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Pesquisadores propõem a adoção preliminar de dois adultos de Diceraeus melacanthus por metro como nível de controle para o milho cultivado no sistema Antecipe. O valor busca reduzir o risco de perdas causadas pelo percevejo durante a emergência do cereal. O estudo registrou danos expressivos em todas as densidades da praga testadas e redução de produtividade na maior delas. O trabalho também aponta necessidade de validação do limite em lavouras comerciais, diferentes regiões e híbridos de milho (doi 10.1007/s13744-026-01439-x).
O sistema Antecipe permite semear o milho nas entrelinhas da soja ainda em fase reprodutiva. A implantação ocorre entre 15 e 20 dias antes da colheita da oleaginosa. A estratégia pode reduzir em até 20 dias o ciclo do sistema soja-milho. A antecipação amplia a janela de semeadura do milho safrinha e reduz a exposição da cultura à seca e à geada no fim do ciclo.
Mas a sobreposição das duas culturas também mantém uma ponte verde para insetos fitófagos. Nesse cenário, Diceraeus melacanthus encontra plantas hospedeiras durante a transição entre soja e milho. A presença simultânea das culturas pode favorecer a permanência da população no agroecossistema no período de maior vulnerabilidade das plântulas de milho.
O estudo avaliou a preferência da praga entre soja em senescência e milho recém-emergido. Também mediu danos e produtividade sob quatro densidades de infestação. Os experimentos ocorreram em Londrina, no Paraná, entre 2024 e 2025.
No ensaio de preferência, dez adultos de Diceraeus melacanthus foram liberados em gaiolas com uma planta de soja e uma planta de milho. O cereal encontrava-se no estádio VE. As avaliações ocorreram durante três dias, às 8h30, 12h30 e 16h30.
Os insetos permaneceram em maior número sobre a soja na maior parte das avaliações. O resultado chama atenção porque Diceraeus melacanthus costuma ser descrito como espécie associada a gramíneas, especialmente o milho. Os pesquisadores consideram que a dieta usada na criação em laboratório pode ter influenciado a escolha. As ninfas foram alimentadas com grãos de soja, o que pode condicionar a preferência alimentar dos adultos.
A distribuição também variou ao longo do dia. Às 8h30, período mais ameno, os percevejos apareceram de forma mais equilibrada entre as duas culturas. A partir das 12h30, a soja concentrou maior número de indivíduos.
Os pesquisadores associam essa variação diária às diferenças de microclima entre as plantas. A soja no estádio R7 apresenta dossel mais alto e denso em comparação às plântulas de milho. Essa estrutura pode oferecer maior umidade e menor temperatura durante os períodos mais quentes.
A presença maior na soja não eliminou o risco para o milho. Os dados indicaram atividade de Diceraeus melacanthus sobre o cereal, com tendência de maior presença no início da manhã. Segundo os pesquisadores, a soja pode atuar como hospedeiro de suporte e manter a praga próxima ao milho durante a emergência.
O experimento de campo avaliou densidades de zero, um, dois e quatro adultos por metro. Os tratamentos permaneceram em gaiolas de seis por quatro metros. A infestação ocorreu quando o milho alcançou o estádio VE. As avaliações de danos começaram seis dias depois e seguiram aos dez e 13 dias após a infestação.
A presença dos percevejos elevou a intensidade das injúrias. As médias de dano ficaram próximas de zero no tratamento sem percevejos. As densidades de um, dois e quatro insetos por metro alcançaram médias de 2,0, 2,4 e 2,5, respectivamente, em escala de zero a quatro, sem diferença estatística entre si. Mesmo a menor densidade provocou danos expressivos.
Os danos também avançaram com o tempo. Aos dez dias após a infestação, todos os tratamentos com percevejos ultrapassaram nota média 2,0. Aos 13 dias, a menor densidade, com um inseto por metro, alcançou nota 2,75. Essa nota ficou próxima dos resultados encontrados nas populações maiores.
A produtividade respondeu à densidade da praga. O tratamento sem infestação produziu 9.108,9 quilogramas por hectare. A densidade de quatro percevejos por metro resultou em 7.615 quilogramas por hectare. A diferença correspondeu a uma redução de 1.494 quilogramas por hectare, ou 16,4%.
O tratamento com dois percevejos por metro produziu 7.979,6 quilogramas por hectare. Esse resultado ocupou posição intermediária e não apresentou diferença estatística em relação às densidades menores nem em relação à maior população. Os pesquisadores interpretam esse ponto como possível transição entre tolerância da planta e capacidade de compensação dos danos.
Com base nesses resultados, o estudo propõe dois adultos de Diceraeus melacanthus por metro como nível de controle mais conservador para o sistema Antecipe. A referência anterior citada no trabalho indica três percevejos por metro para milho safrinha cultivado após a soja, sem considerar a sobreposição entre as culturas.
O manejo no Antecipe também precisa considerar os danos mecânicos provocados pela colheita da soja sobre as plântulas de milho. Esse fator não foi avaliado nos experimentos. Estudos citados pelos pesquisadores indicam que esse estresse pode reduzir a área foliar e a capacidade de recuperação das plantas. A associação entre injúrias mecânicas e alimentação de Diceraeus melacanthus pode ampliar o impacto sobre o desenvolvimento inicial do cereal.
Estratégias de controle aplicadas no fim do ciclo da soja também têm alcance limitado. Estudo anterior citado no trabalho mostrou que aplicações de inseticida nessa fase e a dessecação pré-colheita não reduziram as infestações posteriores no milho. Para os pesquisadores, o risco está ligado principalmente à continuidade de plantas hospedeiras no tempo e no espaço. Essa condição é intensificada no Antecipe e reduz a margem de decisão no manejo.
O uso do novo limite ainda exige cautela. Os experimentos com infestação ocorreram em gaiolas. Os pesquisadores recomendam validação em condições abertas de lavoura, sob diferentes condições climáticas e com outros materiais de milho. O trabalho também destaca monitoramento frequente e precoce, respeito ao intervalo de segurança de inseticidas antes da colheita da soja, tratamento de sementes e uso de cultivares de milho mais tolerantes como componentes do manejo integrado.
O estudo foi realizado pelos cientistas Weidson Plauter Sutil, Letícia Carolina Chiampi Munhoz e Adeney de Freitas Bueno.
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