas. Na aplicação combinada, os polímeros de silicone causaram 50% de mortalidade; os ácidos graxos, 36%; e os surfactantes, 16%. Na pulverização direta apenas sobre as larvas, os índices chegaram a 100%, 66% e 16%, respectivamente. O sulfoxaflor provocou mortalidade de 26% na exposição combinada e 50% na exposição direta apenas sobre as larvas.

Resíduos secos

A exposição a resíduos secos reduziu a ação dos bioinseticidas. Nenhum bioinseticida provocou mortalidade de Myzus persicae nessa condição. Em Brevicoryne brassicae, os ácidos graxos alcançaram 10% de mortalidade e as outras duas formulações, 3% cada, valores próximos ao controle sem tratamento. O sulfoxaflor provocou 100% de mortalidade dos dois pulgões após 72 horas.

Entre os inimigos naturais expostos aos resíduos secos, os ácidos graxos provocaram 33% de mortalidade de Diaeretiella rapae em 24 horas. O sulfoxaflor chegou a 93%. Em Chrysoperla carnea, nenhum bioinseticida ultrapassou 13%, enquanto o sulfoxaflor alcançou 66%. A exposição residual também não alterou significativamente a emergência dos parasitoides a partir de pulgões mumificados.

Tratamento combinado

O tratamento combinado com ácidos graxos reduziu a probabilidade estimada de emergência de Diaeretiella rapae para 63%, diante de 87% no controle sem aplicação. A diferença apresentou significância estatística. Os demais tratamentos não produziram diferenças significativas em relação aos controles nesse indicador.

Segundo os pesquisadores, a baixa persistência após a secagem favorece o retorno de inimigos naturais às áreas tratadas. Em contrapartida, a eficácia contra pulgões depende da cobertura e do contato com os insetos, frequentemente abrigados na face inferior das folhas. Os resultados não permitem presumir ausência de riscos apenas pela origem natural dos produtos. O trabalho ocorreu em laboratório. Ensaios de campo ainda precisam estabelecer estratégias de aplicação capazes de conciliar supressão de pulgões e conservação dos agentes de controle biológico.

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